Seria teoria x a prática ou conhecimentos gerais x específicos?

Constantemente nos esbarramos em pessoas que afirmam veementemente que na prática a coisa é bem diferente. Que o conhecimento científico é relevante, mas o que vale é o que se vê no campo. Recentemente publicamos um artigo onde o título era o seguinte: "na teoria é uma coisa, na prática, é a mesma coisa". Nesse artigo discutimos sobre o que pensamos sobre essa relação de conhecimentos. Resumindo, enxergamos os dois conhecimentos como sendo complementares e partícipes do processo de desenvolvimento tecnológico, sem quem seja possível a sua separação em mais ou menos relevante do ponto de vista de um sistema de produção real.

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Constantemente nos esbarramos em pessoas que afirmam veementemente que na prática a coisa é bem diferente. Que o conhecimento científico é relevante, mas o que vale é o que se vê no campo. Recentemente publicamos um artigo onde o título era o seguinte: "na teoria é uma coisa, na prática, é a mesma coisa" (clique aqui para ler). Nesse artigo discutimos sobre o que pensamos sobre essa relação de conhecimentos. Resumindo, enxergamos os dois conhecimentos como sendo complementares e partícipes do processo de desenvolvimento tecnológico, sem quem seja possível a sua separação em mais ou menos relevante do ponto de vista de um sistema de produção real.

Nos poucos anos de assistência técnica que participamos essa afirmativa era uma constante. Não é difícil também ver pessoas, ou mesmo técnicos, relatarem histórias sobre fatos que desqualificam a ciência diante de fatos visualizados em determinadas ocasiões. Outro dia recebemos um grupo de alunos acompanhados por um produtor que relatou um fato, já bastante conhecido por nós, sobre previsões de chuva e o confronte entre os órgãos responsáveis por esse trabalho e um jumento da orelha quebrada, ou um que fica suando quando vai chover, ou etc, etc e etc. Onde, claro, o jumento acertou e os técnicos tomaram banho de chuva, não previsto por eles. Não quero acirrar as discussões sobre quem estaria certo. Mas não acreditamos que somente nas nossas condições o conhecimento científico e tecnológico não é capaz de gerar evolução.

Na realidade, até parece que técnicos e cientistas são seres de outro mundo, que as suas palavras até são bonitas de serem ouvidas, mas nunca serão capazes de serem praticadas. É um verdadeiro culto ao dito conhecimento prático, criando junto à sociedade um descrédito das instituições de desenvolvimento científico e tecnológico. Para finalizar essa discussão acreditamos que aqueles que defendem somente um ou outro aspecto ou o faz por não conhecer a teoria ou por não ser capaz de aplicá-la.

No nosso entendimento o que realmente existe são os conhecimentos gerais e específicos, onde os específicos muitas vezes não são vistos na academia, mas são observados quando os profissionais se vêem em situação de campo. Ai vai prevalecer o aporte de conhecimentos científicos e a capacidade de processá-los, gerando uma forma de aplicá-los, de maneira mais eficiente, para aquela situação específica. Muitas vezes isso é confundido com o dito conhecimento prático, mas a nosso ver nada mais são que as adaptações do conhecimento geral a uma situação específica. Assim sendo, as decisões de como adaptar o conhecimento geral depende da capacidade do profissional. E aí, também, não vamos tirar o corpo fora.

Grande parte dessas situações é fruto da pouca preparação de alguns profissionais para realizar práticas específicas, onde muitas vezes esses profissionais não detêm conhecimentos técnico-científico suficientes, por vários motivos, ou por não possuir essa capacidade de adaptá-los. E aí separemos bem as adaptações das velhas "gambiarras": as adaptações são realizadas baseadas em conhecimentos técnico-científicos, já as gambiarras são fruto da imaginação fértil dos desconhecedores da ciência ou da incapacidade de alguns técnicos. Mas nunca adaptar, deixando de se realizar uma recomendação técnica, como análise de solo, levantamento topográfico, etc,, tendo como justificativa, uma dita experiência.

Existem, então, profissionais preparados para determinados trabalhos. E esses profissionais deverão ser buscados, pois são eles possuidores de conhecimentos gerais e específicos que lhes credenciam a realizar aquele projeto específico. Caso o projeto se altere, poderá ser necessário ou não outro profissional, dependendo da necessidade do projeto, pois dificilmente um profissional vai estar preparado para todos os tipos de projetos. E em muitos casos, será necessário um corpo técnico, multidisciplinar. Aí entraremos na discussão, que nos instigou a escrever esse texto: a de que existem profissionais preparados para realizar determinados projetos.

Tomemos então exemplos, para melhor visualizar. Um sistema bastante utilizado nas nossas condições tem sido o de produção em pastagens irrigadas. Nesses sistemas têm sido identificados grandes entraves, desde os relacionados ao tipo de animal adequado a esses modelos, passando pela escolha da forrageira, até os manejos do pasto, do pastejo e da irrigação. Isso para não falar nas análises econômicas, quase nunca realizadas.

O sistema de irrigação é um dos pontos que vem estrangulando muitos sistemas, seja pelo manejo inadequado, desconhecimento da demanda hídrica da cultura utilizada, qualidade da água utilizada ou da espécie mais adequada àquele sistema. Visualiza-se no desconhecimento de práticas específicas, e em alguns casos o descuido técnico, como sendo responsáveis por grande parte dos insucessos.

O tipo de sistema de irrigação mais utilizado tem sido o de irrigação por aspersão. Nesses sistemas existem premissas que não vem sendo observadas, como adequação do aspersor a VBI do solo, horário de funcionamento da irrigação adequado (presença de ventos) e eficiência de aplicação mínima, que vem alterando a quantidade de água a ser aplicada bem como a sua forma de aplicação, ocasionando déficits e excessos, verificados no espaço e no tempo, diminuindo os níveis de produtividade do sistema.

Outro ponto bastante relevante é o relacionado ao manejo do pasto. Em sistemas de produção baseados em pastagens, como são os citados nesse artigo, o manejo da pastagem deveria ser levado em consideração, haja vista ser o pasto a fonte de alimento, representando o maior custo. A pastagem, apesar de ser a base da alimentação desses sistemas, não vem sendo foco de maiores atenções, ficando relegado a segundo plano dentro das práticas de gestão.

Nesse sentido, as baixas taxas de lotação, o mau uso da forragem (baixa eficiência de utilização), a irrigação ineficiente, dentre outras, vem determinando o baixo desempenho dos sistemas de produção locais. Esse comportamento pode ser fruto do baixo nível de conhecimento específico dessas práticas por parte dos técnicos envolvidos na gestão desses sistemas.

Por fim, não pelo esgotamento do assunto, acredita-se que a busca pelo conhecimento, tanto geral (ciência - início) como os específicos (tecnológico - aplicações), deveria ser o ponto de partida de qualquer ser humano que vê na informação uma possibilidade, uma oportunidade de desenvolvimento da pessoal, do seu negócio ou da sociedade como um todo.
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Rodrigo Gregório da Silva

Rodrigo Gregório da Silva

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Richard James Walter Robertson
RICHARD JAMES WALTER ROBERTSON

RIO VERDE DE MATO GROSSO - MATO GROSSO DO SUL

EM 08/01/2008

Prezado Rodrigo,

Excelente artigo.

Parabéns pela abordagem deste tema. Uma velha mania dos desinformados é colocar a prática antes da teoria. Alimentando seu orgulho próprio e tradicionalismos, os adeptos da "prática pura", colocam anos e anos de pesquisa séria na gaveta, obstruindo o progresso de nossa tão rica cadeia do agronegócio.

Um assunto que me interessa é a dificuldade que nós técnicos enfrentamos para convencer certos produtores de absorver "novas" tecnologias e quebrar antigos paradigmas e crenças. Muitas vezes a boa comunicação é mais importante que a tecnologia em si.

Como produtor rural, conheço minhas limitações técnicas e não discuto com aqueles que possuem mais experiência que eu em determinadas áreas.

Produtores bem sucedidos, ao meu ver, se informam mas estão sempre em boa sintonia com os técnicos, uma vez que são estes os que detém as ferramentas teóricas, em conjunto com a prática. É um grande contrasenso pensar que nós consultures não dominamos a prática, uma vez que é através dela que descobrimos as verdadeiras demandas do campo.

Também é a prática que nos torna habilitados a nos comunicarmos com os produtores, mostrando a eles as APLICAÇÕES PRÁTICAS DA TEORIA.

Minha experiência no EDUCAMPO me ensinou que, mais importante que a eficiência técnica é a eficiência ECONÔMICA. Sejamos todos mais humildes, no sentido de "desembaraçar" estas sólidas barreiras de comunicação entre técnicos e produtores.

Richard J.W. Robertson
Médico Veterinário e produtor rural
Cleber Medeiros Barreto
CLEBER MEDEIROS BARRETO

UMIRIM - CEARÁ

EM 07/01/2008

Caro Rodrigo,

Penso que tenhas escrito esse artigo como forma de um grande desabafo. Sabemos o quanto nos custa viver sob tamanha ignorância. Pena que muitos não têm tempo (sensibilidade) para temas aparentemente desinteressantes, porém, altamente relacionados com todos os elos de uma notória capenga Cadeia Produtiva.

Acho que tem muita gente nas academias, (salvo raras exceções) com preguiça de Pensar de verdade, o que alimenta um verdadeiro círculo vicioso. Prova disso é quando vemos uma total ausência de mestres e doutores em fóruns como esses disponibilizados pelo MilkPoint.

Daí, é que vemos um pífio aproveitamente das tecnologias geradas, sendo muitas vezes recomendadas e aplicadas de formas medíocres.

Desejo sucesso em teu doutorado, sabendo que em breve teremos uma Tese de verdade.

Parabéns e um grande abraço.
Cleber Medeiros Barreto
Paulo César de Camargo
PAULO CÉSAR DE CAMARGO

CURITIBA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 06/01/2008

Prezado prof. Rogério Gregório da Silva,

Gostaria de compartilhar com sua visão e bons serviços que sua visão poderá prestar para nossa sociedade.
O exemplo da previsão do tempo com base em características como: orelhas de jumento, tripa de mico, juntas que doem, etc.. normalmente considera somente os acertos e desconsidera as falhas de previsão.

Curiosamente nossa tendência é lembrarmos dos acertos das crendices e dos erros da ciência. Isto é natural do ser humano, pois o pressuposto é que a ciência deveria acertar sempre e as crenças não tem esta obrigação.

No entanto, tanto a agricultura e a agropecuária, quanto a saúde humana, dependem cada vez mais de métodos de análise consistentes e que utilizem as informações de forma sistemática.

As teoria existem para permitir a sistematização e o uso prático das informações. Quando a teoria não funciona em certas circunstâncias é um problema da limitação de quem as aplica, como você bem aponta em seu artigo.

Como coordenador do projeto da Rede de Inovação e Prospecção Tecnológica para o Agronegócio na Região Sul - RIPASUL/SETI-Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (www.ripasul.com.br), que é parte do projeto RIPA/FINEP (www.ripa.com.br), gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa de contribuir para a competitividade de nosso país chamando a atenção para aspectos tão fundamentais quanto este da valorização do conhecimento.

A complexidade da sociedade atual leva a grande risco manipulação por interesses obscuros, e que se fundamentam na desqualificação do conhecimento e da análise crítica, valorizando falácias construídas com frases de efeito.

Quem sabe a mais célebre destas frases seja aquela que serviu para invasão do Iraque, com a afirmação que aquele pais dispunha de armas de destruição em massa.

Precisamos sim valorizar o conhecimento popular, mas esta valorização precisa incluir um esforço de sistematização que considere tanto os acertos quanto os êrros e utilize métodos de análise de consistência.

Paulo César de Camargo
Coordenador RIPASUL
41-3281-7426
Moacyr Fiorillo Bogado
MOACYR FIORILLO BOGADO

NITERÓI - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/01/2008

Se pudesse sugerir o tí­tulo para um artigo que não escrevi, seria a máxima popular que assevera: "Quem sabe faz, quem não sabe ensina". Concordo com autor, que a divergência entre a prática e a teoria, advém das baboseiras que se travestem de teorias.

É a repetição de determinada teoria aplicada com sucesso que permite ao técnico recomendá-la com segurança - desde que aplicada pelo próprio -, senão o técnico fica naquela tão conhecida situação, de prescrever a ótima teoria consagrada pelo "Globo Rural" (e tanto faz substituir o Globo Rural pelo MilkPoint, ou pela óltima tese defendida em Lavras ou na ESALQ).

Recomendação ao produtor diante do próximo técnico que vier salvá-lo: Dr, isso que o Sr. está me recomendando o Sr. já fez aonde?

Professor, já que segundo o Sr. sua passagem pelo campo não durou muito, prova de sua capacidade, o que demonstra seu brilhante currí­culo, continue estudando, não perca tempo no campo, senão o Sr. acaba virando peão como eu.

Parabéns pelo artigo, um abraço.
Moacyr Bogado.
Paulo Roberto Leal Coelho
PAULO ROBERTO LEAL COELHO

RIO DE JANEIRO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 04/01/2008

Caro Rodrigo...saudações e um Feliz 2008 para você e família.

Acabo de ler seu artigo e achei-o formidável. São irretocáveis as considerações que vocêc faz.

Também milito no campo há muito tempo (atualmente sou Supervisor de Vendas de uma fábrica de Sal Mineral - Salminas - JF-MG) e vejo exatamente as questões colocadas.

Percebo por parte de produtores (não todos, é claro), usando a "máxima" que na prática a teoria é outra (enquanto que o correto é: com a teoria (embasamento...) a prática é outra) uma boa desculpa para deturpar processos e procedimentos que já estão mais do que comprovados. EX: correção/adubação de solo, mineralização do rebanho, contrôle de parasitas, "anotações".., etc.).

Fazem errado, achando que se pode usar "meia tecnologia", usar a desculpa dos preços, que não temos mão de obra preparada, etc..

Com isto corrompem os processos, jogam fora anos de conhecimento e pesquisa, subtraem resultados das suas atividades (desanimam os técnicos) e depois, ...buscam culpados pelo baixo rendimento: o culpado de tudo é o produto, o técnico, o empregado, o governo, etc... . Sabemos que quanto maior o nível de CONHECIMENTO que se joga numa atividade, maiores as chances de resultado e aprendizado.

Penso que se a gente colocasse 70-80% do que já sabemos nas nossas atividades, sem dúvida os custos e os resultados, seriam outros.

Pra se ter uma idéia, apenas 30-40% dos pecuaristas usam Sal Mineral e destes, 50% o fazem de forma errada. Faça um pararelo com relação a vermifugação dos rebanhos, vacinações, controles reprodutivos, planejamento de alimentação...

Poderìamos ter um rebanho menor, mais produtivo e com menor custo operacional (e agora, também, ambiental).

Novamente, parabéns e obrigado pela abordagem e conhecimento que nos passou.

Paulo Roberto Coelho
Med Vet - Salminas - JF
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