Contato vaca-bezerro: bem-estar que conecta fazenda e sociedade

Vaca e bezerro juntos: bem-estar e sustentabilidade. Descubra como essa prática transforma a pecuária e atende às demandas da sociedade.

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Publicado em: - 7 minutos de leitura

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No contexto moderno, a indústria leiteira tem enfrentado uma pressão crescente não apenas para atender às exigências regulatórias e econômicas e, ao mesmo tempo, garantir a "licença social para operar". Este conceito, que se refere à aceitação e aprovação da sociedade sobre as práticas de operação de uma empresa ou setor, é imprescindível para a sustentabilidade do setor leiteiro a longo prazo, uma vez que a opinião do público, cada vez mais informada e consciente, exerce uma influência significativa sobre a forma como a indústria leiteira deve evoluir.

Pesquisas indicam que uma parcela crescente do público prefere produtos de origem animal que garantam o bem-estar dos animais envolvidos (YouGov, 2020; EFSA, 2017). Portanto, ao atender a essas demandas, a indústria não apenas melhora a qualidade de vida dos animais, mas também fortalece a confiança e a lealdade dos consumidores.

A pecuária leiteira deve andar na mesma direção dos valores da sociedade (Weary; Ventura; von Keyserlingk, 2017). É um grande desafio para a indústria leiteira adotar práticas que são revolucionárias e que vão em uma direção contrária às práticas já estabelecidas no setor. Porém, isso pode ser uma necessidade para a sustentabilidade do setor.

Por conta disso, o contato prolongado entre vacas e bezerros é uma das práticas na bovinocultura leiteira que vêm sendo discutida no meio científico e social. Essa prática contrasta com o manejo tradicional, onde os bezerros leiteiros são separados das vacas logo após o nascimento. Assim, a prática de contato prolongado, que permite que vaca e bezerro fiquem juntos, está sendo reavaliada à luz de novas evidências científicas (Flower & Weary, 2003; de Passillé, 2001; Ventura et al., 2013) e surge como uma abordagem promissora que pode trazer benefícios para a saúde e bem-estar de bovinos leiteiros. O contato prolongado entre vacas e bezerros é visto de forma positiva por muitos consumidores, que acreditam que práticas mais humanas e naturais resultam em produtos de melhor qualidade (Sirovica et al., 2022; Cardoso et al., 2017; Clark et al., 2016). 

Pesquisas indicam que bezerros que permanecem mais tempo com suas mães tendem a ter um sistema imunológico mais robusto, o que resulta em menor incidência de doenças e, consequentemente, a uma redução nos gastos com tratamentos veterinários (de Passillé, 2001; Flower & Weary, 2003). Além disso, o contato prolongado entre vaca-bezerro também tem sido associado a uma melhor saúde da glândula mamária das vacas, e redução da incidência de mastite (Mendoza et al., 2010; Wenker et al., 2021). Esse contato também está associado a um menor nível de estresse para as vacas, o que pode melhorar a qualidade do leite e o bem-estar geral dos animais. Vacas menos estressadas tendem a ter um desempenho produtivo mais constante e a necessitar de menos intervenções veterinárias. (Halasa et al., 2007). 

Implementar práticas de manejo que promovam a saúde animal, como o contato prolongado entre vacas-bezerro, pode reduzir esses custos, ao diminuir a necessidade de tratamentos veterinários e melhorar a saúde geral do rebanho. Os potenciais benefícios em termos de saúde animal e economia de custos podem contrabalançar as preocupações sobre a possível queda na produção de leite disponível para venda, ao resultar em uma operação mais sustentável e eticamente responsável.

Diversas perguntas surgem em relação à implementação do contato prolongado entre vaca-bezerro nas fazendas leiteiras, como por exemplo, “As minhas instalações são adequadas para o alojamento das duplas (vaca-bezerro)?”, “Por quanto tempo devo permanecer vaca e bezerro juntos?”, “Quanto tempo por dia a vaca e o bezerro devem permanecer juntos?”, “Devo fornecer leite extra para os bezerros?”. Essas questões não são fáceis de serem respondidas, uma vez que cada uma tem que ser analisada de acordo com as características da fazenda. No fluxograma (Figura 1) adaptado de Barth, K. et al., 2022 são apresentadas as vantagens e desvantagens de diferentes práticas de contato prolongado entre vaca-bezerro.

Figura 1. Representação esquemática das vantagens e desvantagens da duração/tempo de contato de entre vaca-bezerro e local de encontro das duplas.

Representação esquemática das vantagens e desvantagens da duração/tempo de contato de entre vaca-bezerro e local de encontro das duplas.
Fonte: adaptada de Barth, K. et. al., 2022.

Existe uma variedade de práticas de contato vaca-bezerro, como por exemplo o contato físico que pode ser realizado de forma completa ou parcial, com diferentes durações em ambos os casos (Sirovnik et al., 2020). No sistema de contato físico completo em período integral, os bezerros geralmente são mantidos junto com o rebanho de vacas e podem mamar em suas mães (Johnsen et al., 2021). Por outro lado, nos sistemas de contato físico completo em curtos períodos do dia, o contato do bezerro com as vacas pode ser permitido no intervalo entre as ordenhas (Bailly-Caumette; Bertelsen; Jensen, 2023) ou durante a noite (Barth, 2022). O contato vaca-bezerro pode ser implementado em diferentes sistemas de criação, confinados ou a pasto.

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Em ambos os sistemas é possível que o bezerro e a vaca tenham dois tipos de contato. No contato parcial, os bezerros são mantidos em áreas separadas (Figura 2) das vacas e as vacas conseguem mover suas cabeças sobre as divisórias para lamber e cheirar o bezerro, mas não conseguem amamentar. 

 Figura 2. Contato parcial entre vaca-bezerro.

Contato parcial entre vaca-bezerro  

No contato total, em uma única área (Figura 3), é permitida a interação total entre vaca e bezerro e as vacas conseguem lamber, cheirar e conseguem amamentar o bezerro.

Figura 3. Contato total entre vaca-bezerro 

Contato total entre vaca-bezerro 
(1) área que permite interação total entre vaca- bezerro; (2) área de escape somente para bezerros com feno e concentrado; e (3) área somente para bezerro com feno, concentrado e bebedouro. Fonte: Neave et al. 2023.

Independente do sistema (confinado ou pasto) e do tipo de contato (parcial ou total) o contato prolongado entre vaca e bezerro pode ser uma prática da pecuária socialmente sustentável. Os consumidores estão cada vez mais preocupados com o bem-estar dos animais de fazenda e acreditam que o bem-estar dos animais está relacionado com a produção de alimentos saudáveis e de qualidade (Hötzel; Vandresen 2022). Assim, para a pecuária se manter sustentável do ponto de vista social, econômico e ambiental, é necessário que as práticas adotadas nas fazendas sejam aceitas pela sociedade.

Para evitar erros associados à adoção de sistemas alternativos que falham em atender os valores sociais, há mérito em investigar como o público aceitará determinadas soluções para os desafios existentes.

Compreender quais são as atitudes e as percepções de técnicos e extensionistas atuantes na indústria de laticínios sobre sistemas de contato prolongado entre vaca-bezerro e seus impactos na produção animal é essencial para alinhar as práticas do setor com as expectativas da sociedade, especialmente no que diz respeito ao bem-estar animal, visto que desempenham um papel fundamental na transferência de conhecimento e no apoio aos produtores. 

Por isso, gostaríamos de ouvir de técnicos e extensionistas, e conhecer suas percepções sobre o tópico. Pedimos que responda à pesquisa com base em seus conhecimentos teóricos e experiências práticas adquiridos até o momento atual de sua carreira. Clique aqui e responda a pesquisa! 

 

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Referências:

Barth, K. et . al ., (2022). Cow-bonded calf rearing in dairy farming : A practical guide, Johann Heinrich von Thünen-Institut. Germany.

Bailly-Caumette, M., et. al., (2023). Towards a socially sustainable dairy sector with cow-calf contact systems. In Book of Abstracts of the 74th Annual Meeting of the European Federation of Animal Science (Vol. 29, p. 820)

Cardoso, C., von Keyserlingk, M., Hötzel, M.J., 2017. Brazilian citizens: Expectations regarding dairy cattle welfare and awareness of contentious practices. Animals 7, 89.

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Clark, B., Stewart, G. B., Panzone, L. A., Kyriazakis, I., & Frewer, L. J. (2016). Citizens, consumers and farm animal welfare: A meta-analysis of willingness-to-pay studies. Food Policy, 61, 29-37.

de Passillé, A. M. (2001). Sucking motivation and related problems in calves. Applied Animal Behaviour Science, 72(3), 175-187.

EFSA. (2017). Scientific opinion on the welfare of cattle and calves in intensive farming systems. European Food Safety Authority.

Flower, F. C., & Weary, D. M. (2003). The effects of early separation on the dairy cow and calf. Animal Welfare, 12(3), 339-348.

Halasa, T., Huijps, K., Østerås, O., & Hogeveen, H. (2007). Economic effects of bovine mastitis and mastitis management: A review. Veterinary Quarterly, 29(1), 18-31.

Hötzel, M.J., Vandresen, B., 2022. Brazilians' attitudes to meat consumption and production: Present and future challenges to the sustainability of the meat industry. Meat Sci. 192, 108893.

Johnsen, J. F. et al. “Investigating Cow−calf Contact in Cow-Driven Systems: Behaviour of the Dairy Cow and Calf.” Journal of Dairy Research 88.1 (2021): 52–55. 

Neave, H. W., Jensen, E. H., Durrenwach, M., et. al. (2023). Behavioral responses of dairy cows and their calves to gradual or abrupt weaning and separation when managed in full- or part-time cow-calf contact systems. Journal of Dairy Science, 107(4), 2297-2320.

Sirovica, L., Friggens, N. C., & Johnsen, J. F. (2022). Public perceptions of cow-calf separation and alternatives. Journal of Dairy Science, 105(9), 7432-7446. 

Sirovnik, J., et. al. (2020). Investigating cow−calf contact in a cow-driven system: performance of cow and calf. Journal of Dairy Research, 87(S1), 114-121.

Ventura, B. A., von Keyserlingk, M. A. G., Wittman, H., & Weary, D. M. (2013). What difference does a visit make? Changes in animal welfare perceptions after interested citizens tour a dairy farm. PLoS ONE, 8(2), e50359.

Weary, D. M., Ventura, B. A., & von Keyserlingk, M. A. G. (2017). Societal views and animal welfare science: Understanding why the modified cage may fail and other stories. Animal, 11(2), 262-270.

Wenker, M., L. (2021). Calf-directed affiliative behaviour of dairy cows in two types of cow-calf contact systems. Applied Animal Behaviour Science. Vol. 243, 105461.

YouGov. (2020). Survey on public opinions regarding animal welfare.

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Material escrito por:

Hingryd Olmo

Hingryd Olmo

Mestranda no Programa de Pós Graduação em Zootecnia na Universidade Estadual Paulista (UNESP) - Botucatu e integrante do Grupo de Estudos em Bovinos Leite

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Karolini Tenffen De-Sousa

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Sérgio Luiz Soares
SÉRGIO LUIZ SOARES

HERCULÂNDIA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 13/12/2024

BOA TARDE!
COM O SISTEMA ATUAL DE GRANDES PRODUTORES DE LEITE O CONTATO DO BEZERRO COM A VACA E SO O TEMPO DA MAMADA DO COLOSTRO.
Michail Moroz
MICHAIL MOROZ

CURITIBA - PARANÁ - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 12/12/2024

Excelente!
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