Como já foi comentado em outra oportunidade, os principais agentes fomentadores da ovinocultura brasileira, organizações públicas e privadas, optam pela acomodação em manejar ovinos à semelhança de bovinos, tolerando oportunismos e hipocrisias.
Conceitualmente, o comportamento humano é fruto da interação de três fatores:

Os conhecimentos, depois de originarem uma escala de valores, geram atitudes que geram ações, que enriquecem os conhecimentos.
Logo, conhecimentos esquecidos, abandonados ou ignorados, de forma isolada ou coletiva, não geram atitudes que, consequentemente, não geram ações.
Sendo assim, deve ser lembrado e enfatizado que o fomento a qualquer atividade necessita ser eficiente e eficaz, ou seja, deve gerar mudanças justificáveis de comportamento, através do aporte de conhecimentos, capazes de provocar atitudes empreendedoras que gerem as ações necessárias à promoção do sucesso empresarial da atividade fomentada. Não basta a destinação de recursos financeiros e o envolvimento de pessoas e instituições, mesmo que as ações sejam volumosas e abrangentes, para uma atividade se solidificar. A ordem de execução das ações, desde que específicas e inspiradas por atitudes empreendedoras e profissionais, é o fator limitante para a eficácia. Por exemplo: O aporte de conhecimentos sobre "Alternativas de alimentação de ruminantes" para produtores que ainda não definiram se vão produzir leite de vaca, carne de cordeiro ou galinha caipira é completamente infrutífero, mas gera custos que precisam ser bancados por cofres públicos ou privados.
Mas, e daí? Até aqui todo o mundo sabe (pelo menos, deveria saber). Mas, se todos sabem, por que a maior parte dos trabalhos de fomento que vêm sendo desenvolvidos, muitos há mais de uma década, ainda não fez a carne ovina decolar dentro do agronegócio nacional?
Temos uma explicação plausível:
"O que está sendo fomentado é a ovinocultura como uma atividade, simplesmente, de abrangência espacial e temporal, indefinida."
Portanto, cada novo empreendedor, ao se tornar proprietário de um rebanho ovino, espera obter rentabilidade contando com a paciência do Mercado Consumidor no sentido de aguardar uma evolução casual e/ou circunstancial da produção desse seu rebanho. É um fomento às atitudes individualistas, oportunistas, de conveniência e descomprometidas com disciplinas de produção.
Em ovinocultura, não basta, simplesmente, direcionar a atividade para a produção de ovinos. O Mercado Consumidor não aceita produtos indefinidos. Somente um ovinocultor é que poderá se interessar pela compra de ovinos. O consumidor quer, apenas, os produtos que os ovinos produzem (carne, lã, couro, etc.). Portanto, fica fácil entender que, ao direcionar uma atividade para a produção de um produto específico, é a objetividade do processo produtivo que gera a eficiência empresarial e a sustentabilidade financeira. Assim como a sobrevivência de uma empresa está baseada no seu fluxo de caixa, a aceitabilidade de um produto pelo consumidor está baseada em qualidade padronizada, disponibilidade, preço, regularidade de fornecimento e pontualidade de entrega.
Infelizmente, quando o assunto é a produção de carne à base de capim, existe a grande barreira cultural do pecuarista brasileiro que se caracteriza por reunir os seis grandes fatores geradores de ineficiência empresarial da atividade rural, quais sejam:
- Extrativismo
- Individualismo
- Empirismo
- Circunstancialidade
- Casualidade
- Desconhecimento
Podemos e devemos, nós produtores, trabalhar para incluir, através da ovinocultura, a carne de cordeiro, que é o produto nobre da atividade, no agronegócio nacional e internacional, assim como aconteceu com a carne de frango, produto nobre da avicultura, que, do início de sua produção até hoje, conta com um fomento específico e é responsável, atualmente, por uma fatia significativa das exportações brasileiras.
Concluindo, embora contrarie os posicionamentos de muitas pessoas e instituições sobre o assunto, insistimos e garantimos que esse trabalho é exequível e simples, embora, como já dissemos, possa não ser fácil devido às barreiras culturais que engessam a classe produtora.
Como fazer?
Basta que sejam fomentadas, apenas, duas linhas de ação, de maneira simultânea, objetiva e expressivamente profissional, as quais estão relacionadas a seguir:
1.Direcionar a atividade para a produção coletiva de, apenas, um produto especificamente definido (qualificando como subprodutos quaisquer outros resultados do processo).
2.Desenvolver e implantar métodos de produção que, através de expedientes técnicos consagrados e adequados ao cenário sócio-ambiental regional, sejam especializados em gerar previsibilidade de resultados em rebanhos integrados por características zootécnicas e manejos predefinidos específicos e relacionados às três premissas que devem caracterizar um produto para a sua aceitação no mercado consumidor, quais sejam:
- Padrão de qualidade
- Escala de produção
- Regularidade de fornecimento
Lembramos que demanda é resultado de hábito de consumo, e este só acontece a partir da oferta regular do produto e satisfação do consumidor.
A expressão "produção coletiva" refere-se à necessidade de organizar o processo produtivo a partir do somatório de vários rebanhos de matrizes ovinas (não, apenas, de fêmeas) que, integrados por um programa de manejo preestabelecido, sejam suficientemente numerosos para atender a demanda de um mercado definido.
Os exemplos de produtores do Nordeste e de um grupo de ovinocultores do Mato Grosso, coordenado por nós, mostram que já existem processos produtivos onde o produto obtido é resultado da interação e adequações específicas (sistematização) dos seis pilares da Zootecnia, quais sejam:
- Meio Ambiente
- Genética
- Manejo Reprodutivo
- Manejo Nutricional
- Manejo Sanitário
- Instalações
Então, é, apenas, uma questão de atitude. Enquanto as ações de fomento estiverem focadas na simples disseminação de rebanhos ovinos, a produção do produto nobre da ovinocultura vai continuar sendo fruto de oportunidades casuais, circunstanciais e/ou individualistas, o que desperta a grande dúvida: será que, um dia, seremos responsáveis por uma fatia do abastecimento internacional de carne ovina?
Assim como um balaio de palavras não garante uma idéia, um rebanho de ovinos não garante o lucro.
Por já existirem grupos de produtores associados e desenvolvendo uma metodologia específica para atender às duas linhas de ação citadas acima, acreditamos que a disseminação dessa estratégia, relacionada à mudança de comportamento do produtor visando o saneamento da atividade, poderá transformar a produção de carne de cordeiro em mais um grande gerador de riquezas dentro do agronegócio brasileiro.
"Lucro é o resultado do comportamento de empresários com atitude empresarial, que geram ações definidas pelo conhecimento profissional."(GK)
Artigo publicado na Revista "O BERRO"-nº 123 - Junho de 2009