Dores do crescimento

Nesse momento em que estamos no fim do ano e precisamos pensar e principalmente planejar como trabalharemos no próximo ano, acho importante algumas considerações sobre o crescimento de rebanho.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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Nesse momento em que estamos no fim do ano e precisamos pensar e principalmente planejar como trabalharemos no próximo ano, acho importante algumas considerações sobre o crescimento de rebanho.

Um dos grandes dilemas, se não o maior a afetar a lucratividade da atividade leiteira é relacionado com o crescimento do rebanho. Alguns índices de eficiência que são apregoados como de extrema importância técnica, na verdade embutem graves perigos financeiros para a atividade, e que só serão percebidos quando há poucas alternativas de correção.

Zootécnicamente e principalmente FINANCEIRAMENTE falando, é quase impossível para uma propriedade crescer com taxas muito superiores a 10 % ao ano, considerando a estabilidade da idade média do rebanho, e aí que começam os problemas. A grande maioria dos técnicos apregoa duas "verdades absolutas", que são a importância de ter um intervalo entre partos (IEP) ao redor de 400 dias para rebanho especializado e ao redor de 350 dias para rebanho azebuado, com dias em leite médio para as vacas em lactação (DEL - obs: não é a duração total da lactação) ideal ao redor de 165 para o primeiro grupo e 140 dias para o segundo.

Isso acaba sendo pedra de toque para muitos e movimentando uma extensa rede de interesses, como treinamento de funcionários para melhorar visualização de cio, venda de hormônios reprodutivos, adoção de programas de sincronização, venda de sêmen com alta taxa de concepção, etc... Até aí, tudo bem. Zootecnicamente falando, com exceções para rebanhos geneticamente superiores o caminho é este mesmo; o problema é o lado FINANCEIRO.

Vamos colocar na ponta do lápis como ficam os rebanhos seguindo as recomendações acima, e considerando alguns índices como ideais, tais como morte ao parto de 3%, descarte até a idade adulta de 4 %, e descarte de vacas ao redor de 22% ao ano.

Para simplificar consideramos um rebanho com animais europeus inicial de 50 vacas adultas com 84 % dos animais produzindo leite, ou seja em média 42 animais em ordenha e 8 vacas secas, e logo de cara percebemos o primeiro problema. A relação média ao longo do ano entre animais que geram receita e os que só geram despesas deve se situar ao redor de 50% cada, ou seja se tenho 42 vacas produzindo só posso ter 42 animais gerando despesas. Considerando o Ano 1, terei 42 animais em produção para 51 animais gerando despesas. Estes 9 animais jovens a mais, já que o número de vacas secas é muito difícil de ser alterado, acabam acarretando um custo de criação ao redor de R$ 18.000,00 acima do desejável e que corroem diretamente o lucro da atividade. Considerando produção média de 26 litros por vaca/dia e preço médio ao longo do ano de R$ 0,52, teremos um faturamento total de R$ 207.261,60. Como o lucro líquido médio da atividade com este nível de produção seria ao redor de 8%, teremos um resultado final negativo onde após todo um ano de trabalho faltam R$ 1.420,00 para fecharmos as contas, e simplesmente não temos como assumir nenhum compromisso com investimentos tais como um novo barracão, ou a compra de um tanque resfriador de leite, pois não sobra nada da atividade para sustentar o crescimento.

Quando consideramos um rebanho azebuado, aí mesmo que o negócio entorta de vez, pois com lactações mais curtas, menor nível de produção, maior produção de animais jovens por ano devido ao intervalo entre partos ser menor e menor taxa de descarte que rebanhos europeus, a conta fica impossível de fechar.

Vejamos alguns números. Assim como no rebanho europeu iniciamos com 50 vacas adultas, porém com 76% no leite, ou seja 38 animais em média produzindo leite e 12 vacas secas.

Figura 1

A conta é a mesma, porém considerando um custo de produção das novilhas um pouco menor (algo em torno de R$ 1.700,00 por novilha parindo). A relação média simplesmente estourou, pois teremos apenas 38 animais gerando receitas e 61 animais gerando despesas, o que indica uma relação 38,4/61,6. Ao transformar isto em faturamento e considerando que há uma sobra de 10 novilhas com custo total de R$ 17.000,00 veremos como fica o resultado. Considerando produção média por vaca de 18 litros e preço médio também de R$ 0,52 teremos um faturamento anual de R$ 129.823,20 com margem líquida também ao redor de 8% e um buraco financeiro de R$ 6.614,14.

Em ambos os casos quanto maior a eficiência zootécnica, pior o resultado financeiro.

O problema é este, mas quais seriam as possíveis saídas? Considerando rebanho europeu o caminho já vem sendo trilhado por grandes produtores em Israel, nos Estados Unidos e aqui no Brasil que adotam uma estratégia combinada de aumento do nível de produção e um aumento do intervalo entre partos (incrível não, pois é o contrário que muitos apregoam), trabalhando com médias superiores a 35 litros e intervalo entre parto de 450 dias. Com estas atitudes diminuem o crescimento do rebanho para uma taxa média ao redor de 10 % ao ano e conseguem ganhar dinheiro com a exploração e crescer.

Figura 2

Vamos refazer as contas, considerando os novos números, mantendo as taxas de perdas nos animais jovens e aumentando o descarte de adultos para 24%. Com este intervalo entre partos, teremos em média 45 animais em lactação e apenas 5 animais secos ao longo do ano 1. Considerando que teremos 39 animais jovens, passamos a ter mais animais produzindo do que gerando despesas. Considerando a média proposta acima, e mantendo o mesmo preço recebido o faturamento salta para R$ 298.935,00 e o lucro líquido médio para 14% com saldo financeiro real de R$ 41.850,90, que permite ao produtor crescer com sustentação

Com relação ao rebanho azebuado, mesmo com incrementos de produção por animal, a principal alternativa para recomposição do faturamento é a venda de novilhas prenhas, o que já vem sendo feita por inúmeras propriedades que na verdade ganham dinheiro não com a produção de leite mas sim com a comercialização de animais jovens.

Como se vê acima, de nada adianta reclamar do mercado e do governo se não somos eficientes da porteira para dentro. Com um mercado mais saudável (maior participação de cooperativas eficientes) os ganhos iniciais podem se transformar em ganhos ainda maiores, porém o produtor que só ganha com o mercado muito aquecido corre o sério risco de ficar fora da atividade em períodos de baixas cotações.

Figura 3
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Material escrito por:

Mario Sérgio Zoni*

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Leonel João Viecili
LEONEL JOÃO VIECILI

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 11/12/2006

Acho que deve-se levar em conta também as perdas que um intervalo entre partos mais prolongado pode acarretar ao rebanho, ocasionando menor produtividade nas próximas lactações, comprometendo a vida útil do rebanho na propriedade.

A questão da venda de animais, acho que o produtor de contar sim como um ganho extra, pois é daí que os investimentos na propriedade às vezes saem.

<b>Resposta do autor:</b>

Leonel,

Essas perdas hoje são mensuradas considerando todos os fatores de custo que estão envolvidos, além apenas da possível queda de produção, que em rebanhos da raça holandesa com alta genética são bem menores as perdas do que se divulga usualmente (2 a 3 % ao mês).

Estima-se o custo do parto, o custo do período seco a perda de valor do animal a cada aumento do número de lactações, entre outras coisas. Para rebanhos com alta produção e alta persistência, a extensão do intervalo de partos por mais 35 dias, produz um ganho financeiro de aproximadamente R$ 0,45 por dia de produção em vacas ao primeiro parto e de R$ 0,35 para animais a partir da segunda lactação, considerando todos os dias em lactação.

Como se vê, não existem verdades absolutas, e sim resultados absolutos. Como o que manda na atividade é lucro, você decide se quer ganhar ou não dinheiro. Quanto à venda de animais, este é um mercado inexistente ou pouco compensatório quando falamos de rebanhos especializados, ao contrário dos azebuados que tem um mercado mais aquecido.
William França da Silva
WILLIAM FRANÇA DA SILVA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/12/2006

Muito interessante o artigo, que quebra o paradigma do intervalo entre partos. Instintivamente já percebi isso em minha propriedade, o IEP não pode ser uma premissa absoluta, mas sim uma das variáveis importantes na produção.
Qual a sua dúvida hoje?