Wie achter de kudde aanloopt, sjouwt altijd door de stront. ( ditado Holândes )
Quem anda atrás do rebanho, o tempo todo se arrasta no esterco. ( tradução )
Continuando as considerações sobre os fatores básicos de produção, mais que considerar cada um de forma individual, é a combinação dos mesmos de acordo com as realidades de cada propriedade, em cada parte distinta do país, é que vai permitir evolução, crescimento e, finalmente, sucessão da empresa rural.
A mais brilhante aula sobre o uso consciente dos recursos em pecuária leiteira que assisti foi em uma palestra na qual um produtor atendido pelo Projeto Balde Cheio (a mais importante e brilhante iniciativa governamental na área de produção leiteira do Brasil) de nome Nemoenio Barbosa - mais conhecido como Zé Moreno em sua cidade no interior de Alagoas - relata suas incertezas, escolhas e seu exemplo de sucesso de forma simples, porém abordando sem saber análise de riscos, espiríto de aventura com sustentação pela forte base tecnológica do projeto, liderança, organização de recursos (novamente, parabéns ao André Novo, ao Arthur Chinelato e ao Sidney Bezerra ), ou seja tudo que se espera de um produtor Líder e eficiente.
Há certa confusão intencional ou não quando tentamos abordar o enlaçamento dos recursos de produção, porém a análise da atividade de forma simples e objetiva deve sempre considerar duas questões básicas. A primeira e, mais importante, é como minimizar a minha maior ineficiência, o que nos leva diretamente à segunda questão, que é como maximizar a minha maior eficiência. Falando desta forma, parece ser uma abordagem superficial e simplista, porém na verdade é apenas simples e objetiva.
Vamos tentar aprofundar um pouco a análise colocando alguns casos reais para entendimento.
A – Propriedade de 500 Hectares no sudoeste do estado de Goiás, em região de alta aptidão agrícola, com custo por hectare ao redor de R$ 35.000,00, com grande competitividade entre Cana de Açúcar, Soja e Leite. Disponibilidade de recursos financeiros próprios, financiamento bancário extremamente limitado e escassez de mão de obra treinada e disponível, pela atratividade do setor industrial e urbano.
B – Propriedade de 36 Hectares nos Campos Gerais do Paraná, em região de alta aptidão agrícola, com custo por hectare ao redor de R$ 45.000,00, com grande competitividade entre Soja e Leite. Disponibilidade de recursos financeiros próprios e financiamentos bancários adequados, e relativa disponibilidade de mão de obra treinada.
C – Propriedade de 1.500 hectares no extremo sul da campanha gaúcha, em região de atividade agrícola limitada, com custo por hectare ao redor de R$ 15.000,00, competitividade entre pecuária de corte extensiva, Arroz e Leite. Grande disponibilidade de recursos financeiros próprios e bancários e enorme escassez de mão de obra treinada e disponível.
D – Propriedade de 150 Hectares em região montanhosa do Sul de Minas Gerais, em região de atividade agrícola extremamente limitada pela topografia, com custo por hectare de R$ 20.000,00. Competitividade entre Café, Eucalipto e Leite. Disponibilidade de recursos financeiros próprios e bancários muito limitados e disponibilidade de mão de obra treinada.
Os quatro cenários de propriedades e produtores reais possuem vantagens competitivas e gargalos de produção que os levam a buscar formas extremamente diversas de atuar na atividade pela composição dos fatores básicos de produção. Sendo assim, como optar por um sistema fortemente baseado em produção agrícola verticalizada com animais totalmente confinados em uma região com solo costeiro, com atividade agrícola limitada e com grande escassez de mão de obra treinada como a propriedade C. Ou como optar por um sistema extensivo com baixa produtividade por hectare se considerarmos a propriedade A, alojada em uma região em franca verticalização da agroindústria de carnes e grande demanda de grãos. Como propor mudanças profundas e de curto prazo em um cenário como o da propriedade D. Estas supostas afirmações não podem ser contestadas? São, como dizemos, verdades absolutas? E eu acredito que não há nada mais sem sentido, que crer em verdades absolutas. Não seria possível intensificar a produção da propriedade C com uso de Azevém anual e Aveia para corte no inverno e plantio de Sorgo no Verão? Utilizar mão de obra feminina ociosa para trabalhos de ordenha e recria para suprir a carência de mão de obra? Seria possível dispor de um número limitado de matrizes ou novilhas para venda e acelerar o descarte de animais improdutivos para realizar investimentos imprescindíveis na propriedade D? Em uma realidade de intensa competição agrícola como da propriedade A, porém com imensa restrição de crédito e dificuldade de mão de obra, será que a exploração leiteira em moldes extensivos não inviabilizará o negócio? Não será melhor ser produtor de forragens para os vizinhos? Não poderia ter buscado um modelo mais intensivo de produção que aproveitasse a grande disponibilidade de grãos e talvez de subprodutos regionais?
Esta diversidade de cenários existentes dentro da atividade, e não um modo brasileiro único de produzir Leite, é o que me leva a crer que, de certa forma, é o que vai nos fortalecer como competidores. Ao trabalharmos com diversos cenários característicos da nossa diversidade de clima, solo e colonização étnica, podemos de certa forma ser mais competitivos que países com sistemas quase estandartizados de produção, já que o que importa no final é quanto sobra por unidade de produção, quer seja lucro líquido por vaca ou lucro líquido por hectare.
Fonte: Interleite Sul 2013 - Palestra de Mark Stephenson
Um exemplo deste uso extremamente eficiente dos recursos disponíveis é o da propriedade B, onde o produtor é consciente que seu maior gargalo era o da disponibilidade de área agrícola e, consequentemente, de recursos para exploração de sua própria área, pois como alocar recursos para compra de Trator, plantadeiras, pulverizadores, etc, em uma área de apenas 36 hectares? Consciente que o capital necessário para explorar sua área seria extremamente elevado, o mesmo arrendou 28 hectares de sua área para o vizinho, com o compromisso do mesmo fornecer Silagem de Milho e Pré secado de azevém suficientes para um rebanho de 180 animais adultos. O valor pago pelas forragens é o valor de mercado da região, que é em geral o custo total de produção acrescido de 30% de Lucro, sendo descontado do valor total os custos de arrendamento. De quebra, terceirizou a sua recria, pois apesar do aumento moderado de custos, poderia alojar mais animais em produção o que lhe garante maior faturamento. Como o número de animais é restrito, a opção foi de trabalhar com rebanho HPB registrado, controlado e de alto potencial genético. Todos os animais estão alojados em confinamento, sendo Free stall para os animais em produção e Bedded Pen para as vacas em transição. Todo o rebanho em produção é ordenhado 3 vezes ao dia. Explorando apenas animais em produção e animais em transição, pode manter 145 a 150 vacas em produção ao longo do ano, o que lhe garante uma média de 5.500 a 6.100 litros por dia entregues no laticínio. A mão de obra envolvida na atividade é a do próprio produtor e mais 5 funcionários.
O resultado do ano de 2012 foi o seguinte:
Área total - 36 Hectares
Área Exploração Leiteira - 28 Hectares
Produção Anual – 2.150.000 litros
Preço Médio 12 meses – R$ 0,9143
Eq. Leite Comercialização – R$ 0,075
Preço Médio Total – R$ 0,9893
Faturamento Bruto – R$ 2.126.995,00
Custo Total (Inc RSC) – R$ 1.547.522,33
Lucro Líquido – R$ 579.472,67
Rentabilidade Líquida – 27,24 %
Capacidade de Reinvestimento – 2,13 anos para comprar um hectare
Mais do que exaltar o exemplo, o objetivo é de mostrar que é possível, mesmo frente às adversidades, buscar alternativas viáveis e extemamente eficientes de produção. O que acontece é que, em geral, o caminho da eficiência é muitas vezes um caminho que apesar do produtor trilhar de certa forma sozinho, já que o risco e os desafios são enfrentamentos pessoais, necessita de um bom suporte tecnológico, de muito conhecimento técnico agregado, e muitas e longas horas de conversa e planejamento (lembre-se que papel, caneta e café com leite são os menores custos de um projeto, mesmo quando adicionamos pão de queijo ao custo).
Dentro dessa necessária assessoria e não consultoria, pois de certa forma entendo que apesar do produtor SEMPRE estar no comando, a presença do técnico ao seu lado como co-piloto como vemos no trabalho conjunto em um rally, ajuda a identificar antecipadamente os perigos do caminho. Para que esta assessoria seja eficiente e produtiva, acredito ser importante que a mesma seja presencial, constante e comprometida com o dia a dia da atividade.
Apesar de ser bastante comum o uso da palavra consultor, entendo que na maioria das vezes a atividade a ser executada é realmente a da assessoria. Já a consultoria, de certa forma, é uma atividade pontual, específica, com objetivos e metas que devem ser claros e com tempo de execução pré estabelecidos. Como costumo dizer, o assessor vê e participa junto com o produtor do filme, já o consultor vê e analisa a foto do momento e procura situá-la no roteiro proposto do filme.
Para que a assistência técnica atenda plenamente às necessidades e anseios do produtor é importante a construção do segundo triângulo que deve suportar a atividade.
Acredito que é a soma de conhecimentos técnicos e habilidades específicas de cada profissão que podem efetivamente ajudar o produtor em sua jornada, pois de que adianta o melhor veterinário para a reprodução, se não faço forragens adequadas? Como balancear dietas eficientes e funcionais se o meu manejo agronômico é deficiente? De que adianta implantar um excepcional pastejo rotacionado, se meu rebanho é HPB com vacas de 700 Kg?
Essa busca pela assistência integrada teve dois polos de desenvolvimento muito importantes no Brasil. Um de grande impacto regional foi o do DAT da Cooperativa Central de Laticínios do Paraná, com início por volta da metade da década de 80, com atuação da assistência técnica veterinária tradicional, integrada à assistência agronômica e zootécnica em todos os produtores do ABC (Arapoti, Batavo e Castrolanda), que acabou por influenciar todas as cooperativas singulares vizinhas criando o atual cluster que é o dos Campos Gerais do Paraná. O segundo e muito importante como fator de desenvolvimento para vários técnicos foi o da Diagnose, empresa criada pelo Prof Paulo Machado, com a participação de profissionais muito influentes no mercado, que aplicou este conceito de atuação integrada nas propriedades atendidas no estado de SP e no norte do estado do PR lá no início da década de 90.
Esta geração de tecnologias multidisciplinares, somadas à predisposição dos produtores da região dos Campos Gerais do Paraná em abraçar o novo e perseguir a eficiência, é o que torna a região tão diferenciada e exemplo de sucesso para outros produtores no Brasil e nos países vizinhos. Mais que o sistema adotado, o que caractetizou e caracteriza os produtores é uma intensa e permanente busca pela eficiência, que de certa forma determinou o aparecimento de uma assistência técnica altamente especializada e integrada para dar respostas e buscar novos caminhos para os anseios dos produtores.
Ao abordarmos uma propriedade como a B como exemplo pontual, estamos dizendo que a intensificação levada ao máximo é o caminho? Claro que não, já que o objetivo não é o de apregoar o sistema que deva ser usado. É o uso consciente e eficiente dos recursos disponíveis que deve permanecer como foco, é a vontade do produtor alicercada em um trabalho participativo e responsável de assistência técnica. Pois assim, como o Cristiano busca o máximo dentro das suas possibilidades, o Zé Moreno lá em Alagoas tambem busca o mesmo objetivo, com animais diversos, clima diverso, com uso de palma forrageira, silagem de milho como complemento, e em uma área ainda menor de terra. Mais que a distância a separá-los, existe um enorme elo comum que os une, que é o da busca da eficiência.