A produção de leite no Brasil foi de 35,4 bilhões de litros de leite, no último ano a produção passou por um avanço de 2,4% em relação ao produzido no ano anterior (IBGE, 2024). Nos últimos anos, o setor leiteiro brasileiro tem passado por profundas transformações tecnológicas, elevando a competitividade dos produtores mais bem estruturados. Entretanto, esse avanço tem exacerbado a exclusão de pequenos produtores, que enfrentam dificuldades para se adaptar a novas exigências produtivas e de gestão.
De acordo com a Aliança láctea sul-brasileira (2023) essa realidade é especialmente evidente no Rio Grande do Sul, onde, entre 2015 e 2023, cerca de 60,78% dos produtores abandonaram a atividade, e enquanto isso, os produtores remanescentes aumentaram sua escala de produção, garantindo um crescimento no volume total de leite no estado. Mas para que esse crescimento aconteça, será que, inevitavelmente, ele precisa ocorrer à custa da saída dos menos eficientes?
Nos últimos anos, a exigência dos consumidores e investidores em relação aos produtos de origem animal tem se transformado. Há uma busca crescente por práticas mais sustentáveis, priorizando sistemas que garantam não apenas eficiência produtiva, mas também responsabilidade ambiental e social. Cada vez mais, os consumidores valorizam produtos provenientes de sistemas que respeitam o bem-estar animal, associando essas práticas à produção de maior qualidade e segurança alimentar.
Segundo Alonso et al. (2020), essa não é apenas uma tendência do mercado internacional, mas uma mudança real no comportamento dos consumidores, onde entre 2006 e 2015, a preocupação com o bem-estar animal passou de 34% para 57%, evidenciando uma transformação nas expectativas de consumo. Cresce um nicho de mercado formado por consumidores que buscam produtos alinhados com seus valores e percepções sobre a produção agropecuária.
No setor leiteiro, essa tendência se reflete na preferência por sistemas de produção onde os animais vivem soltos, em pastagens, com mais liberdade e em contato próximo com o produtor. Para esses consumidores, o vínculo afetivo de cuidado e respeito com os animais se traduz em um produto de maior qualidade e mais ético. Por outro lado, há uma resistência crescente a modelos de produção intensiva, nos quais os animais passam grande parte do tempo confinados e com dietas mais ricas em concentrado. Muitos consumidores evitam produtos provenientes desses sistemas, sob argumentos como:
"Os animais vivem presos e não têm liberdade para expressar seus comportamentos naturais."
"São alimentados principalmente com ração, e não tem acesso ao pasto."
Esse tipo de percepção influencia diretamente o consumo de produtos como o leite de caixinha, que, para muitos, é visto como um alimento altamente processado e distante de uma produção mais natural. Apesar da segurança alimentar e qualidade nutricional garantidas pelo processamento industrial, uma parcela do público acredita que o leite fresco, é uma opção mais saudável.
Nesse contexto, os sistemas de base familiar, que representam 84% da produção agrícola nacional, desempenham um papel fundamental, empregando uma grande parcela da população rural e fortalecendo a resiliência econômica e a segurança alimentar local (Granato et al., 2022). Esses sistemas estão intimamente conectados a práticas sustentáveis, como a rotação de culturas, manejo agroecológico e o uso de insumos naturais, favorecendo a preservação do solo, da água e da biodiversidade (Sousa et al., 2022). Além disso, a produção familiar frequentemente envolve toda a família, proporcionando oportunidades de trabalho e empoderamento para mulheres e jovens nas áreas rurais, promovendo inclusão social e fortalecendo as comunidades locais.
Contudo, o desaparecimento dessas propriedades leiteiras tem se intensificado e, à medida que avança, não apresenta retorno. Diante das novas exigências globais voltadas à sustentabilidade e ao bem-estar animal, bem como das demandas crescentes do mercado consumidor, os laticínios precisam se adaptar para manter sua competitividade. Como elo fundamental entre a produção e o mercado, a indústria assume um papel central nesse cenário, sendo responsável por alinhar a oferta às novas exigências.
As métricas ESG (Environmental, Social, and Governance) tornaram-se referência na avaliação das empresas do setor, determinando sua atratividade para investidores e fortalecendo sua posição no mercado. O não cumprimento dessas diretrizes pode gerar barreiras comerciais e comprometer a permanência da indústria em mercados mais exigentes. Dentro do ESG, o pilar social (S) avalia o impacto das atividades produtivas nas comunidades, nas condições de trabalho e na inclusão social.
No contexto da produção leiteira, os sistemas de base familiar se destacam nesse aspecto, pois estão diretamente ligados à geração de emprego no meio rural, ao fortalecimento das comunidades locais e à promoção da equidade no campo. Esse modelo produtivo não apenas mantém a mão de obra no setor, mas também proporciona oportunidades para mulheres e jovens, contribuindo para um desenvolvimento mais inclusivo. Esses são fatores cada vez mais observados pelos compradores e pelo mercado externo.
A adaptação a essas exigências não é apenas um desafio para os laticínios, mas também uma oportunidade para fortalecer a produção de base familiar. O Programa Mais Leite Saudável (PMLS) já sinaliza um caminho que os laticínios terão que seguir caso queiram se manter competitivos no mercado. A iniciativa incentiva as indústrias a investirem na base produtiva, fornecendo assistência técnica e promovendo melhorias na produção primária, enquanto recebem benefícios fiscais.
Com o fortalecimento dos indicadores ESG, a indústria de laticínios será cada vez mais cobrada por transparência, rastreabilidade, impacto social e sustentabilidade em toda a cadeia produtiva. Garantir qualidade e volume já não será suficiente; será necessário demonstrar como a produção atende a critérios ambientais, sociais e de governança. Tanto o mercado consumidor quanto investidores buscarão empresas que possam comprovar boas práticas, reduzir riscos socioambientais e garantir um leite produzido de forma ética e sustentável.
Essa exigência recairá diretamente sobre os laticínios, que precisarão buscar soluções para atender a esses novos padrões sem comprometer a diversidade produtiva do setor. A exclusão de pequenos e médios produtores considerados menos eficientes não será uma alternativa viável, pois a adaptação do setor dependerá da sua integração ao novo modelo produtivo. Somente a complementariedade entre os diferentes sistemas de produção poderá atender às demandas impostas pelos novos padrões de mercado.
Como já demonstrado, os sistemas de base familiar desempenham um papel essencial no setor, não apenas na oferta de leite, mas na manutenção de práticas sustentáveis, na preservação da biodiversidade e na valorização do capital social no meio rural. Além disso, há uma demanda crescente por produtos provenientes desses sistemas, especialmente por consumidores que valorizam a origem e o impacto socioambiental daquilo que consomem.
Portanto, a indústria será a peça central nesse processo de adaptação, sendo responsável por criar as condições necessárias para que os sistemas de base familiar melhorem sua eficiência produtiva e aumentem sua resiliência, garantindo que não precisem abandonar a atividade e sejam integrados ao novo modelo produtivo.
