O leite condensado brasileiro perdeu a doçura lá fora?

Apesar dessa relevância, os dados mais recentes revelam uma trajetória de perda de espaço.

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O leite condensado é historicamente importante nas exportações brasileiras, mas sua participação caiu de 6,1% em 2010-2014 para 1,9% em 2020-2024. Entre 2010 e 2019, as exportações diminuíram, apesar de um comércio internacional favorável. A competitividade foi o principal fator da redução, devido a menores produtividades e altos custos no Brasil. O ambiente externo também afetou as exportações no período mais recente, mas a competitividade continuou sendo o principal componente da queda. O desafio é transformar oportunidades pontuais em condições permanentes de competitividade.
O leite condensado tem presença histórica na pauta exportadora da cadeia láctea brasileira. Em 2017, por exemplo, foi o principal lácteo exportado pelo Brasil em valor, respondendo por 35,5% das vendas externas do setor. Naquele ano, Arábia Saudita, Estados Unidos e Trinidad e Tobago eram seus principais compradores (SORIO, 2018).

Apesar dessa relevância, os dados mais recentes revelam uma trajetória de perda de espaço. A média anual das exportações brasileiras de leite condensado passou de aproximadamente US$ 55,1 milhões entre 2010 e 2014 para US$ 32,5 milhões entre 2015 e 2019, chegando a US$ 18,8 milhões entre 2020 e 2024. Ao mesmo tempo, a participação brasileira nas exportações mundiais caiu de aproximadamente 6,1% para 3,2% e, posteriormente, para 1,9%.

Mas essa redução ocorreu porque o mercado mundial perdeu força ou porque o Brasil apresentou um desempenho inferior ao de seus concorrentes?

Para responder a essa questão, utilizou-se o modelo Constant Market Share (CMS). A abordagem tem origem no trabalho de Tyszynski (1951) e foi posteriormente sistematizada e aperfeiçoada por autores como Leamer e Stern (1970) e Richardson (1971). A ideia central é que, caso um país mantenha constante sua participação no mercado internacional, suas exportações deveriam acompanhar a expansão ou retração do comércio mundial.

Neste estudo, os dados da FAOSTAT entre 2010 e 2024 foram agrupados em três períodos: 2010–2014, 2015–2019 e 2020–2024, utilizando-se as médias de cada intervalo. Como a análise considera apenas um produto, o leite condensado, o efeito composição da pauta é igual a zero.

A decomposição utilizada considera, portanto, três componentes: efeito crescimento do comércio mundial, efeito demanda internacional e efeito competitividade. O primeiro indica a parcela associada à evolução das exportações mundiais do produto. O segundo representa uma adaptação agregada do efeito de mercado, calculada a partir do comportamento das importações mundiais em relação ao crescimento do comércio mundial. Como não estão disponíveis dados por país comprador, esse componente não deve ser interpretado como o efeito destino tradicional do CMS, mas como uma medida do dinamismo da demanda internacional. Por fim, o efeito competitividade corresponde ao componente residual da decomposição e indica o desempenho relativo das exportações brasileiras não explicado pelos dois primeiros efeitos.

O resultado mais marcante aparece na comparação entre 2010–2014 e 2015–2019. As exportações brasileiras de leite condensado diminuíram aproximadamente 41%, apesar da expansão do comércio internacional do produto. Na decomposição do CMS, o crescimento do comércio mundial apresentou contribuição de -28,8%, enquanto o efeito da demanda internacional foi de -21,9%. Como a variação das exportações brasileiras foi negativa, esses sinais indicam que ambos os componentes atuaram no sentido de amortecer a queda das vendas brasileiras.

O comportamento do mercado internacional, portanto, não explica a retração brasileira nesse primeiro período. Pelo contrário, as condições externas teriam sido favoráveis às exportações.

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O efeito competitividade alcançou 151%. Esse resultado não significa que a competitividade brasileira diminuiu 151%. Significa que o componente associado ao desempenho relativo do Brasil foi superior à própria redução observada nas exportações, sendo parcialmente compensado pelos efeitos favoráveis do comércio mundial e da demanda internacional.

A queda do market share, de aproximadamente 6,1% para 3,2%, reforça essa interpretação: enquanto havia espaço no mercado internacional, o Brasil perdeu participação. No período seguinte, entre 2015–2019 e 2020–2024, o cenário foi diferente. Além da redução das exportações brasileiras, houve também enfraquecimento do mercado internacional.

Nesse intervalo, o efeito crescimento do comércio mundial respondeu por 6,1% da queda, enquanto o efeito demanda internacional respondeu por 11,6%. Diferentemente do período anterior, portanto, o ambiente externo também contribuiu para a redução das exportações brasileiras.

Ainda assim, o principal componente continuou sendo a competitividade, responsável por 82,3% da variação observada. A participação brasileira nas exportações mundiais caiu novamente, chegando a apenas 1,9% no período 2020–2024.

Os dois períodos contam, portanto, histórias ligeiramente diferentes. Entre 2010–2014 e 2015–2019, o mercado internacional atuou favoravelmente, mas o Brasil perdeu espaço. Já entre 2015–2019 e 2020–2024, a conjuntura externa tornou-se menos favorável, embora a maior parcela da redução das exportações brasileiras continuasse associada ao componente competitividade.

O CMS não identifica diretamente as causas desse resultado, mas estudos sobre a cadeia láctea brasileira ajudam na sua interpretação. Oliveira, Bellozi e Carvalho (2024) destacam que a produção e a indústria brasileiras historicamente convivem com menores níveis de produtividade e maiores custos em relação a importantes exportadores, além de períodos em que os preços domésticos permanecem acima dos internacionais. Essas condições dificultam uma inserção externa contínua e competitiva.

Sorio (2018) também chama atenção para a instabilidade das exportações brasileiras de lácteos. O estudo destaca a influência da taxa de câmbio e dos preços internacionais, além da elevada variação dos volumes exportados ao longo do tempo. Para o leite condensado, o autor também identificava concentração das vendas em poucos compradores. Em 2017, Arábia Saudita, Estados Unidos e Trinidad e Tobago respondiam, respectivamente, por 24%, 15% e 14% das exportações brasileiras do produto.

Um exemplo da importância dessas condições conjunturais ocorreu em 2021. Com a elevação dos preços internacionais e o dólar em patamar favorável, os lácteos brasileiros ganharam competitividade no exterior. Em março daquele ano, as exportações brasileiras de lácteos cresceram 59% em relação ao mês anterior e o leite condensado respondeu sozinho por 31% do volume exportado, registrando aumento mensal de 188% (MILKPOINT MERCADO, 2021).

Essas evidências ajudam a interpretar o resultado encontrado pelo CMS. O Brasil consegue aproveitar determinadas janelas favoráveis de exportação, mas apresenta maior dificuldade em transformar essas oportunidades em uma presença estável e crescente no mercado internacional.

O principal resultado é, portanto, bastante objetivo: a perda de espaço do leite condensado brasileiro não pode ser atribuída apenas ao comportamento do mercado mundial.

No primeiro período analisado, tanto o crescimento do comércio quanto a demanda internacional contribuíram para amortecer a queda brasileira, enquanto o efeito competitividade dominou negativamente o resultado. No período mais recente, o ambiente internacional também se deteriorou, mas a competitividade continuou sendo o principal componente associado à redução das exportações. Em pouco mais de uma década, a participação brasileira nas exportações mundiais de leite condensado caiu de aproximadamente 6,1% para 1,9%.

O leite condensado continua sendo um produto relevante para a inserção internacional da cadeia láctea brasileira. O desafio é transformar oportunidades pontuais de câmbio, preços e demanda externa em condições mais permanentes de competitividade, capazes de recuperar a participação brasileira no mercado mundial.

Fontes consultadas

FAO – FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. FAOSTAT: Crops and Livestock Products – Trade. Dados de Whole milk, condensed, 2010–2024.

LEAMER, E. E.; STERN, R. M. Quantitative International Economics. Boston: Allyn and Bacon, 1970.

MILKPOINT MERCADO. Exportações brasileiras de leite crescem 59%. MilkPoint, 9 abr. 2021.

OLIVEIRA, S. J. M.; BELLOZI, I. P.; CARVALHO, G. R. Importações e competitividade em preço dos lácteos no Brasil: reflexões sobre o passado recente. Indústria de Laticínios, ano 29, n. 158, p. 10–11, 2024.

RICHARDSON, J. D. Constant-market-shares analysis of export growth. Journal of International Economics, v. 1, n. 2, p. 227–239, 1971.

SORIO, A. Cadeia Agroindustrial do Leite no Brasil: diagnóstico dos fatores limitantes à competitividade. Brasília: Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, 2018.

TYSZYNSKI, H. World Trade in Manufactured Commodities, 1899–1950. The Manchester School, v. 19, n. 3, p. 272–304, 1951.

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Material escrito por:

André Takano

André Takano

Doutorando em Economia (UFJF)

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