Jose Neuman Miranda Neiva – Prof. Dr. da Universidade Federal do Tocantins
Rosiane Francisco Brito - Mestranda da Universidade Federal do Tocantins
Fabrícia Rocha Chaves Miotto, Profª Dra da Universidade Federal do Tocantins
João Restle – Prof. PhD da Universidade Federal do Tocantins (PVNS – CAPES)
Denise Adelaide Gomes Elejalde – Pós Doutoranda da Universidade Federal do Tocantins
Regis Luis Míssio – Pós-Doutorando da Universidade Federal do Tocantins
No artigo anterior, intitulado “Aproveitamento de machos de origem leiteira para produção de carne: Por que o Brasil não usa essa tecnologia com eficiência?” foi abordada a possibilidade de se aproveitar os machos de origem leiteira que são normalmente descartados após o nascimento para a produção de carne. Desde a publicação, vários comentários foram postados levantando a questão da viabilidade econômica do aproveitamento desses animais no Brasil.
Um ponto importante que devemos considerar é que a viabilidade econômica do aproveitamento de machos de origem leiteira depende basicamente da sua inserção no mercado nacional. Assim, antes de pensarmos no custo de produção dos aqui denominados “vitelos modificados” temos que pensar no mercado que absorverá essa carne. É por isso que temos desenvolvido as nossas pesquisas no sentido de produzir um animal que está bastante próximo do que se denominou novilho precoce. Entendemos que o termo vitelo modificado ou mesmo Vitelo Tropical como já foi designado por um grupo de pesquisadores brasileiros poderá caracterizar e criar um nicho de mercado específico para esses animais. No entanto, pelos dados que dispomos no momento, nos faz concluir que, se nutricionalmente bem manejados, esses animais podem produzir carcaças com boa qualidade e serem classificados inclusive como novilhos precoces.
Entre fevereiro e setembro de 2012 na Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia (EMVZ) da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Campus de Araguaína –TO foi desenvolvida uma pesquisa onde se avaliou a viabilidade da produção de vitelos modificados com abate aos oito ou dez meses de idade e com a alimentação fornecida à vontade ou restrita a 2% do peso dos animais. Foram utilizados 28 bezerros produto do cruzamento entre as raças Holandês e Zebu, com idade e peso médio iniciaisde 100 dias e 71,6kg, respectivamente.Foi utilizado delineamento inteiramente casualizado com quatro tratamentos e sete repetições distribuído numfatorial 2x 2, sendo dois níveis de oferta da dieta (à vontade ou restrição) e duas idades de abate (8 ou 10 meses). O período médio total de confinamento foi de 147 dias para vitelos abatidos a oito meses e 210 para os abatidos com 10 meses de idade.
A dieta utilizada foi à base de milho grão inteiro + suplemento protéico, mineral e energético (Engordin – Agrocria). O objetivo com o uso de dieta sem volumoso foi avaliar um sistema onde não houvesse competição dos vitelos com áreas para produção de alimentos, tendo em vista que em sistemas de produção de gado de leite a terra é um fator limitante. Além disso, o uso de dietas à base de grão inteiro facilita de sobremaneira a alimentação dos animais, seja em termos de mão-de-obra, seja em termos de confecção da ração. A dieta grão inteiro ofertada no período experimental era obtida pela mistura homogênea dos componentes nas seguintes proporções: 85% milho grão inteiro e 15 % de Engordin – Agrocria (Núcleo concentrado protéico, mineral e vitamínico peletizado) conforme pode ser visto naTabela 1.
Os consumos de matéria seca e proteína bruta expressos em kg/dia foram maiores para os animais com dieta à vontade como era de se esperar (Tabela 2), porém a idade de abate também influenciou esses valores, com animais abatidos aos 10 meses apresentando maiores consumos Esse fato ocorreu devido maior peso corporal e consumo de alimentos dos animais abatidos com 10 meses de idade.
Quanto ao desempenho observou-se que o maior ganho de peso diário foi obtido quando os animais receberam alimentação à vontade e foram abatidos com 10 meses de idade. O ganho de peso médio diário foi de 1,220kg, valorconsiderado muito bom uma vez que essa média considera os ganhos de peso desde 90 dias de idade. A conversão alimentar não foi alterada em função dos tratamentos avaliados.
Com relação às características de carcaça (Tabela 4) observou-se que os animais abatidos com 10 meses de idade apresentaram maiores pesos de corpo vazio e peso de carcaça quente, bem como maiores rendimentos de carcaça (51,5%). É importante lembrar que os animais mantidos com alimentação à vontade apresentaram carcaças com peso médio de 154,32kg ou 10 @, o que é considerado aceitável até para o mercado convencional de bovinos.
Outro aspecto relevante é a espessura de gordura da carcaça. Os animais abatidos aos 10 meses de idade apresentaram valores de 2,88mm de espessura de gordura no Longissimus dorsi o que, se não atende ao padrão de novilho precoce (6mm), demonstra que com um manejo alimentar adequado esse valor poderá ser atingido nos próximos trabalhos. Atente-se ainda para o fato de que, caso se trabalhe com a venda de vitelos modificados, a cobertura de gordura deixa de ser uma exigência relevante.
Na tabela 5 estão apresentados os custos com a alimentação durante o experimento descrito acima. Na avaliação foram descritos os custos com alimentação levando em consideração seis cenários de preço do kg de milho: R$0,25; R$ 0,30; R$ 0,35; R$ 0,40; R$0,45; R$ 0,50. O suplemento (ENGORDIM-AGROCRIA) foi considerado com o preço de R$ 1,80.
Se considerarmos que os melhores desempenhos foram para os animais abatidos aos 10 meses de idade recebendo alimentação à vontade, obtemos o custo com alimentação de R$482,38 quando milho custar R$ 0,25 e R$ 694,83 quando o milho custar R$ 0,50.
Na Tabela 6 estão apresentadas as receitas geradas com a venda dos animais sob o cenário de @ a R$ 100,00, preço de mercado atual, e a R$ 120,00 caso se consiga um preço diferenciado pelos animais. Para os animais abatidos aos 10 meses com alimentação à vontade teríamos uma receita bruta de R$ 1.050,47 e R$ 1.260,00 com preços de @ de R$ 100,00 e R$ 120,00 respectivamente.
Na tabela 7 estão apresentados os valores oriundos da subtração dos custos com alimentação da receita gerada quando da venda das carcaças nos dois cenários de @ a R$ 100,00 e R$ 120,00. Obviamente que não devemos considerar os valores apresentados como lucro ou margem líquida. É importante lembrar aos leitores que não foi considerado o custo do bezerro aos 90 dias de idade. Sugerimos que para uma avaliação mais criteriosa que se considere o custo desses animais R$ 250,00. Dessa forma, o lucro deve ser considerado o valor da receita da venda das carcaças menos o custo da alimentação + custo do bezerro.
Pelos resultados apresentados observa-se que se considerarmos o preço do milho a R$ 0,25/kg e @ a R$ 100,00 e abate aos 10 meses com alimentação à vontade teríamos um lucro por animal de R$ 568,09. Se considerarmos um possível ágio pela qualidade da carne e se negociar a @ a R$ 120,00, teríamos um lucro de R$ 778,18. No entanto, caso o milho seja adquirido a R$ 0,50 e as carcaças vendidas a R$ 100,00 o lucro seria de R$ 355,64 e abate aos 10 meses com alimentação à vontade.Caso o preço da @ seja de R$ 120,00 teríamos um lucro por animal de R$ 565,73.
Obviamente que os dados aqui apresentados são parciais e serão mais bem trabalhados para se obter o custo de produção real dos vitelos modificados. No entanto, os dados gerados até o momento permitem que vislumbremos com muito otimismo a possibilidade de aproveitamento dos machos de origem leiteira para produção de carne. Gostaríamos de destacar que outros pesquisadores estão se dedicando às pesquisas para melhorar a viabilidade de bioeconômica de vitelos modificados. Entre esses grupos podemos destacar alguns colegas do Campus Universitário de Dois Vizinhos-PR da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Abaixo estão algumas referencias bibliográficas de alguns trabalhos publicados pelo referido grupo.
As publicações do gupo de pesquisadores da Universidade Federal do Tocantins podem ser solicitadas pelo e-mail araguaia2007@gmail.com .
No próximo artigo trataremos de alimentos alternativos para a produção de vitelos modificados.
Referencias:
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NAZÁRIO, D.; MENEZES, L.F.G.; SANTOS, P.V. et al. Características Qualitativas da Carcaça de Bezerros Holandeses Abatidos com Diferentes Pesos. In: XXIII CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA, 2013, Foz do Iguaçu - PR. Zootecnia do Futuro: Produção Animal Sustentável. , 2013.
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STANQUEVISKI, F.; MENEZES, L.F.G.; SEGABINAZZI, L.R. et al. Pesos e rendimentos dos cortes comerciais primários da carcaça de bezerros da raça Holandês, abatidos com diferentes pesos. In: XXIII CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA, 2013, Foz do Iguaçu - PR. Zootecnia do Futuro: Produção Animal Sustentável, 2013.
VENTURINI, T.; KUSS, F.; VINCENZI, P. et al. Qualidade da carne de bezerros holandeses para produção de vitelos terminados em confinamento ou pastagem. In: XXIII CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA, 2013, Foz do Iguaçu - PR. Zootecnia do Futuro: Produção Animal Sustentável, 2013.
VENTURINI, T.; SILVEIRA, M.F.; VINCENZI, P. et al. Rendimento e proporção dos componentes não-carcaça de bezerros holandeses para produção de vitelos terminados em confinamento ou pastagem. In: XXIII CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA, 2013, Foz do Iguaçu - PR. Zootecnia do Futuro: Produção Animal Sustentável, 2013.