No gráfico 1, vemos a receita menos o custo operacional por tamanho de fazenda nos EUA, entre 2005 e 2014.
Gráfico 1 – Receita menos Custo Operacional por quantidade de vacas na fazenda – EUA 2005 - 2014
Fonte: USDA; deflacionado pelo CPI (Consumer Price Index)
Observa-se que, entre 2005 e 2014, exceto em alguns casos específicos como em 2009 e 2013, todos os módulos de produção, dos menores aos maiores, conseguiram pagar seus custos operacionais (com rentabilidade menor nas pequenas propriedades mas, ainda assim, positiva em grande parte do período analisado!).
Porém, se analisarmos os custos totais, que levam em conta também o custo de capital das máquinas, o custo de oportunidade do trabalho, os gastos com mão-de-obra, custos da terra e outros itens, temos um panorama bem diferente, como pode ser visto no gráfico 2.
Gráfico 2 – Receita menos Custo Total por quantidade de vacas na fazenda – EUA 2005 - 2014
Fonte: USDA; deflacionado pelo CPI (Consumer Price Index)
A influência dos custos de oportunidade na pecuária leiteira é nítida: enquanto a maioria dos módulos de produção conseguiu pagar os custos operacionais com “sobras”, ao se analisar os custos totais, a situação muda completamente: as fazendas com mais de 1.000 vacas apresentam resultado positivo em 9 dos 10 anos analisados (com o único ano negativo, 2009, sendo o ano de maior impacto da crise econômica dos EUA, portanto um dado a ser “relativizado”; 2006, apesar do resultado praticamente zero, não ocorreu em prejuízo).
Já nos outros módulos de produção, a situação foi completamente diferente: nas fazendas com 500 a 999 vacas, houve resultado (muito pouco) positivo em 5 dos 10 anos, enquanto nas fazendas com menos de 500 vacas, apenas em 2007, nas fazendas entre 200-499 vacas, os custos totais foram pagos. De resto, em todos os outros módulos de produção entre 2005-2014, as menores fazendas não conseguiram pagar seus custos totais.
O principal fator que causa essa discrepância de resultados entre as grandes e pequenas fazendas é o custo de oportunidade do trabalho. O gráfico 3 abaixo mostra um pouco dessa situação:
Gráfico 3 – % Custo de oportunidade do trabalho em relação à receita total
Fonte: USDA; deflacionado pelo CPI (Consumer Price Index)
Pelo gráfico, é nítida a influência do custo de oportunidade do trabalho nas fazendas com até 50 vacas: na maioria dos anos, tal custo representa 50% ou mais da receita total da fazenda. Mas, se observarmos, até mesmo nas fazendas entre 100-199 esse é um item relevante: em todos os anos da série, tal custo representou mais de 13% da receita em tais fazendas.
Isso ocorre pois as menores fazendas são mais dependentes de mão-de-obra familiar, sendo esse um custo “oculto”, apesar de não afetar o “caixa” da fazenda, no médio/longo prazo é um item importante: caso a remuneração do empreendimento seja menor do que outras oportunidades no mercado de trabalho, o proprietário tende a deixar a atividade.
Os dados apresentados até aqui nos auxiliam a entender o gráfico abaixo.
Gráfico 4 - EUA - Custos de produção(¹), preço do leite ao produtor e variação da produção(²)
(1) Custo Total = Custos operacionais + Custos “alocados”.
Como custos operacionais o USDA lista as seguintes contas: todos os itens ligados a alimentação + medicamentos e vacinas + combustíveis, lubrificantes e eletricidade + serviços contratados + manutenções + pagamento de juros sobre capital operacional + outros itens de desembolso mensal.
Custos “alocados” = depreciações + mão-de-obra familiar + mão-de-obra contratada + despesas administrativas + taxas e seguros + arrendamento de terra
(2) Produção do mês corrente/produção do mesmo mês no ano anterior (%)
Fonte: Elaboração de MilkPoint Inteligência, a partir de dados do USDA
Pelo gráfico, observa-se que o preço pago pelo leite entre 2010 e 2015 foi, em quase todo o tempo, insuficiente, para pagar o custo total de produção. Mas, quando analisamos a relação entre preço do leite e custos operacionais, vemos que a produção leiteira conseguiu pagar pelo menos os custos operacionais em quase toda a série, o que corrobora o que foi dito acima no artigo: no curto prazo, o empreendimento consegue pagar as despesas “de caixa”, mas os custos de oportunidade fazem com que as fazendas de menor escala abandonem a atividade.
Outro ponto interessante é que o dado “médio” de custo de produção total pode nos levar a conclusões erradas: uma atividade que não consegue pagar seus custos totais tende a diminuir. No entanto, as maiores fazendas vem obtendo resultados expressivamente superiores às demais. Por exemplo, entre 2011 e 2012, a produção dos EUA cresceu 1,85 bilhão de litros. Deste crescimento, cerca de 1,2 bilhão de litros foram de fazendas com mais de 1.000 vacas, o que corresponde a 65% do aumento do mercado. No entanto, havia apenas 1.730 fazendas com mais de 1.000 vacas em 2012, ou seja, 3% das fazendas foram responsáveis por 65% do crescimento da produção dos EUA.
Para deixar uma reflexão, você conhece algum outro país com elevado número de produtores de leite, no qual grande parte das propriedades não cobre os custos totais e que a participação dos grandes produtores vem aumentando significativamente?
Para te ajudar na reflexão, confira este artigo: “Quem produz o leite brasileiro hoje?”
