A ultrassonografia na reprodução pode objetivar o diagnóstico de prenhez, a sexagem e quantificação fetal, a avaliação de patologias dos órgãos da reprodução e o acompanhamento da dinâmica folicular. No presente artigo trataremos do diagnóstico e acompanhamento da gestação.
O diagnóstico de prenhez apresenta grande importância no aprimoramento do manejo reprodutivo e na racionalização da produtividade do rebanho. Tendo em vista que fêmeas diagnosticadas como não prenhas podem ser rapidamente submetidas a novas práticas reprodutivas, ou descartadas, evitando perdas econômicas. Já as fêmeas que apresentarem diagnóstico positivo poderão ser submetidas a específicas práticas de manejo nutricional e a adequadas estratégias sanitárias.
Nos pequenos ruminantes, o diagnóstico de prenhez pode ser realizado por diversos métodos. Todavia, a escolha do método dependerá, dentre outros fatores, da qualificação do técnico, disponibilidade de equipamento, idade provável da prenhez, custo operacional e eficácia desejada. Apresentaremos na sequência os métodos diagnósticos mais frequentemente utilizados nos pequenos ruminantes.
1. Diagnóstico de prenhez por métodos não ultrassônicos
Nos ovinos e caprinos, a limitação anatômica para avaliação do sistema genital pela palpação retal, impulsionou o desenvolvimento de diferentes técnicas de diagnóstico de prenhez. Discutiremos na sequência as seguintes técnicas: diagnóstico presuntivo da gestação; palpação abdominal; radiografia; laparoscopia e laparotomia e; dosagem hormonal e protéica.
O diagnóstico presuntivo da gestação, emitido pelo índice de não retorno ao estro, é ainda utilizado em algumas propriedades, entretanto não permite segurança nos resultados até que a caracterização externa da prenhez se torne evidente. Apenas ao final do período gestacional que são observadas características como, aumento de volume abdominal e modificações das glândulas mamárias, inviabilizando o diagnóstico precoce. O não retorno ao estro não deve fundamentar um diagnóstico, pois muitas fêmeas caprinas e ovinas manifestam sintomas de estro ao início da gestação e, em menor frequência, há casos de manifestação em prenhez mais avançada.
O exame por palpação abdominal também impossibilita o diagnóstico precoce da gestação, pois a facilidade de diagnóstico está diretamente relacionada com a proximidade do parto. Eventualmente, o útero gestante e/ou o(s) feto(s) podem ser detectados pela palpação do abdome e a constatação de movimento do feto oferece maior confiança ao diagnóstico. Esse exame é realizado colocando-se as mãos em cada lado do abdome para pressioná-lo e levantá-lo. Observa-se maior segurança ao diagnóstico quando esse exame é realizado em animais magros ou que tenham passado por jejum hídrico-alimentar de no mínimo 12 horas. Técnicas de palpação bi-manual ou reto-abdominal são descritas na literatura. Embora apresentem maior acuraria quando realizadas por um técnico experiente, não são recomendadas em virtude de possibilitarem a ocorrência de abortamentos e traumas retais na fêmea.
A radiografia pode ser outra ferramenta para detectar a prenhez e o número de fetos com alta acurácia a partir do terceiro mês de gestação. Nesse momento, a visualização do esqueleto fetal é possível. O aumento do útero, sugestivo de prenhez, pode ser observado bem mais precocemente, entretanto não pode ser diferenciado de patologias uterinas como, hidrometra ou piometra. Para se evitar a repetição do exame, sugere-se realizar a partir dos 70 dias após a cobrição ou inseminação artificial. Embora esse método de abordagem permita 100% de acurácia no diagnóstico de prenhez e quantificação fetal não apresenta praticidade, devido à dificuldade no transporte dos animais ao centro radiológico ou no deslocamento do aparelho de raios-X até as propriedades.
A laparoscopia ou laparotomia possibilitam a visualização direta das modificações do útero e dos ovários, como aumento de volume ou assimetria dos cornos uterinos associados à presença de corpo lúteo no ovário no diagnóstico positivo de prenhez. Esses métodos de detecção de prenhez apresentam precisão de 100% a partir do 45º dia de gestação, entretanto, trata-se de métodos invasivos. Mesmo não havendo comprometimento da integridade da fêmea e da gestação, quando essas técnicas são realizadas por profissionais especializados, a indicação desses métodos de diagnóstico deve ser eventual e muito restrita.
A detecção da gestação pela dosagem hormonal e protéica pode ser uma alternativa para o diagnóstico precoce, entretanto não é difundida por apresentar custo um pouco elevado devido à necessidade de laboratórios equipados e mão-de-obra qualificada. Atualmente, os principais métodos utilizados em ovinos e caprinos são a dosagem de progesterona (P4) e proteína associada à gestação (PAG).
O diagnóstico precoce de gestação pela determinação de P4 no soro ou no plasma sanguíneo pode ser realizado com eficiência já no primeiro mês de gestação, sendo nos ovinos a partir do 16º ao 19º dia após o acasalamento e do 19º ao 22º dia nos caprinos. A dosagem deste hormônio no leite é bastante difundida devido sua praticidade na colheita das amostras, sendo recomendada sua determinação a partir do 25º dia de gestação. Índices de falsos positivos são relativamente elevados devido a patologias uterinas como, hidrometra, mucometra, piometra, maceração e mumificação fetal, que igualmente mantêm o corpo lúteo funcional com elevada concentração plasmática deste esteróide.
A determinação da concentração sorológica de PAG é um teste que apresenta alta acurácia a partir do 22º dia de gestação em ovinos e, do 21º dia nos caprinos. A principal vantagem da dosagem de PAG em relação a P4 é que a PAG permite diferenciar a gestação das patologias uterinas descritas anteriormente. No leite, a determinação desta proteína é eficiente a partir do 32º dia de gestação.
2. Diagnóstico de prenhez por métodos ultrassônicos
Principalmente em decorrência da baixa eficiência e/ou praticidade das técnicas anteriormente descritas, que os métodos ultrassonográficos para diagnóstico de prenhez são os mais utilizados nos pequenos ruminantes. A detecção da prenhez pode ser realizado por um dos três métodos ultrassonográficos: o Modo-M - Efeito Doppler, registro de movimento; o Modo-A, amplitude do eco-tempo e; o Modo-B, tempo real.
O Efeito Doppler, também conhecido como ultrassonografia Modo-M (modo movimento) tem como princípio registrar a pulsação sanguínea, o batimento cardíaco e os movimentos fetais em diagnóstico positivo de prenhez. Essa técnica pode ser realizada pelas vias transabdominal e transretal. O Doppler transretal apresenta maior eficiência devido avaliar a viabilidade fetal. No exame transabdominal, o transdutor deve ser posicionado no flanco direito do animal em estação, fazendo-se necessário estabelecer um bom contato com a superfície. Assim, a tricotomia e uso de gel devem ser aplicados para evitar interferências no exame. Essas técnicas de diagnóstico apresentam inúmeras vantagens como, praticidade, segurança dos animais, não necessita de energia elétrica e ainda possibilita a confirmação tanto da prenhez quanto da viabilidade fetal. Entretanto, seu diagnóstico não é precoce, sendo sua eficiência diretamente proporcional ao período de gestação. Nos estádios iniciais da prenhez, entre 20 e 45 dias, o percentual de acerto é baixo, sendo satisfatório a partir de 60 dias de gestação. A acurácia diagnóstica diferencial entre prenhez simples e múltipla não é elevada pela técnica de Doppler.
Para o Modo-A (amplitude do eco versus tempo), o diagnóstico de prenhez baseia-se na detecção da faixa fluida presente no útero. Seu posicionamento é externo, contra a pele do abdome em direção ao útero (no flanco direito). Quando uma estrutura preenchida por fluído é detectado sinais audíveis ou visuais são formados no console do equipamento. Satisfatória acurácia tem sido descrita em diagnóstico no período de 50 a 120 dias de gestação em ovinos e caprinos. Com base nos princípios do exame, resultado falso positivo pode ocorrer pela detecção da bexiga urinária repleta ou em casos de hidrometra e piometra. Por outro lado, resultado falso negativo pode ocorrer no início ou final da gestação, em virtude da reduzida quantidade de fluido uterino em relação ao volume de tecido fetal. Viabilidade fetal e número de fetos não são detectáveis por esse método.
A ultrassonografia em tempo real (Modo- B) apresenta inúmeras vantagens frente às técnicas já apresentadas. Esse método produz uma imagem bidimensional e móvel do útero, fluidos fetais, feto(s), batimento cardíaco fetal e placentomas. Assim, o Modo-B oferece acurácia, rapidez, segurança e praticidade no diagnóstico de gestação e na determinação do número de fetos. Esse método é eficiente no diagnóstico diferencial com patologias uterinas e na identificação de alterações que possam comprometer a viabilidade gestacional.
O exame pode ser realizado externamente pela parede abdominal (via transabdominal) ou pelas vias, transretal ou transvaginal. Alterações indicativas de gestação já podem ser vistas a partir do 15º dia da cobertura. O exame alcança maior acurácia quando realizado a partir do 20º - 30º dia do acasalamento, a depender da qualidade do equipamento e experiência do técnico.
As principais imagens que caracterizam a fase inicial da gestação são: a presença de líquido intra-uterino; visualização da vesícula embrionária; detecção do(s) embrião(s) e batimentos cardíacos fetais; identificação da membrana amniótica e placentomas; diferenciação da cabeça e tronco fetal; identificação dos botões germinativo dos membros e formação esquelética; movimentos embrionário/fetal; delimitação do cordão umbilical e visualização do globo ocular. Os parâmetros observados para o diagnóstico de acordo com a idade gestacional estão apresentados na tabela 1.
Tabela 1. Parâmetros observados de acordo com os dias da gestação.

A ultrassonografia em tempo real permite ainda, estimar a idade gestacional utilizando recursos dos equipamentos, por mensurações das dimensões lineares como, por exemplo: comprimento céfalo-coccígeo; diâmetro biparietal; diâmetro abdominal; diâmetro do tórax e comprimento do fêmur. Correlação entre tamanho de placentomas e idade gestacional é alta em caprinos.
Contudo, o diagnóstico precoce da prenhez é uma importante ferramenta para o controle e manejo zootécnico do rebanho. E a escolha do método diagnóstico deve ser considerada, visando principalmente eficiência.
Referências Consultadas:
CRUZ, J.F.; FREITAS, V.J.F. A ultra-sonografia em tempo real na reprodução de caprinos. Ciência Animal, 11 (1): 53-61, 2001.
FREITAS, V.J.F.; SIMPLÍCIO, A.A. Diagnóstico de Prenhez em Caprinos: uma revisão. Ciência Rural, 9 (2): 51-59, 1999.
MOURA, J.C.A.; MERKT, H. A ultra-sonografia na Reprodução Eqüina. 2ª edição. Salvador: Editora Universitária Americana, 162p., 1996.
SANTOS, M.H.B.; OLIVEIRA, M.A.L.; LIMA,P.F Diagnóstico de Gestação na Cabra e na Ovelha. São Paulo: Livraria Varela, 157p., 2004
