O lucro na pecuária leiteira começa com um rebanho bem selecionado. Vacas que produzem com
regularidade, emprenham com facilidade, apresentam boa saúde e permanecem mais tempo no sistema
são sinônimo de economia e estabilidade.
Mesmo assim, ainda é comum que a escolha dos animais se baseie apenas na produção de leite, o que pode gerar problemas sérios ao longo do tempo, como aumento do descarte, elevação nos custos com tratamentos e redução da eficiência reprodutiva.
Hoje, sabe-se que vacas produtivas e resistentes compartilham um conjunto de características que vai
além do volume de leite, envolvem:
- persistência produtiva,
- boa fertilidade,
- conformação funcional adequada,
- sanidade,
- genética equilibrada.
Essa visão mais ampla é acessível até mesmo aos produtores de menor escala, e representa o caminho para um rebanho mais eficiente, saudável e lucrativo.
Produção de leite: além do volume
Embora a quantidade de leite ainda seja um critério importante, ela não pode ser analisada isoladamente. Vacas que mantêm uma produção estável ao longo da lactação são mais vantajosas do que aquelas que apresentam apenas picos nos primeiros meses e depois caem drasticamente.
A persistência da lactação capacidade de manter bons níveis de produção por mais tempo — é uma qualidade desejável, pois animais persistentes exigem menos alimento por litro de leite, o que representa economia. Segundo Gonçalves et al. (2020), vacas com alta persistência contribuem para a estabilidade econômica da fazenda.
Além do volume e da persistência, é essencial considerar a qualidade do leite. Indústrias já oferecem
bonificações para produtores que entregam leite com teores mais altos de gordura e proteína, enquanto
penalizam por altos índices de CCS (Contagem de Células Somáticas), que indicam mastite subclínica.
Vacas saudáveis e com leite de boa composição geram mais receita e menos custos com tratamentos
(MAPA, 2023).
Conformação funcional e características visuais
Observar a estrutura física das vacas pode evitar muitos problemas. A conformação funcional está ligada à capacidade do animal resistir a doenças, manter-se produtivo e adaptar-se ao manejo da propriedade. O úbere deve ser bem inserido, com ligamentos fortes e tetos corretamente posicionados, o que facilita a ordenha e reduz riscos de mastite. Como destacam Santos e Cardoso (2019), uma boa estrutura mamária está diretamente relacionada à longevidade produtiva.
Os aprumos ou seja, o alinhamento dos membros também são fundamentais. Vacas com aprumos corretos caminham melhor, permanecem mais tempo em pastejo e têm maior conforto. Já problemas nos cascos ou articulações impactam o desempenho e aumentam o risco de descarte precoce.
A condição corporal ideal fica entre escore 3,0 e 3,5 (em escala de 1 a 5). Animais muito magros ou
gordos estão mais suscetíveis a doenças metabólicas, como cetose, hipocalcemia e deslocamento de
abomaso (Van Soest, 2022). Avaliar o escore corporal revela se a vaca está equilibrada e pronta para
responder bem à produção.
Fertilidade e intervalo entre partos
A fertilidade é peça-chave na produtividade do rebanho. Vacas que demoram a emprenhar aumentam o
intervalo entre partos (IEP), o que reduz o número de lactações ao longo da vida e, consequentemente, a
rentabilidade. O ideal é manter um IEP entre 12 e 14 meses. Atrasos geram vacas que consomem recursos sem produzir, afetando a eficiência do sistema (Barbosa et al., 2018).
Outro fator relevante é a facilidade de parto. Vacas que parem sem necessidade de intervenção se recuperam mais rápido e apresentam menos riscos de complicações como retenção de placenta e metrite. Segundo Gröhn et al. (2019), a escolha de vacas com histórico de partos naturais contribui para a longevidade e o bom desempenho reprodutivo do rebanho.
Sanidade: vacas que adoecem pouco valem mais
A resistência natural a doenças é um diferencial importante. Vacas que adoecem menos são mais lucrativas, pois demandam menos com tratamentos e têm menor risco de descarte. A mastite é uma das doenças mais custosas na pecuária leiteira. Mesmo a forma subclínica, sem sinais visíveis, pode elevar a CCS e comprometer a qualidade do leite. Como aponta LeBlanc (2020), escolher vacas com baixa incidência de mastite é essencial para evitar perdas de produção e penalizações no pagamento.
O período de transição três semanas antes e depois do parto é especialmente delicado. Vacas suscetíveis a doenças como cetose, febre do leite e metrite durante essa fase tendem a ter desempenho reprodutivo e produtivo inferiores. Segundo Ferreira et al. (2021), vacas que passam por esse período com poucos problemas são candidatas ideais à permanência no rebanho.
Além disso, é importante analisar os dados de descarte involuntário. Vacas que permanecem por mais de três lactações com boa saúde demonstram maior valor genético e adaptabilidade ao sistema.
Longevidade produtiva: mais que produzir, é durar
A longevidade produtiva está diretamente ligada ao retorno sobre o investimento na criação da novilha.
Quanto mais tempo a vaca permanece no rebanho, mais ela compensa o custo inicial da recria, especialmente considerando que o primeiro parto ocorre em torno dos dois anos de idade. Segundo a Embrapa Gado de Leite (2024), vacas longevas são resultados da combinação entre boa fertilidade, sanidade, conformação funcional e manejo adequado. Elas também reduzem a necessidade de reposição, o que gera economia em longo prazo.
Portanto, priorizar vacas que permanecem produtivas por mais tempo é uma estratégia inteligente, tanto
para a sustentabilidade do sistema quanto para a rentabilidade.
Uso de dados na seleção: controle é lucro
O uso de informações básicas sobre cada vaca ajuda o produtor a tomar decisões mais precisas, mesmo em propriedades menores. Anotar dados como: produção por lactação, partos, intervalo entre partos, ocorrência de doenças, CCS e longevidade permite comparações justas e identificação de padrões de desempenho.
Esse tipo de controle evita decisões precipitadas, como o descarte de vacas por uma queda momentânea de produção. Em vez disso, permite uma análise baseada em histórico, contribuindo para a melhoria contínua do rebanho.
Para fazendas que usam inseminação artificial, é possível usar as DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) dos touros para escolher características desejáveis. Touros com bons índices não apenas para
produção, mas também para saúde, fertilidade e longevidade, devem ser priorizados. Em propriedades mais tecnificadas, os testes genômicos já estão disponíveis para avaliar também as vacas, possibilitando uma seleção ainda mais precisa.
Seleção prática: passo a passo para o produtor
Aplicar esses critérios no dia a dia pode ser feito de forma simples. O produtor pode começar
identificando as vacas mais produtivas e persistentes, avaliando também o histórico reprodutivo e de
saúde. A observação da conformação física úbere, aprumos e escore corporal deve ser feita com
regularidade, e todos os dados devem ser registrados, mesmo que em cadernos simples.
Com essas informações em mãos, fica mais fácil evitar decisões por impulso e criar um sistema de seleção que prioriza vacas mais completas. Isso aumenta a eficiência do rebanho sem exigir investimentos altos ou grandes mudanças no manejo.
Conclusão
A escolha de vacas de alta produção e resistência não depende exclusivamente de alta tecnologia ou
grandes estruturas. Ela começa com observação atenta, anotações consistentes e aplicação de critérios objetivos. Com esses cuidados, qualquer produtor pode construir um rebanho mais equilibrado, produtivo e economicamente viável.
Mais do que buscar apenas grandes volumes de leite, o produtor precisa valorizar animais que entregam
saúde, longevidade, fertilidade e qualidade. Esse é o perfil das vacas que garantem estabilidade à fazenda e fazem a diferença no resultado final. O segredo está na seleção consciente feita com os olhos no campo, o lápis na mão e o pensamento voltado para o futuro da atividade.
Referências bibliográficas
BARBOSA, S. B.; LOPES, M. A.; CARVALHO, F. M. Produção leiteira e eficiência reprodutiva em rebanhos bovinos. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 47, p. 1-8, 2018.
EMBRAPA Gado de Leite. Longevidade produtiva: chave para maior lucratividade na pecuária leiteira. Juiz de Fora: Embrapa, 2024. Disponível em: https://www.embrapa.br/gado-de-leite. Acesso em: 25 jun.
2025.
FERREIRA, R. M.; LIMA, F. S.; GRECO, L. F. Sanidade no pós-parto e desempenho reprodutivo de vacas leiteiras. Revista de Medicina Veterinária, v. 42, n. 2, p. 55-62, 2021.
GONÇALVES, T. M.; NUNES, M. P.; CAVALCANTE, A. R. Persistência da lactação em vacas leiteiras: impacto na eficiência produtiva. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 72, n. 4, p.
1449-1457, 2020.
GRÖHN, Y. T.; RAJALA-SCHULTZ, P. J. Parto e problemas reprodutivos em vacas leiteiras. Theriogenology, v. 71, n. 1, p. 45-53, 2019.
LeBLANC, S. J. Diagnóstico e manejo da mastite subclínica em vacas leiteiras. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 5, p. 3891-3903, 2020.
MAPA – Ministério da Agricultura e Pecuária. Programa de Pagamento por Qualidade do Leite. Brasília:
MAPA, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br. Acesso em: 25 jun. 2025.
SANTOS, R. P.; CARDOSO, V. L. Características morfológicas do úbere e sua relação com a produção de leite. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 54, n. 6, p. 1-8, 2019.
VAN SOEST, P. J. Nutritional Ecology of the Ruminant. 2. ed. Ithaca: Cornell University Press, 2022.