Com o aumento da expectativa de vida, a população idosa está em constante crescimento, o que gera desafios importantes relacionados à saúde e a nutrição. O envelhecimento é um processo biológico natural, associado com alterações físicas, sociais, psicológicas e fisiológicas (Félix et al., 2024). Essas alterações resultam em maior incidência de doenças crônicas não transmissíveis como hipertensão, obesidade, diabetes mellitus tipo 2 e doenças cardiovasculares, além de sarcopenia e osteoporose. Adicionalmente, modificações no nosso trato gastrointestinal associadas ao envelhecimento podem levar à redução na absorção de nutrientes, como vitaminas e minerais (Givens, 2020).
Apesar do processo de envelhecimento aumentar a nossa suscetibilidade para o desenvolvimento de doenças e fragilidades, pode-se envelhecer com qualidade de vida e saúde, desde que prevaleçam boas escolhas em relação ao estilo de vida (Félix et al., 2024). A alimentação tem um papel fundamental nesse processo, já que a ingestão adequada de nutrientes pode atuar na prevenção e controle de doenças com maior prevalência na população idosa.
O leite é um fluido biológico constituído por aproximadamente 87% de água, 3,3% de proteínas, 4,0% de lipídeos, 4,6% de carboidratos, além de vitaminas e minerais essenciais (Walstra et al., 2006). Dessa forma, pode fazer parte de uma alimentação balanceada, contribuindo para a ingestão de macro e micronutrientes importantes em todas as fases da vida (Chollet et al., 2014).
O consumo adequado de proteínas é uma das principais recomendações nutricionais para indivíduos idosos. Um dos objetivos dessa recomendação é a prevenção da sarcopenia, uma condição que é caracterizada pela perda progressiva de massa muscular e força relacionada à idade (Shalit et al., 2024). A sarcopenia é considerada um dos principais comprometimentos da integridade física e fisiológica nos idosos, podendo aumentar as chances de quedas e fraturas, afetando a qualidade de vida e independência nessa fase da vida (Félix et al., 2024; Givens, 2020).
Para que seja possível controlar ou prevenir patologias, incluindo a sarcopenia, é importante seguir as recomendações nutricionais, que visam o consumo de quantidades adequadas de nutrientes através dos alimentos. Nesse sentido, a Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) define que o indivíduo idoso deve consumir diariamente, no mínimo, 1,0 grama de proteína por quilograma de peso corporal para suprir a necessidade nutricional do seu organismo. Considerando, por exemplo, um idoso de 70 kg, o seu consumo de proteínas deve ser de no mínimo 70 gramas por dia, divididos ao longo das refeições. Vale ressaltar que para atingir esse aporte proteico, deve-se considerar o teor proteico de cada alimento. Além disso, a dieta deve ser ajustada por um médico ou nutricionista, analisando o estado nutricional, integridade física, prática de exercícios físicos, patologias e tolerância ao consumo de cada indivíduo, visto que a ingestão pode ser estabelecida em quantidades superiores ou inferiores ao valor mínimo estabelecido dependendo das necessidades e condições individuais (Volkert et al., 2022).
O leite e os produtos lácteos podem contribuir para a ingestão diária de proteínas e atuar na prevenção ou controle da sarcopenia. Proteínas do leite são consideradas proteínas de alto valor biológico, pois possuem em sua composição todos os aminoácidos essenciais, que são aqueles que nosso organismo não consegue produzir sozinho e, por isso, é preciso consumir por meio da alimentação. Os aminoácidos são absorvidos no intestino delgado e desempenham um papel importante na regulação da síntese proteica, garantindo a manutenção da massa muscular.
Diante disso, o consumo regular de leite e produtos lácteos pode ser utilizado como estratégia dietética para os indivíduos idosos. Iogurtes, leites fermentados e queijos são boas opções para serem inseridos nas refeições, principalmente nos lanches intermediários, que são aqueles realizados no meio da manhã, da tarde e da noite, contribuindo para o alcance da recomendação de ingestão diária de proteínas e para o fracionamento das refeições, visto que é interessante realizar três refeições principais (café da manhã, almoço e jantar) e duas a três refeições intermediárias (lanches da manhã, da tarde e da noite), a fim de distribuir a ingestão de nutrientes ao longo do dia e equilibrar a quantidade de alimentos ingeridos, buscando uma alimentação balanceada.
O consumo de lácteos também pode ser eficaz na prevenção ou tratamento da osteoporose, que é uma condição frequente na população idosa, caracterizada como uma doença metabólica causada por múltiplos fatores, como alterações hormonais, estresse oxidativo e consumo inadequado de cálcio e magnésio (Zhang et al., 2024; Rondanelli et al., 2021). A recomendação de ingestão diária de cálcio para idosos é de 1200 mg/dia e um copo de 200 mL de leite integral fornece 246 mg desse elemento. Em relação ao magnésio, a recomendação de consumo é de 320 mg/dia para mulheres idosas e de 420 mg/dia para homens idosos. Um copo de 200 mL de leite integral contém 22 mg de magnésio, colaborando para atingir a quantidade diária recomendada (Padovani et al., 2006; TACO, 2011).
Adicionalmente, produtos lácteos são reconhecidos pela capacidade de auxiliar na modulação da microbiota intestinal. A microbiota apresenta redução em sua diversidade com o avanço da idade, o que sugere a necessidade de consumir alimentos que podem atuar na sua modulação, que é reconhecida por favorecer a saúde intestinal, e contribuir com o combate a infecções e instalação de doenças crônicas não transmissíveis (Wu et al., 2024; Biagi et al., 2012). Produtos lácteos fermentados são muito explorados como veículos de probióticos e prebióticos. Probióticos são microrganismos vivos que quando administrados em quantidades adequadas conferem benefícios à saúde do hospedeiro (FAO/WHO, 2001). São capazes de colonizar o intestino e auxiliar na melhora do sistema imunológico, aumentando a resistência do organismo (Hao et al., 2023). Os prebióticos são carboidratos não digeríveis e atuam como substrato para os probióticos, que consomem esses prebióticos, os auxiliando na execução de suas funções benéficas ao organismo (Wu et al., 2024). Dessa forma, produtos lácteos probióticos e prebióticos podem contribuir para a saúde intestinal.
Diante disso, leite e derivados podem fazer parte de uma dieta equilibrada, rica em vitaminas, minerais e proteínas, que podem colaborar com a homeostase fisiológica. Embora esses alimentos ofereçam diversos benefícios, é importante que os indivíduos intolerantes à lactose ou alérgicos à proteína do leite de vaca estejam sempre atentos ao consumo, pois, nessas condições, podem haver riscos à saúde. Portanto, é crucial que haja acompanhamento médico ou nutricional para avaliação individual das condições de saúde e personalização das recomendações de ingestão diária dos nutrientes.
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Referências bibliográficas
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