A movimentação é importante para o funcionamento do rúmen de bezerros

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Ao nascer, o rúmen dos bezerros é muito pequeno - na realidade menor que o abomaso (correspondente ao nosso estômago) - e não é funcional, ou seja, não tem capacidade de digestão de alimentos. O leite ingerido é desviado do rúmen através de uma estrutura chamada goteira esofageana que se forma quando o bezerro suga o teto da vaca ou da mamadeira. Portanto, nesta fase de amamentação, os alimentos secos (concentrados e forragens) é que passam pelo rúmen (e pelo menos parte da água).

Para que o rúmen comece a funcionar, ele precisa ser estimulado, o que depende de diversos fatores. Um destes fatores é a habilidade do rúmen de apresentar contrações.

Indicadores da atividade ruminal são suas contrações propriamente ditas, sua pressão e ainda, o ato da regurgitação dos alimentos para mastigação. As contrações estão envolvidas na mistura e movimentação dos alimentos no rúmen, para que possam ser mais eficientemente digeridos e também, para que circulem de forma a sair do rúmen quando atingirem um tamanho de partícula adequado; a regurgitação permite o retorno do alimento à boca para remastigação, diminuindo o tamanho das partículas e facilitando sua fermentação pelos microrganismos no rúmen. Só assim, o conteúdo do rúmen pode ser "renovado" de forma a permitir que o animal tenha o consumo necessário.

Ao nascer, o rúmen dos bezerros tem pouca atividade muscular e poucas contrações ruminais podem ser sentidas. Paralelamente, ainda não há regurgitação na primeira semana ou pouco mais tempo de vida. As contrações somente se iniciam com o início do consumo de alimentos secos. Quando os bezerros recebem leite, feno e concentrado desde os primeiros dias após o nascimento, as contrações ruminais podem ser sentidas já a partir da terceira semana de vida. Por outro lado, em bezerros que recebem somente leite, as contrações podem não ser sentidas por períodos muito maiores, indicando atraso no desenvolvimento ruminal.

A ruminação (mastigação) pode, eventualmente, ser observada já a partir dos 7 dias de vida e portanto, pode não estar propriamente relacionada a um completo desenvolvimento do rúmen. No entanto, os bezerros irão ruminar por períodos crescentes quando alimentos secos são fornecidos (particularmente feno).

A figura 1 mostra o início das contrações ruminais regulares em resposta a vários tipos de dieta fornecidas a bezerros jovens. O gráfico mostra que, quando o leite é o único alimento oferecido aos bezerros, o estímulo às contrações é bastante retardado (neste caso, não ocorreu até a décima semana de vida).

A introdução de esponjas plásticas no rúmen para simular o efeito do consumo de forragens (a estimulação "física" provocada pelas fibras) no desenvolvimento da motilidade ruminal resultou no início das contrações na sétima semana de vida.

De forma semelhante, quando ácidos graxos voláteis (AGVs) foram colocados no rúmen para simular a fermentação dos alimentos (a estimulação "química" do desenvolvimento do rúmen), foram necessárias 10 semanas para o início das contrações regulares.

Todavia, quando concentrados foram fornecidos, ou quando as esponjas foram associadas à adição de AGVs no rúmen, a motilidade ruminal foi estabelecida aproximadamente às 3 semanas de vida. Se assumirmos que os bezerros iniciam o consumo de alimentos secos com aproximadamente 1 semana de vida, então pode-se concluir que leva aproximadamente 2 semanas para que esta movimentação seja estabelecida.


Adaptado de Asai, T. 1973. Japanese J. of Veterinary Sci. 35:239:252, citado por Quigley, J. 2001.

Para que a desmama (precoce) ocorra sem estresse e não prejudique o desenvolvimento dos bezerros é necessário que seu rúmen esteja bem desenvolvido e funcional, o que dá condições aos animais de obter os nutrientes necessários a partir dos alimentos secos. Sendo assim, durante as primeiras 6 a 8 semanas de vida, a ênfase na criação de bezerros deve ser maximizar o desenvolvimento ruminal. Os dados acima demonstram claramente que isto está associado ao consumo de concentrado. Enquanto o feno (forragem) tem importância para a saúde do rúmen, ela é destacada após as primeiras 6 semanas de vida, quando o desenvolvimento das papilas ruminais é crítico para permitir maior absorção de ácidos graxos voláteis e manter o crescimento do animal.

O consumo adequado de concentrado permite, portanto, o correto desenvolvimento ruminal, e é suficiente inclusive para fornecer estímulo físico suficiente para o início de suas contrações. Não se pode esquecer que o fornecimento de água a partir dos primeiros dias de vida é fator estimulante do consumo de concentrados (já discutido em artigos anteriores).

Comentário do autor: estes dados tornam mais óbvia esta questão da importância do fornecimento do concentrado para o desenvolvimento ruminal. A desmama precoce, quando realizada em animais bem adaptados aos alimentos secos, gera grande economia para a propriedade.

Fonte: Adaptado de: Quigley, J., 2001. Rumen motility. Calf Note #48. Calfnotes.com.
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Material escrito por:

José Roberto Peres

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Lucenilton
LUCENILTON

IBIRATAIA - BAHIA - ESTUDANTE

EM 15/03/2016

Boa noite, gostaria de saber como ter a garantia que o bezerro está apto a trocar ou adicionar outra alimentação (feno)? Quais características são percebíveis ou demonstradas pelo animal?
Rogerio Silva de Lima
ROGERIO SILVA DE LIMA

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 05/12/2001

Quando você falou em forragem sempre citou o uso de feno (são caros). O que você acha do fornecimento de silagem, já que o propiônico (concentrado) já dá eficiência de rúmen, enquanto o feno estaria aumentando a camada muscular do rúmen (bezerra barriguda, de exposição), sendo que a maioria das bezerras não vai a exposições?

Resposta MilkPoint: <i><font color="#006666"> complementando minha resposta à sua outra questão, parece que você já havia concluído que a função dos AGVs é o estímulo "químico". Não vejo problema em utilizar silagens para bezerros, ao invés do feno, desde que ela não esteja deteriorada (fungos, fermentações secundárias, etc...), o que pode ser um problema nas nossas condições, considerando que o consumo destes animais é muito pequeno. Por isso a preferência pelo feno, que realmente é com freqüência de má qualidade e ao mesmo tempo muito caro. Na realidade, minha recomendação seria que você não forneça qualquer tipo de volumoso até os 45-60 dias de vida. Um concentrado de boa qualidade é suficiente, como foi demonstrado no trabalho apresentado (e em vários outros), independente do animal se destinar a exposições ou à produção. José Roberto Peres</i></font>
Rogerio Silva de Lima
ROGERIO SILVA DE LIMA

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 05/12/2001

Por que a resposta com AGV's levou 10 semanas e com concentrado 3 semanas, se o produto de fermentação do concentrado seria AGV (propionato)?

Resposta MilkPoint: <i><font color="#006666">O experimento relatado avaliou o tempo até o início das contrações ruminais. Os AGVs são responsáveis pelo desenvolvimento da capacidade de absorção do rúmen (talvez possa se chamar de "desenvolvimento químico" do rúmen). As contrações precisam de estímulo físico. O concentrado, embora tenha pouca fibra, parece ser suficiente para proporcionar, além do estímulo químico, pelos AGVs produzidos na fermentação, o estímulo físico necessário às contrações. Esta é a razão mais provável desta diferença. José Roberto Peres </i></font>
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