Também quero ser feliz

Quando entreguei meu pouco leite para o poderoso Nilza, eu o fiz para o laticínio que tinha como sócio o poderoso, etc, etc, BNDES. Ora, pílulas, vender alguma coisa para um Banco do Brasil, uma CEF, um BNDES é venda garantida, é certeza de retorno, é certeza que teremos o dinheirinho da venda na nossa conta. Para mim, ser simplório como alguns me chamam, é assim que é. Eu acredito na integridade dessas instituições.

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Sou sujeito relativamente normal e, portanto, gosto de ver as pessoas felizes. Assim, fiquei feliz com a felicidade do empresário Silvio Santos, que se desfez de seu banco bichado sem perder nenhuma de suas empresas. Fiquei feliz, também, pela felicidade do ministro da área econômica, cuja maior qualidade (e única, a se acreditar nas más línguas) é ser pai de bela modelo. Não poderia deixar de ficar feliz pela felicidade da CEF, que, tal como o tal ministro, livrou-se de belo abacaxi. Magnânimo, estendo minha felicidade pela felicidade do BNDES.

Expliquemos, então, tamanha maré alta de gente e empresas felizes.

Em 2009, graças à visão arguta e inteligência afiada (e eu, bobo que sou, acredito que somente isso) do ministro pai da bela modelo, a CEF desembolsou um monte de centenas de milhões de reais e comprou uma parcela do banco do Silvio. Em 2010, fiscais do BC descobriram um rombo de 2,5 bilhões de reais no banco do Silvio e, agora, também da CEF. Ora, como manda o manual da canalhice tupiniquim, tal descoberta foi guardada a sete chaves e só revelada depois da eleição terminada - a eleição em questão é aquela de outubro, na qual escolheu-se, entre outras coisas, quem governará Pindorama pelos próximos quatro anos.

Continuando, e perdoem meus desvios de texto, a bordo do banco do Silvio e da CEF, os fiscais descobriram que o buraco era mais embaixo, vale dizer, era maior, era mais fundo, num total de 1,3 ou de 1,5 bilhão de reais. Com mais de cinco décadas de vida nessa Terra de Vera Cruz, é óbvio que o buraco é de - pelo menos - 1,5 bilhão. Até parece que algum dia algum buraco desse tipo terá o tamanho do menor número divulgado ou suspeitado. E são essas décadas todas que me dão a tranquilidade de colocar o singelo "pelo menos" ao mencionar o tamanho do novo buraco.

Agora, o que tem tudo isso a ver conosco, produtores de leite ou profissionais ligados a essa nobre tarefa?

Tem a CEF.
E tem o tal ministro.
E tem o BNDES.
Epa! Eis aqui de novo o BNDES. Breve explicarei o porquê de sua presença.

Para salvar o banco da dupla Silvio/CEF, pressões foram aplicadas sobre os gestores do FGC - Fundo Garantidor de Crédito. Esse fundo é formado por um dinheirinho que sai dos depósitos à vista de todos os bancos e tem por função garantir a solvência do sistema bancário em caso de crise.

Crise? Coisa estranha nesse caso, uma vez que o empresário Silvio Santos, tão logo descoberto o rombo, colocou todas suas demais empresas como garantia do pepino, digo, do rombo. Diante disso, a única crise à vista seria a que envolveria o próprio Silvio e sua família e - opa! - o tal ministro e as autoridades financeiras, monetárias, fiscais, sei lá quais, que checaram as contas e números do banco e aprovaram o negócio (eu já ia escrever negociata, mas, sabem como é...). Não haveria crise alguma para o sistema financeiro tupiniquim, cujos custos exorbitantes para quem dele se utiliza garantem navegação em águas tranquilas.

Portanto, ao fim e ao cabo, tivemos todo um enorme processo envolvendo pressões do governo, negociações conduzidas por gente do governo, confabulações das quais participaram gente do governo, que resultaram na venda do banco a um outro banco, em condições de "pai para filho" com prazo a perder de vista, etc, etc, etc. Quem conhece um mínimo de Pindorama sabe como é tudo isso.

Claro que tal operação custará aos bolsos dos caras que trabalham e pagam seus impostos direta e indiretamente. Nós todos somos parte desses caras, com o agravante de trabalharmos 365 dias por ano, às vezes 366.

Mas o que importa tudo isso diante das felicidades mencionadas de Silvio, o tal ministro, a CEF e sei lá quem mais?

Agora, o BNDES

Quando a CEF comprou o banco do Silvio ela já tinha averiguado suas contas, conferido seus números. Ao comprá-lo, ela, na prática, avalizou o banco. Há alguns anos, o poderoso, mítico e muito eficiente BNDES comprou parte do Laticínio Nilza.

Ao fazer essa compra, o poderoso, mítico, eficiente, etc e tal BNDES, estendeu seu manto de respeitabilidade e coisa e tal sobre o próprio Nilza.

Quando entreguei meu pouco leite para o poderoso Nilza, eu o fiz para o laticínio que tinha como sócio o poderoso, etc, etc, BNDES. Ora, pílulas, vender alguma coisa para um Banco do Brasil, uma CEF, um BNDES é venda garantida, é certeza de retorno, é certeza que teremos o dinheirinho da venda na nossa conta.

Para mim, ser simplório como alguns me chamam, é assim que é. Eu acredito na integridade dessas instituições. Aliás, é claro que toda a operação de salvamento mencionada acima foi feita só para garantir a integridade da CEF, sendo a felicidade ministerial apenas e tão somente mero efeito colateral.

Então, tenho como ponto básico a integridade, a honestidade do BNDES, vale dizer, do governo de Pindorama, que também atende como governo do Brasil. Quando comecei a entregar meu leitinho para o Nilza, o BNDES já era seu sócio, ou seja, desde meu primeiro litro de leite eu fui fornecedor do Nilza/BNDES.

Há poucos dias, esse mesmo MilkPoint noticiou a decretação de falência do Nilza (só do Nilza, para isso não vale o Nilza/BNDES).

No dia seguinte, o MilkPoint transmitiu a informação que a falência em nada afetara o poderoso (não disse que era poderoso?) BNDES. Que, provavelmente, sequer deve ter algum contínuo acompanhando esse processo todo.

Confesso que nesse dia cheguei a começar um texto com toda minha raiva. Mas o trem estava mal-criado demais até para o meu gosto, por isso #DEL#i-o e fui cuidar dos meus piquetes.

Esse final de semana, contudo, a leitura da revista Veja que recebo na casa da minha sogra (não entregam nada aqui no sítio, nem mesmo contas a pagar), trouxe-me toda a maré de felicidade que descrevi no início, lá atrás (pois é, escrevo demais e falo demais) e assim, feliz com tanta felicidade alheia, decidi escrever esse texto pleiteando um pouco de felicidade também para mim.

Não é muita, não, doutor BNDES. É coisinha pouca, a décima parte do que ganha um ascensorista ou garçom na nobilíssima Câmara dos Deputados, bem aí pertinho de sua sede.

Essa coisinha pouca, entretanto, teria transformado meu final de ano e esse embarreado começo de ano. Com essa coisinha pouca teria comprado milho bastante para bater e fazer o fubá necessário para dois meses e meio de consumo aqui no sítio - coisa aí dumas 130 a 140 sacas, mas não aquela grandona de 60 quilos, e sim aquela do comércio de 50 quilos.

Coisa pouca, como disse, como pouca é minha receita e como pouca, quase nada, é a renda que me sobra para viver uma vez vendido o leite (agora, felizmente, para laticínio de respeito e que me paga até pela qualidade do produto que entrego).

Do Nilza e seu miliardário proprietário (ou coisa que o valha, pois não sei se alguém é dono de alguma coisa que faliu) nada espero. Espero, e não é muito, que o BNDES pague meu leite.

Espero que alguém em Brasília faça uma operação de salvamento da honra e da credibilidade do BNDES, ao fim da qual, como mero efeito colateral, eu veja meia dúzia de caraminguás na minha conta bancária. Claro que quando falo em salvar o meu leite isso se aplica a todos os demais fornecedores do Nilza/BNDES como eu.

Até porque, como disse, gosto de ver gente feliz, me deixa feliz também, e ficarei felicíssimo com a nossa felicidade por receber nossos caraminguás devidos pelo Nilza/BNDES.

Nilza/BNDES. Esse é o nome certo, esse é o nome que deve ser sempre cobrado, sempre lembrado.
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Emerson Gonçalves

Emerson Gonçalves

Produtor de leite em Santa Rita do Passa Quatro em tempo integral, principalmente nos finais de semana. Colunista do portal GloboEsporte, autor do Olhar Crônico Esportivo.

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Emerson Gonçalves
EMERSON GONÇALVES

SANTA RITA DO PASSA QUATRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/02/2011

Prezado Antonio Carlos, você tocou em mais um ponto chato e que nos aborrece: a ação dos canais ditos de representação dos produtores. Sou novo na área, tenho pouca vivência prática com esse pessoal, mas, por exemplo, embora eles saibam como cobrar a minha anuidade, jamais foram capazes de enviar-me uma programação dos cursos que realizam. Quando questionei-os, ouvi uma resposta que deixou-me mudo, já que se abrisse a boca iria falar mais do que devia: os cursos eram anunciados na rádio.
Ora, ora, ora, que beleza. Então, tenho que ouvir "a" rádio (pois é uma só) e prestar atenção na locução. E trabalhar? Ouvimos rádio, ou melhor, ligamos o rádio durante as ordenhas, pois meu retireiro gosta e dizem que as vacas também. Tudo que ouvimos, porém, é o barulho da ordenhadeira (balde ao pé, terrível). Mesmo que assim não fosse, teríamos que deixar de prestar atenção às vacas, ao leite, à limpeza, á desifecção, para prestar atenção à rádio.
Pois sim.
E, dessa forma, lá se foi o curso de inseminação que queria fazer.
Quanto ao BNDES: o banco é, na prática, avalista do Nilza, concordo contigo e pretendo até escrever novo texto a respeito. Afinal, eu mesmo, do alto de minha ignorância e estúpida boa fé, disse a um vizinho insatisfeito com o Nilza uns seis meses antes da quebra: "Magina, fulano, o laticínio é bom, o BNDES injetou mais de cem milhões lá"...
Pois é, o bobo aqui acreditou que a presença do Estado no laticínio era garantia de pagamento.
Mas, estou aprendendo.
Abraço.
Emerson Gonçalves
EMERSON GONÇALVES

SANTA RITA DO PASSA QUATRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/02/2011

Prezado José Geraldo, infelizmente está muito distante, ainda, o dia em que Pindorama funcionará como todos gostaríamos que funcionasse.
Vemos constantemente acordos que beneficiam políticos e pessoas dotadas de grande riqueza - evito usar o termo empresário para esses casos - em prejuízo de quem trabalha e não tem voz ativa junto aos donos do poder.
Em parte até por culpa nossa, pois permitimos que aqueles que seriam nossos porta-vozes e defensores, os parlamentares, comportem-se da maneira que melhor lhes agrada, sem considerar de fato as necessidades de seus representados.
Roberto Antonio Pinto de Melo Carvalho
ROBERTO ANTONIO PINTO DE MELO CARVALHO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/02/2011

Emerson, lúcido e atento produtor de leite.
Compartilho da sua indignação, ao assistir a mais um dos infindáveis capítulos de uso do dinheiro público para salvar empresários fracassados.
Também sou produtor de leite, em Cássia, MG.
Volta e meia fico meditando sobre nossa condição: até onde sei, somos os únicos ou raríssimos, produtores que vendemos e entregamos nosso produto muitas vezes sem saber o preço de venda!
Nessa condição, sinto-me um misto de bobo da corte e herói: ora merecedor do riso debochado da indústria oligopsonizada, ora merecedor de estátua na praça central de cada cidade brasileira, homenagem pelo bem que fazemos a todos que precisam do leitinho da cada dia.
Entre um e outro, tento descobrir o que de fato pode ser feito para dar ao leite um status de "produto negociável", como a grande maioria dos demais. E não consigo passar da teoria da "união faz a força".
Quem pode nos ajudar? Por favor ...
PS: já mandou seu artigo para o presidente do BNDES?. Não deixe de fazê-lo!
Abraço.
Roberto
antonio carlos guimaraes costa pinto
ANTONIO CARLOS GUIMARAES COSTA PINTO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/02/2011

Caro Emerson
tambem sou um dos inumeros simplorios que forneceu leite p/ Nilza/BNDES. Como voce, tambem fico pensando que quando o devedor nao paga, o socio arca com o debito, ou o avalista. Por que entao o BNDES nao e obrigado a nos pagar? E mesmo aqui no Pindorama, que como disse um antigo presidente frances, nao e um pai­s serio. Se fosse, esse trambiqueiro do Adhemar ja estaria na cadeia e seus bens confiscados. Onde estao os nossos representantes(CNA,Faemg,sindicatos) que nem se manifestam??????
Obs: na reuniao p/ o pedido de concordata eu nao vi nem um representante . Depois temos que ouvir dos mesmos que temos que procurar pelos nossos sindicatos(so lembram da gente na hora de enviar o boleto de pagamento). So vai melhorar nossa representatividade o dia em que nao for obrigatorio a contribuicao, pois ai­ eles terao que mostrar servico p/ que a gente contribua.
Abracos
José Geraldo Pereira Pinto
JOSÉ GERALDO PEREIRA PINTO

CAXAMBU - MINAS GERAIS

EM 12/02/2011

Parabéns !!!! Sr. Emerson pelo artigo,desabafo e informações que nos prestou.
Torço para que um dia o produtor de alimentos seja devidamente respeitado nesse nosso "Pindorama" e que esse enganadores recebam as punições que merecem.
Abraços,
Pereira
Emerson Gonçalves
EMERSON GONÇALVES

SANTA RITA DO PASSA QUATRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/02/2011

Prezado Marius, acho justo que os funcionários sejam privilegiados no recebimento do que lhes é devido. Afinal, o salário é a única fonte de receita da maioria dos trabalhadores. Mas, pergunto sempre, qual a diferença entre um trabalhador do laticínio e um produtor de leite, que tem nessa atividade sua única fonte de receita e entrega todo seu produto para um laticínio?
O patrimônio?
Como pode o patrimônio pôr comida e medicamentos na boca das vacas e dos produtores de leite e, quando há, seus funcionários?
Nesse caso, pelo menos, não deveria haver discriminação entre o produtor e o trabalhador. O Estado que espere e fique com as sobras, se existirem.
No final, todos nós pagaremos por essa conta, mas, repito, deveríamos ter a mesma prioridade que os trabalhadores do laticínio.
Como você, também espero que um dia sejamos ouvidos e reconhecidos, pelo Estado e pela sociedade.

Abraço.
Emerson Gonçalves
EMERSON GONÇALVES

SANTA RITA DO PASSA QUATRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/02/2011

Prezado Antonio S Sanches, obrigado por sua carta. Os diferentes povos urbanos leem algumas notícias sobre dívidas do crédito rural e dizem que somos privilegiados. Quanto engano! Só quem vive e trabalha com a agricultura e pecuária como nós é que sabe o quanto há de discriminação.
Abraço.
Marius Cornélis Bronkhorst
MARIUS CORNÉLIS BRONKHORST

ARAPOTI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/02/2011

Caro Emerson

Correto a cobrança na carta acima,espero e desejo que receba.

Numa firma falida,são os funcionarios recebem primeiro e depois o Pindorama,

Latecinio falido,recebe primeiro o Pindorama e depois o produtor que sustenta,

O Pindorama.

Mas na emensidão do Pindorama ,o leiteiro não tem vez,muito menos no BNDES,

Pois se fosse voçes ja tinham recebido com juros de mercado e multa por atraso,

não é assim com titulos em atrazo do BNDES.

Um dia o produtor será ovido e reconhecido no Pindorama, mas espero poder compartilhar .

Abraço
Antonio Spagnuolo Sanches
ANTONIO SPAGNUOLO SANCHES

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 10/02/2011

Caro Emerson;

Parabenizo pela consistente explanação da situação ocorrida, que bem ilustra a realidade do trato discricionário que nós produtores rurais, costumeiramente, recebemos.
Abraço.
Qual a sua dúvida hoje?