A somatotropina bovina (BST) já está no Brasil há cerca de 10 anos. Durante este período, vários artigos foram escritos nas revistas especializadas, alguns experimentos foram feitos e o produto ganhou espaço especialmente entre rebanhos especializados. Segundo os dados informados pela literatura, o produto não apresenta riscos aos seres humanos e aos animais. Sua principal vantagem está no expressivo aumento de produção que pode gerar. Eventuais aspectos negativos decorrentes do uso do BST estariam relacionados ao aumento de produção e não ao produto em si. São exemplos a maior incidência de mastite e a piora na taxa de concepção.
Embora o produto tenha eficácia comprovada em rebanhos com bom manejo e nutrição, com aumentos de produção da ordem de 2,5 a 6,0 kg de leite/vaca/dia, é importante que técnicos e produtores sempre tentem calcular a viabilidade econômica desta ferramenta que pode ser um bom instrumento para aumento da renda líquida da propriedade caso aplicada corretamente e caso o cenário de preços do leite e preço dos alimentos seja favorável.
Para calcularmos a viabilidade, é importante saber:
- o custo diário de aplicação do produto, geralmente obtido pelo preço da dose dividido por 14 dias
- o aumento estimado da produção de leite, em kg/dia
- o aumento estimado do custo de alimentação, em R$/dia
- caso exista, o aumento do custo do kg de matéria seca decorrente de uma dieta mais concentrada
- o preço do leite, em R$/dia
Pode-se ainda argumentar que a queda na taxa de concepção e a maior ocorrência de mastite decorrentes do aumento da produção deveriam ser contabilizados economicamente. Porém, a análise fica muito minuciosa e sujeita a mais erros; por outro lado, o BST tende a reduzir a taxa de descarte por manter vacas atrasadas por mais tempo no rebanho, sendo este um aspecto positivo, porém de difícil quantificação em uma breve simulação como esta. Ainda, pesquisas recentes indicam que o BST aplicado no protocolo Ovsynch pode elevar a taxa de concepção. Todas estas variáveis ficarão fora da análise.
A planilha a seguir reúne todos os fatores acima em um determinado cenário. Considerou-se preço de R$ 8,00/dose a cada 14 dias (R$ 0,571/dia) e aumento da produção da ordem de 3,5 kg/vaca/dia. Muitas pessoas perguntam como se pode acompanhar se o produto está de fato aumentando a produção suficientemente ou não. No início, isto até é possível de ser feito, avaliando a produção anterior ao uso do produto e posterior ao mesmo, sempre considerando que, para estimar a produção atual dos animais caso não estivessem recebendo BST, é necessário levar em conta persistência da ordem de 92-94% para animais especializados. Um vaca que estava produzindo por exemplo 30 kg há 3 meses atrás, no pico de produção, hoje deveria estar produzindo algo em torno de 24,1 kg (30 * 0.93 * 0.93 * 0.93). Se ela estiver produzindo 27 kg, pode-se estimar que o produto gerou quase 3 kg de aumento. Note que, em uma primeira análise, o observador menos atento pode entender que o produto não gerou benefícios ou mesmo que resultou em menor produção de leite.
O difícil é avaliar o produto uma vez já estando incorporado ao manejo. Pode-se ter um lote testemunha, sem receber aplicações do produto, para que seja comparado ao restante do rebanho. Porém, para que haja alguma validade na comparação, os dois grupos precisam ser uniformes quanto aos dias em lactação, número da lactação, manejo e instalações e condição corporal, algo difícil de ser obtido em condição de fazenda. Outra opção - não muito ortodoxa, é bom que se diga - seria interromper o uso do produto em alguns animais aleatoriamente escolhidos para avaliar se a produção cai, mas tal prática precisaria ser bem conduzida para que tivesse alguma validade de comparação, além do que, caso se optasse por retomar o uso do produto com estes animais testados, o resultado não seria o mesmo.
O mais importante é que se balanceie corretamente a dieta, se dê conforto aos animais, que se forneça a dieta de forma adequada, que as práticas sanitárias estejam de acordo com o manejo e, a partir daí, confiar nos trabalhos de pesquisa que sustentam tecnicamente o uso do produto. Conclusões com base em comparações em fazendas tendem a carregar distorções pela falta de rigor científico e estatístico, devendo ser consideradas com muito cuidado.
Continuando a análise, muitas vezes não se considera que o BST, além de aumentar a produção, eleva também a ingestão de matéria seca (MS), de forma que o aumento do custo não se resume ao preço do produto. Ainda, pode-se considerar que exista a necessidade de se fornecer uma dieta mais concentrada e, normalmente, mais cara. Na planilha a seguir, consideramos que cada 3 kg a mais de leite gera aumento de 1 kg de MS no consumo, caso a dieta esteja corretamente balanceada (alguns autores consideram 2,0 a 2,5 kg de leite/1 kg de MS). Também, consideramos aumento de custo de 5% no valor do quilograma de MS da dieta, bem como preço do leite de R$ 0,38/litro.
Pela planilha, nestas condições, nota-se que para cada real investido, obteve-se retorno de 1,322. Portanto, o uso do produto foi vantajoso. A simulação apontou posteriormente que, nestas condições, a produção de equilíbrio (break even) seria de 2,5 litros a mais, ou seja, aumentos menores do que este não justificariam o uso do produto nestas condições.
EXEMPLO DE PLANILHA ESTIMATIVA DA VIABILIDADE DO BST

Se alterarmos os parâmetros, evidentemente a relação custo benefício do uso do produto também se altera. Na tabela abaixo, avaliamos o efeito do preço do leite e do custo do kg de MS na dieta original (considerando aumento de 5% no preço em função da maior densidade) na relação benefício:custo do produto. Valores acima de 1 indicam situação favorável ao uso do produto e, abaixo disso, desfavorável, considerando agora o aumento de produção de 3,0 kg/vaca/dia.

Note-se que o preço do leite exerce efeito considerável na viabilidade do uso do produto. Com leite a R$ 0,45/litro, mesmo em dietas muito caras como a que indica R$ 0,26/kg de MS, o produto gera retorno. Já com leite a R$ 0,30/litro, mesmo dietas baratas (R$0,14/kg de MS) apresentam viabilidade marginal, sempre considerando que o aumento estimado foi de 3 kg/vaca/dia e o produto custou R$ 8,00/dose. Com valores distintos destes, a relação muda.
Finalizando, o BST é uma ferramenta potencialmente útil e viável. Porém, não se trata de simplesmente aplicar e colher os frutos. É preciso oferecer boas condições de resposta e sempre estimar o retorno, como se deve fazer em qualquer outra tecnologia.
********
fonte: MilkPoint