Dança dos números

Quando escrevi sobre a relação entre o planejamento e as tarefas não programadas que executamos no dia a dia, tentei abordar o mais importante desafio em um programa de gestão, que é o desperdício de tempo, habilidades e recursos em tarefas que não somam para construir um futuro para a propriedade. Nas diversas mensagens e e-mails que recebi havia um questionamento sobre como iniciar um programa de gestão, como convencer o proprietário a segui-lo, e coisas do gênero.

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Quando escrevi sobre a relação entre o planejamento e as tarefas não programadas que executamos no dia a dia, tentei abordar o mais importante desafio em um programa de gestão, que é o desperdício de tempo, habilidades e recursos em tarefas que não somam para construir um futuro para a propriedade. Nas diversas mensagens e e-mails que recebi havia um questionamento sobre como iniciar um programa de gestão, como convencer o proprietário a segui-lo, e coisas do gênero.

Acredito que o maior e definitivo argumento sobre por que implantar métodos gerenciais em uma propriedade rural, de qualquer tamanho, com exploração familiar ou contratada seja o de obter melhores resultados FINANCEIROS. Partindo dessa premissa, toda as conversas com o proprietário, a elaboração da proposta de trabalho deve levar em conta que como qualquer negócio, o objetivo de quem está na atividade é de ter lucros com a mesma.

Caminhando por este rumo, os principais indicadores a serem considerados são o Retorno sobre Capital e o Lucro depois da remuneração do Capital (Capacidade de Reinvestimento). Na verdade, nossos hermanos argentinos e uruguaios quando falam sobre resultados de uma exploração pecuária, utilizam um indicador bem interessante que é o de em quantos anos o lucro líquido de um hectare comprará um outro hectare na mesma região. Essa interpretação aparentemente simples da capacidade de reinvestimento é na verdade genial, pois ela permite comparar quaisquer sistemas de produção em quaisquer lugares do planeta.

Esses números foram muito importantes inclusive nas visitas técnicas de produtores e técnicos dos países vizinhos aqui em nossa região, pois esse indicador é na verdade universal. Sendo assim, a forma como executaremos as atividades nas propriedades será definida com base em um indicador de fácil compreensão. Se trabalharemos em regime confinado ou pastoril, se o rebanho será especializado ou não, o estudo sobre a capacidade de reinvestimento é que determinará que caminho deve ser trilhado para auferir melhores resultados.

Em nossa região, com clima de certa forma favorável aos animais especializados, com custo da terra muito alto, intensa competição com lavouras de alto desempenho, não há como fugir do tipo de exploração em regimes confinados ou semi-confinados com alta produção por animal e hectare. Em outras regiões onde o custo da terra seja extremamente barato e não exista a possibilidade de outros plantios, o clima seja mais adverso, sistemas pastoris com animais azebuados e menores produções e custos diretos seriam mais indicados. A intensa pressão de lavouras como a cana-de-açúcar e os plantios de essências florestais têm mostrado as falhas estruturais de explorações com baixo resultado por hectare, não importando de que tamanho é a exploração leiteira. Em propriedades com resultados como os obtidos pelo grupo da EMBRAPA Sudeste, é muito improvável que o plantio de cana-de-açúcar remunere o hectare com valores que se aproximem da metade do obtido com o leite. O mesmo vale para os números que obtemos com rebanhos especializados e sistemas confinados, com resultados de lucro líquido superiores a 12 % ao ano, o que permitiria a compra de um hectare com valor de R$ 20.000,00 a cada 9 anos com o lucro gerado por cada hectare explorado, considerando a atual produtividade de 35.000 litros por hectare e receita total de R$ 0,56 por litro de leite.

Para entender esta dança dos números, é importante definir alguns conceitos. O primeiro número a ser buscado é o Custo Total de Produção, e o mesmo é relativamente fácil de ser obtido quando se estabelece o custo da alimentação produzida na propriedade. Como parâmetro de eficiência, sempre consideramos os custos de silagem de milho (principal volumoso na região) pelo custo de oportunidade da saca de milho, ou seja trabalhamos como se comprássemos toda a nossa silagem. Isto é feito para que a possível eficiência ou ineficiência agrícola não interfira no resultado da exploração pecuária. Em regimes pastoris, o custo de pastagens já foi exaustivamente debatido, com custos por hectare ao redor de R$ 1.100,00 ao ano (vide artigo publicado no MilkPoint no mês de outubro de 2005) e deve ser considerado para não criar uma falsa ilusão de eficiência. Os demais custos são de produtos e insumos necessários a produção, por ordem de importância financeira a compra de concentrados, as despesas com funcionários ou o pró-labore dos proprietários, as despesas com medicamentos e reprodução, as despesas com combustíveis e energia elétrica, e os gastos com manutenção e administração. A essas despesas acrescenta-se a depreciação e a remuneração do proprietário. O gráfico abaixo representa o Custo Total de uma propriedade com rebanho especializado, confinado em regime de Free Stall e produção de 37,5 litros/dia, com custo total de R$ 0,446 por litro.

Figura 1

A apuração do Lucro Bruto é feita com uma simples operação, ou seja Receitas Totais obtidas na propriedade menos o Custo Total. Comos receitas totais, considere a venda de Leite, a venda de Matrizes e tourinhos e a receita obtida com o descarte de animais. Do Lucro Bruto diminua o valor referente a remuneração do capital (todo o capital investido vezes os juros de poupança) e será obtido o Lucro Líquido. O Lucro Líquido é quem definirá a sua Capacidade de Reinvestimento.

Figura 2

Figura 3

Sei que quando se fala de Gerenciamento, a expectativa de técnicos e produtores é uma abordagem sobre índices zootécnicos, tais como Intervalo entre Partos, Médias de Produção, etc...Porém vejo que sem análises financeiras, e principalmente obtenção de resultados financeiros satisfatórios não há propriedades que perdurem, mesmo apresentando indicadores zootécnicos aparentemente satisfatórios. Um exemplo é o de apontar um rebanho com média de 30 litros por dia, o que aparentemente é um bom número, mas com apenas 38 % do rebanho em produção, o restante seriam animais jovens e vacas secas que só geram despesas, o que leva a um custo total muito superior a receita total. Da mesma forma vemos produtores falando de custos de produção ao redor de R$ 0,25 por litro de leite, que acredito sejam custos operacionais efetivos (fluxo de caixa) e esquecendo de computar custos pastoris, depreciações, pró-labores. Esses números são intensamente alardeados como eficientes, porém não resistem a qualquer análise mais qualificada dos números.
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Material escrito por:

Mario Sérgio Zoni*

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Jovani Scherer Becker
JOVANI SCHERER BECKER

JÚLIO DE CASTILHOS - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/10/2006

É interessante esta análise, porque foge do que tanto se fala hoje. Virou mania de técnicos, políticos, imprensa e outros falar em redução de custo. Isso, para mim, é relativo, o que me interessa é resultado líqüido, mesmo com maior custo.
Sergio Pedreira de Freitas
SERGIO PEDREIRA DE FREITAS

OUTRO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/10/2006

Na produtividade de 35 mil litros por hectare, gostaria de saber o que foi computado, área de silagem, área com instalação etc. E como a silagem é a principal volumosa, qual a produtividade de silagem por hectere?

Obrigado.

<b>Resposta do autor:</b>

Foi considerada toda a área útil da propriedade, excluindo apenas as áreas de reserva legal. A propriedade utiliza 112,5 hectares de forma integrada, com plantios de inverno e verão e com produção anual acima de 4.000.000 de Litros de Leite.

A produtividade de silagem de milho tem se situado ao redor de 19 ton de MS por hectare ou em média 58 toneladas de matéria original com 33 % de MS. Apesar deste ano ter sido mais seco, tive áreas de 42 hectares com médias acima de 68 toneladas de MO por hectare em uma propriedade que também atendo (este resultado está inclusive publicado no livro de resultados por variedades da Pioneer).
Qual a sua dúvida hoje?