Califórnia perde seu estatus de livre de tuberculose

Em 25 de abril de 2003, o estado da Califórnia - primeiro produtor de leite dos Estados Unidos - perdeu seu estatus de livre de tuberculose.

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Em 25 de abril de 2003, o estado da Califórnia - primeiro produtor de leite dos Estados Unidos - perdeu seu estatus de livre de tuberculose após terem sido detectados e confirmados três casos da doença em rebanhos leiteiros do estado.

Certificada como livre da doença em 1999, a Califórnia tinha tido seu último caso em 1991 e desde então confiava no sistema de inspeção pos mortem para a detecção de novos casos e foi desta forma que o primeiro caso foi detectado em maio de 2002.

Neste contexto é interessante ressaltar que no início de 2001, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (APHIS/USDA) lançou um programa de incetivo aos funcionários responsáveis pela inspeção com o objetivo de reforçar a vigilância sanitária e averiguar o real estatus de áreas tidas como livre da doença. Funcionário que identificar lesão característica de tuberculose em novilhos e animais adultos recebe respectivamente U$100 e U$500. Caso a lesão seja confirmada como sendo causada pelo Mycobacterium bovis o valor aumenta para U$200 e U$1000, respectivamente - e se o animal positivo levar a um rebanho infectado, o prêmio chega a U$6000.

Foi desta forma que dois dos três casos foram identificados, durante a inspeção no abatedouro. Estes animais positivos foram rastreados, os rebanhos de origem colocados em quarentena e testados usando primeiramente a tuberculinização caudal com PPD bovino. Os reativos ao teste de triagem foram testados novamente usando o comparativo cervical para excluir a possibilidade de reação cruzada com Mycobacterium avium (vide artigo anterior para maiores informações). Animais positivos neste segundo teste foram sacrificados e, na presença de lesões características, estas foram submetidas a confirmação por histopatológico, PCR (reação de polimerase em cadeia) e cultura.

Todas as propriedades que de alguma forma tiveram contato com os rebanhos infectados (compra de animais, alojamento temporário, etc.) foram testadas seguindo o mesmo procedimento já descrito. Assim, o terceiro caso foi identificado. Contudo, os testes não ficaram restritos apenas a estes rebanhos e o CDFA (Departamento de Alimentos e Agricultura da Califórnia) está testando todos os rebanhos da região, cerca de 700 (773.000 animais).

Até outubro de 2003 foram testados 500.522 bovinos para tuberculose, localizados em 375 rebanhos. Desde o início da investigação, aproximadamente 13.000 animais já foram sacrificados, a maioria deles provenientes de rebanhos positivos que foram despopulados.

Os proprietários dos rebanhos infectados optaram pela despopulação ao invés do teste e sacrifício de positivos. Existe uma pressão por parte do governo e por parte dos outros produtores para que isto ocorra, uma vez que a segunda opção (teste e sacrifício) retarda a recuperação do estatus e pode constituir uma potencial fonte de infecção para rebanhos vizinhos.

A pecuária de corte foi a mais afetada com a perda do estatus, sobretudo por que a movimentação de animais para fora do estado é bastante frequente. Após a perda do estatus de zona livre de tuberculose, todo animal em trânsito deve ser testado com no máximo 60 dias de antecedência, gerando custo adicional ao produtor. O setor leiteiro não foi tão afetado, uma vez que a Califórnia é tradicionalmente um importador de animais leiteiros e a grande maioria do leite e derivados é pasteurizada.

Até o presente momento a origem da doença não foi detectada. Especula-se a existência de rebanhos com infeções crônicas e a possível entrada de gado infectado proveniente do México. O gado mexicano que entra nos EUA está destinado ao abate imediato ou a confinamentos de onde sairíam somente para o abatedouro. Sendo assim, não requerem certificado negativo da doença uma vez que, teoricamente, serão abatidos em breve e seu contato com outros animais é restrito. Contudo, sabe-se hoje que alguns produtores ainda adquirem animais de cria em confinamentos, estabelecendo assim uma ligação entre estes e os rebanhos de cria (leiteiros ou de corte), o que pode constituir uma porta de entrada para a doença.

Em função da grande entrada de animais no estado, em julho deste ano o CDFA alterou a lei nacional que exime estados livres de tuberculose de testar animais para movimentação. Atualmente, todos os animais que entram na Califórnia devem ser testados para tuberculose com no máximo 60 dias de antecedência. Esta decisão tem causado bastante divergência entre os Estados, que uma vez certificados como livres, não querem arcar com os custos do teste.

Caso não seja detectado mais nenhum caso de tuberculose no estado, a Califórnia poderá recuperar seu estatus livre em abril de 2005. Os 3 rebanhos despopulados já estão reiniciando suas atividades e reintroduzindo animais no local. Todo o processo tem sido acompanhado por funcionários do CDFA, USDA e o veterinário responsável pela fazenda. De acordo com o CDFA, a propriedade deve ficar em vazio sanitário de no mínimo 30 dias e então passar por limpeza e desinfecção das instalações. Uma camada de solo deve ser retirada dos currais e estes devem ser expostos a luz solar para garantir a desinfecção.

Algumas medidas já começaram a ser tomadas para que em recobrando o estatus de livre de tuberculose em 2005, o sistema de vigilância seja mais eficiente. Recentemente foi definido o padrão de inspeção, onde a cada 10.000 animais abatidos, 5 granulomas são submetidos à análise. Normas para veterinários que realizem testes em animais vivos também foram redefinidas.

Enquanto isso, o estado continua testando os animais da região de Fresno, Kings e Tulare (aproximadamente 773.000 vacas localizadas em 700 rebanhos) e incentivando, através de programas educativos e treinamento, o diagnóstico da doença, seja no abatedouro ou na fazenda.


Agradecimentos: Dra. Anita Edmondson e Dra.Melanie Swartz do CDFA
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Material escrito por:

Juliana M Ruzante

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Fabiano Santos Junqueira
FABIANO SANTOS JUNQUEIRA

PARÁ DE MINAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 14/11/2003

O problema deve ser ainda pior, pois estão fazendo triagem com prova anocaudal, que é de eficácia bastante reduzida.
Qual a sua dúvida hoje?