Como pequenas fazendas podem adotar a ordenha automática?

Robôs no curral, menos esforço humano e mais precisão: a automação da ordenha deixa de ser um luxo de grandes operações e começa a ganhar espaço entre pequenos produtores. Entenda como essa virada tecnológica pode elevar produtividade, reduzir custos e garantir sustentabilidade ao campo.

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A indústria leiteira enfrenta pressão por eficiência e sustentabilidade, destacando a ordenha robótica como solução promissora, especialmente em países como o Brasil. Apesar das vantagens, como redução de custos e melhor bem-estar animal, a adoção em pequenas propriedades enfrenta desafios. Recomenda-se o apoio governamental, acesso ao crédito, capacitação e parcerias com startups para facilitar a implementação. Além disso, a pesquisa deve focar em tecnologias adaptadas e soluções colaborativas para aumentar a sustentabilidade e a produtividade no setor.

A indústria leiteira global enfrenta pressão crescente para melhorar a eficiência e a sustentabilidade, impulsionada pelas demandas dos consumidores, pelas mudanças climáticas e pela necessidade de maior segurança alimentar (Silvi et al., 2021). Nesse cenário, o desenvolvimento de sistemas de ordenha robótica representa um avanço significativo, transformando práticas tradicionais de produção de leite (Jiang et al., 2017). A ordenha automática, também conhecida como sistema de ordenha robótica, surge como uma solução promissora, especialmente em países com forte atividade agrícola, como o Brasil (Rodenburg, 2017).

Historicamente, esses sistemas, que automatizam o processo de ordenha, estiveram associados a operações de grande escala devido ao alto custo inicial e à complexidade percebida. No entanto, avanços recentes apontam para um potencial crescente de adoção em pequenas propriedades rurais (Marinchenko, 2021). Este artigo examina a viabilidade e os resultados da implementação de tecnologias de ordenha robótica em pequenas fazendas leiteiras, analisando os fatores econômicos, sociais e logísticos envolvidos em um plano de adoção bem-sucedido.

Apesar das vantagens relacionadas à redução dos custos de produção, menor impacto ambiental, sustentabilidade e melhoria do bem-estar animal, algumas barreiras ainda dificultam a adoção da ordenha robótica em áreas rurais (Knight et al., 2020). Pequenas propriedades, muitas vezes caracterizadas por rebanhos limitados e manejo tradicional, enfrentam desafios específicos, como escassez de mão de obra e variação nos preços do leite (Edwards et al., 2020). Mesmo assim, essas propriedades são fundamentais para a segurança alimentar regional e para a preservação dos meios de subsistência rurais, tornando tecnologias como a ordenha robótica especialmente relevantes para fortalecer sua sustentabilidade e competitividade (Barros et al., 2022).

Um sistema de ordenha robótica, baseado na ordenha automática e voluntária, altera significativamente os requisitos de mão de obra e as práticas de manejo em fazendas leiteiras (Rodenburg, 2017). A introdução da ordenha automatizada também impacta o bem-estar do agricultor, reduzindo demandas físicas do trabalho manual, permitindo horários mais flexíveis e promovendo uma transição de tarefas repetitivas para funções de supervisão e análise de dados, o que contribui para o desenvolvimento de novas habilidades e para um ambiente de trabalho mais favorável.

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O Brasil, com seu território amplo e sistemas de produção diversificados, oferece um contexto relevante para avaliar a eficácia e a adaptabilidade dessas inovações e sua contribuição para o desempenho ambiental e a sustentabilidade econômica do setor (Barros et al., 2022). Como quinto maior produtor de leite do mundo, predominantemente composto por pequenas propriedades, o país apresenta condições únicas para explorar como essas tecnologias podem superar limitações tradicionais e elevar a produtividade e o bem-estar animal (Silva et al., 2021). Essa diversidade de sistemas, que vai do confinamento intensivo a modelos extensivos baseados em pastagem, reforça a necessidade de soluções tecnológicas adaptadas à realidade das pequenas fazendas (Barros et al., 2022).

A seguir, apresentam-se recomendações para a adoção da ordenha automatizada em pequenas propriedades rurais:

  • Subsídios e incentivos governamentais: Agências públicas devem considerar programas específicos que reduzam o custo inicial de instalação, facilitando o acesso de pequenos produtores à ordenha robótica (Barros et al., 2022).

  • Acesso ao crédito: Políticas públicas devem promover linhas de financiamento acessíveis, como empréstimos com juros baixos e subsídios adaptados à realidade dos pequenos produtores (Eastwood et al., 2022).

  • Extensão rural e capacitação: Para ampliar a adoção, é essencial investir em serviços de extensão e programas de treinamento que garantam a proficiência técnica necessária para operar e manter sistemas avançados (Eastwood et al., 2022).

  • Parcerias com startups: Pequenos produtores podem colaborar com startups que desenvolvem ferramentas agrícolas inovadoras, oferecendo sistemas adaptados às necessidades locais, além de treinamento e suporte (Siliconrepublic, 2023).

  • Tecnologias energeticamente eficientes: Políticas devem incentivar o desenvolvimento de sistemas de ordenha robótica mais eficientes no uso de energia, bem como a adoção de fontes renováveis para equilibrar o aumento da demanda elétrica causado pela automação (Kaurich & Kaurich, 2010).

Outras ideias para integrar a ordenha automatizada em áreas rurais incluem:

  • Desenvolvimento de equipamentos de baixo custo: Pesquisas voltadas à criação de soluções compactas e semiautomáticas adaptadas às pequenas propriedades.

  • Sistemas móveis e compartilháveis: Projeto de sistemas automatizados compactos e transportáveis, construídos com materiais locais, que possam ser compartilhados entre propriedades vizinhas por meio de aluguel ou uso coletivo.

  • Iniciativas colaborativas: Modelos de propriedade conjunta podem reduzir custos individuais e promover o avanço tecnológico em comunidades rurais.

  • Oficinas móveis e treinamento itinerante: Programas que levem capacitação prática diretamente às áreas rurais, facilitando o acesso ao conhecimento técnico.

  • Modelos alternativos de acesso: Aluguel de equipamentos ou acordos de “pagamento por ordenha", em que o produtor paga pelo uso sem necessidade de aquisição do sistema, reduzindo barreiras financeiras iniciais.

Considerando que muitas pequenas propriedades carecem de infraestrutura e capital para adoções tecnológicas imediatas, intervenções específicas podem contribuir significativamente para aumentar a produtividade e a sustentabilidade ambiental (Nicholson et al., 2018). As implicações ecológicas dos sistemas de ordenha robótica nesse contexto também merecem atenção, especialmente no que diz respeito ao consumo de energia, gestão de resíduos e pegada de carbono da produção de leite (Eastwood et al., 2022).

Em conclusão, são necessárias investigações adicionais em outras regiões e continentes, considerando diferentes técnicas, ideologias e sistemas produtivos.

Autores:

Franklin Chidi Okwara

Kamila de Sousa Otávio

Stefany Cristiny F. Silva Gadelha

Mayra Conceição Peixoto Martins Lima

Lucimeire Pilon

Letícia Fleury Viana

Marco Antônio Pereira da Silva 


Agradecimentos:

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo n. 303505/2023-0), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) Chamada Pública FAPEG n. 21/2024 - Programa de Auxílio à Pesquisa Científica e Tecnológica - Edição 2024, Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e IF Goiano - Campus Rio Verde pelo apoio financeiro a realização da pesquisa.

Referências bibliográficas

BARROS, M. V.; SALVADOR, R.; MACIEL, A. M.; FERREIRA, M. B.; PAULA, V. R. D.; DE FRANCISCO, A. C.; ROCHA, C. H. B.; PIEKARSKI, C. M. (2022). An analysis of Brazilian raw cow milk production systems and environmental product declarations of whole milk. Journal of Cleaner Production, 367, 133067. https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2022.133067

EASTWOOD, C. R.; DELA RUE, B.; EDWARDS, J. P.; JAGO, J. (2022). Responsible robotics design–A systems approach to developing design guides for robotics in pasture-grazed dairy farming. Frontiers in Robotics and AI, 9, 914850. https://doi.org/10.3389/frobt.2022.914850

EDWARDS, J.; KUHN-SHERLOCK, B.; DELA RUE, B.; EASTWOOD, C. (2020). Short communication: Technologies and milking practices that reduce hours of work and increase flexibility through milking efficiency in pasture-based dairy farm systems. Journal of Dairy Science, 103(8), 7172–7179. https://doi.org/10.3168/jds.2019-17941

JIANG, H.; WANG, W.; LI, C.; WANG, W. (2017). Innovation, practical benefits, and prospects for the future development of automatic milking systems. Front. Agr. Sci. Eng., 4(1):37–47. https://doi.org/10.15302/J-FASE-2016117

KAURICH, J. J. (2010). Energy Efficiency Recommendations for Robotic Milking Systems. The American Society of Agricultural and Biological Engineers, St. Joseph, Michigan. www.asabe.org. https://doi.org/10.13031/2013.29775

MARINCHENKO, T. E. (2021). Automation of dairy cattle breeding. IOP Conference Series: Earth and Environmental Science, 624, 012080. https://doi.org/10.1088/1755-1315/624/1/012080

NICHOLSON, C.; SIMÕES, A.; LAPIERRE, A.; VAN AMBURGH, M. (2018). Modeling complex problems with system dynamics: Applications in animal agriculture. Journal of Animal Science, 96(suppl_3), 83. https://doi.org/10.1093/jas/sky404.183

RODENBURG, J. (2017). Robotic milking: Technology, farm design, and effects on workflow. Journal of Dairy Science, 100:7729–7738. https://doi.org/10.3168/jds.2016-11715

SHASHKOVA, I. G.; ROMANOVA, L. V.; KUPRIYANOVA, M. V.; CHERKASHINA, L. V. (2021). IOP Conference Series: Earth and Environmental Science, 949, 012024. http://doi.org/10.1088/1755-1315/949/1/012024

SILICON REPUBLIC. (2023). Dairy robotics: Cow health and robotic milking farm tech. Silicon Republic. Available in: https://www.siliconrepublic.com/start-ups/dairy-robotics-cow-health-robotic-milking-farm-tech?utm_source=chatgpt.com

SILVA, A. C.; LAVEN, R.; BENITES, N. R. (2021). Risk factors associated with mastitis in smallholder dairy farms in Southeast Brazil. Animals, 11(7), 2089. https://doi.org/10.3390/ani11072089

SILVI, R.; PEREIRA, L. G. R.; PAIVA, C. A. V.; TOMICH, T. R.; TEIXEIRA, V. A.; SACRAMENTO, J. P.; FERREIRA, R. E. P.; COELHO, S. G.; MACHADO, F. S.; CAMPOS, M. M.; DÓREA, J. R. R. (2021). Adoption of precision technologies by Brazilian dairy farms: The farmer’s perception. Animals, 11(12), 3488. https://doi.org/10.3390/ani11123488

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Material escrito por:

FRANKLIN CHIDI OKWARA

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Stefany Cristiny  Ferreira da Silva Gadêlha

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Marco Antônio Pereira da Silva

Marco Antônio Pereira da Silva

Doutor em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás, Professor do IF Goiano - Campus Rio Verde, GO

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Julio Palhares
JULIO PALHARES

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/01/2026

Olá, gostaria de entender como a ordenha robotizada promove menor impacto ambiental?
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