Sou leite e não sou agro?
Leite praticamente não está representado no movimento Sou Agro. Porque? Veja Espaço Aberto escrito pelo produtor de leite e jornalista Emerson Gonçalves
Publicado em: - 5 minutos de leitura
Gostei, também, da ideia, embora tenha fortes dúvidas a respeito da possibilidade de trazer os resultados pretendidos, que são, basicamente, valorizar o homem do campo, o produtor rural, o produtor dos alimentos e outros produtos vitais à nossa vida, ao nosso conforto. E defender esse profissional dos ataques desmedidos, movidos pela ignorância e preconceitos por um lado, e de outro, a cada dia mais me convenço disso, motivados por tentativas de desacreditar o agronegócio brasileiro, associando-o, por exemplo, ao desrespeito e destruição do ambiente.
Curiosamente, os grandes grupos que estimulam as críticas e promovem ataques aos produtores brasileiros, pouco ou nada fazem em seus próprios e ricos e desenvolvidos países, não para preservar o ambiente, uma vez que muito pouco há a preservar, mas - e por que não? - para recuperar um pouco que seja do muito que foi destruído em seus processos de crescimento, desenvolvimento e enriquecimento.
Fico sempre com a impressão que o negócio é manter o Terceiro Mundo (lembram disso? - caiu de moda, mas existe) como reserva para os dias futuros: reserva de terra, reserva de minerais, reserva de alimentos, reserva de riquezas para consumo futuro.
Curiosamente, sou um defensor do ambiente, às vezes até meio radical. Sou absolutamente contrário ao desmatamento de um metro quadrado que seja do que resta de Mata Atlântica. Também sou contra desmatar um metrinho ao menos de cerrado, cerradinho ou cerradão. É desnecessário. Chega a ser uma estupidez, dado o gigantesco estoque ainda existente de áreas já transformadas em pastagens, principalmente, e lavouras, com baixo aproveitamento. Há quem diga que podemos mais que dobrar, até triplicar ou mais nossa produção atual de soja, milho, trigo, arroz, carne, leite e outras benesses essenciais à vida, sem botar abaixo ou queimar um único hectare de áreas com vegetação nativa, qualquer que seja ela. Aqui no Sítio das Macaúbas, meus parcos 11 hectares dão o sustento a 3 famílias e 20 vacas no leite. É pouco. Preciso chegar a 45 ou 50 vacas no leite, produzindo aqui mesmo o pasto e a cana necessários à manutenção de todas elas, mantendo as mesmas pessoas e até contratando mais um funcionário, mesmo que às custas de um corte na minha renda pessoal futura, tudo isso em pouco menos de 110.000 metros quadrados. Calcorreei e sobrevoei muitos hectares, incontáveis alqueires e alqueirões por todos os sertões brasileiros (exceto, por enquanto, os de Roraima), ocupados ora com magníficas lavouras de soja e milho e algodão, tudo em plantio direto, gerando meia dúzia de empregos na infinidade de alqueires, mas sustentando centenas de famílias nas cidades próximas, com as pessoas trabalhando nas atividades acessórias à moderna agricultura.
É verdade: as grandes lavouras de soja, milho, algodão ocupam pouca gente nas fazendas. Santa verdade!
Porque as máquinas e a mais moderna tecnologia assim permitem.
Em contrapartida, porém, essas mesmas lavouras demandam verdadeiros exércitos de mecânicos, vendedores, técnicos, laboratórios, estruturas e logística para armazenar e transportar milhões de toneladas, etc. Isso os críticos ignorantes não enxergam. Ignorantes no sentido real da palavra: porque ignoram, porque desconhecem. Ou assim querem.
Essas áreas magníficas têm seus solos preservados. Mesmo depois de fortes tempestades, cansei de debruçar-me sobre toscas pontes de madeira sobre rios e riachos do vasto Planalto Central, observando peixes a um metro de profundidade, nadando calmamente. Sem sinal de barro. Porque nessas imensas lavouras pode-se dizer que não há erosão.
Isso é preservar o ambiente, também, o que é ignorado por muita gente boa.
Gostaria de ver mais matas e trechos de cerrados nativos nessas áreas, mas sou realista e aceito a situação atual como fruto de um esforço de crescimento que foi essencial para nossa economia e para atingirmos o patamar em que estamos hoje.
Muito sobre nós, produtores rurais, é ignorado pelos povos das cidades, que só sabem falar bem dos chamados povos das florestas. Nós, os povos das roças, os povos das lavouras, os povos que dão ao país a condição econômica que tem hoje e que mantêm as gôndolas dos mercados abarrotadas de tudo que se queira comer ou beber, somos mal vistos.
Mudar essa visão da sociedade urbana é mesmo necessário e fará bem ao chamado agronegócio e à moral de seus membros.
Como disse lá atrás, bem no início, tenho dúvidas a respeito da eficácia de uma campanha de propaganda para mudar conceitos já entranhados tão profundamente. Sobre isso poderei discorrer em outro momento, não agora.
Uma coisa me incomodou nessa campanha: a cadeia do leite, da qual fazemos parte, tem uma única menção e uma única imagem em todos os filmes e materiais gráficos da campanha. Ela dura três segundos e mostra um queijo sobre uma mesa, logo substituído por um pote de margarina - margarina? - ah, fala sério, vá! - e nada mais.
Puxa vida, e justo o leite e tudo que dele deriva, quem diria. Porque a cadeia do leite é a terceira maior empregadora de mao-de-obra do Brasil. Não só isso: está presente de norte a sul, de leste a oeste. Dos sertões da Paraíba e Pernambuco às florestas de Rondônia, dos banhados de Marajó aos pampas bageenses, passando pelos cerrados goianos, montanhas mineiras e fluminenses, interior paulista, paranaense e catarinense, enfim, cobrindo todo o Brasil.
Diz meu amigo Richard Jacubaszko, em cujo blog postou a respeito, que essa ausência de imagens e citações deve-se, provavelmente, à ausência de entidades do leite no apoio à campanha.
Pode ser, provavelmente seja isso mesmo, embora um dos apoiadores da campanha Sou Agro seja a Nestlé, além do Sindirações e OCB. De qualquer forma, acho uma falha muito grande, com ou sem parceiros leiteiros na jogada, ignorar esse produto, seus derivados e a multidão de brasileiros que trabalham arduamente para que ele faça parte da vida de todos.
Falha das entidades do setor e falha dos responsáveis pela campanha.
Só sei que Sou do Leite e Sou Agro.
Por fim, mas não menos importante, já que falei en passant em representatividade e defesa dos produtores rurais, quero deixar registrado meu lamento e protesto pela postura da senadora Kátia Abreu, a quem sempre respeitei, por aderir a essa maldita mania tupiniquim de mudar de partido como quem muda de camisa ou, em seu caso, de saia.
O país parece mergulhado numa crise de apatia extrema, parece anestesiado ou induzido a um coma profundo, pois nada acontece diante do descalabro que é a escalada da corrupção, dos desmandos, falta de pudor com a coisa pública e, justo nesse momento, a senadora, tão combativa e articulada, muda-se para um partido que nasce (será que nascerá?) sob a égide de assinaturas falsificadas, um programa ridículo que nada diz - "não é de esquerda, de direita ou de centro"... é de quê, então, cara-pálida? - e a quebra de palavra e a consequente doação de 420 milhões de reais de impostos municipais para fazer um "campo de futebol" por parte de seu, aparentemente, principal líder e mentor.
Muito lamentável.
Material escrito por:
Emerson Gonçalves
Produtor de leite em Santa Rita do Passa Quatro em tempo integral, principalmente nos finais de semana. Colunista do portal GloboEsporte, autor do Olhar Crônico Esportivo.
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UNIÃO DA VITÓRIA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 01/08/2011
Igualmente louvável a cadeia produtiva do leite se mobilizar para defender este ouro branco em todos os sentidos.
Detalhe: em meio a uma campanha de mídia maciça levantando o agro brasileiro, estamos vendo todo dia notícias referente a COPA DE 2014.....até aí tudo bem.
Notem, nobre colegas da produção, especialmente de leite, que ao dara as entrevistas de toda a organização que vem sendo feita em referência a Copa, que na mesa de quem tá dando entrevistas não aparece um copo de leite, iogurte, suco de laranja ... nada disso não. Aparece sim, uma embalagem com um líquido preto, um charope de um monte de porcarias que induz nossas crianças a gostar desta porcaria que lá se encontra engarrafada.
Ah, mas fazer o que, a detentora desta "nobre bebida" tem cacife como se diz, e no Brasil o que interessa é isto. Ora, pra que por lá um copo de leite, o produtor que se lixe, ele que escolheu mesmo levantar com sol, chuva, geada ou calor as 05:00 hrs da manhã. Não é?
Olha, em meus comentários tenho questionado muito que temos o que merecemos. Nosso parlamento não poderia ter algum sábio Deputado ou Senador (lá tem gente sábia? ou é só inteligentes que tem lá?) já ter antecipado a idéia de divulgar nossos lácteos por ocasiãop de atividades de grande mídia?

UBERABA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 29/07/2011

ÁGUAS DE CHAPECÓ - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 27/07/2011
Aí sim teria impacto.

SANTO ANTÔNIO DA PLATINA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 27/07/2011
Prezado Emerson ! Apenas complementando seu excelente comentário. Recentemente , em palestra da Embrapa , fiquei sabendo que o único lugar do Brasil onde não se produz leite é Fernando de Noronha.
Um abraço. Walter
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 26/07/2011
Um abraço,
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG

UNAÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 26/07/2011
O GOVERNO TRATA O PEQUENO PRODUTOR DE LEITE DE PRODUTOR DA AGRICULTURA FAMILIAR, será que os pequenos produzem mais grãos do que leite? é claro que não, nossa cooperativa capta uma média de 400.000 litros de leite por dia e tem neste total 75% de pequenos produtores com uma participação no produto de mais ou menos de 42%.
O leite é a atividade econômica que mais distribui renda, melhorando muito a qualidade de vida do homem do campo, então senhores VAMOS BEBER LEITE e vamos LUTAR MAIS PELO LEITE.
Veja que temos sim uma grande parcela de envolvimento na campanha acima, são também nossas contribuições que ajudam a OCB a poder participar destas ações, e olha lá que as cooperativas de leite são a maioria no Brasil.
Fica aqui a minha grande preocupação com todos nós, produtores de leite.
Tarciso Braz da Silva
Diretor Administrativo - CAPUL
Cooperativa Agropecuária Unaí Ltda.

SÃO MIGUEL ARCANJO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 26/07/2011
MARIPÁ - PARANÁ
EM 26/07/2011

GOIÂNIA - GOIÁS - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA
EM 26/07/2011
Sou Méd. Veterinário, hoje Fiscal Federal Agropecuário, aposentado.
No meu período de ativo, trabalhava no LANAGRO, Goiânia. Nessa época, trabalhei mais na área de leite, tanto nas análises oficiais quanto na pesquisa. Nessa última atividade, trabalhei em colaboração com professores da UFG. Fizemos vários trabalhos de pesquisa, todos relacionados com as qualidades do leite. Chegamos a publicar um livro intitulado: "Qualidades do Leite do Centro Oeste Brasileiro."
Sou um defensor incondicional do leite como alimento, dado sua riqueza em princípios nutritivos. Para tanto, basta observar que todos os mamíferos jóvens alimentam -se exclusivamente dele, até certa idade, dependendo da espécie animal.
Acho que nessa campanha "Sou Agro" o leite deveria ter um papel de destaque, não só pela quantidade de empregos que dá, mas principalmente pela sua altíssima qualidade nutritiva.
"Leite,o mais nobre dos alimentos."
Atenciosamente,
Fernando Melgaço.