A maioria dos produtores de leite catarinenses emigrou do Rio Grande do Sul. Esta relação é tão forte que praticamente todos torcem para algum time gaúcho, especialmente Grêmio ou Internacional. Por isso a cultura alemã e italiana também é muito presente na região, especialmente no Oeste, onde se concentram mais de dois terços da produção de leite do estado (74%).
O volume de leite na mesoregião Oeste catarinense é excepcional. Em 2012 ela atingiu 6,2% do leite produzido no Brasil, inferior apenas às mesoregiões Noroeste do Rio Grande do Sul e Triângulo Mineiro / Alto Paranaíba em Minas Gerais. Podemos inferir que se trata da mais elevada densidade de produção de leite no Brasil, expressa em litros por km2 ou litros por km rodado na coleta.
O mapa abaixo, mostra a distribuição do leite no estado.
Fonte: IBGE, adaptado por Clímaco, R.
A dedicação da família ao trabalho é muito grande. A mulher trabalha duramente na lida diária do leite: ela faz ordenha, alimenta as vacas, limpa o curral e trata dos bezerros.
As propriedades são pequenas. Da produção de leite em Santa Catarina, 12% se dá em propriedades com área até 10 ha; 33% em estabelecimentos com área de 10 a 20 ha; 40% em estabelecimentos com área de 20 a 50 ha e 15% em propriedades maior de 50 ha, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2006.
A vocação leiteira do estado é muita evidente. A estrutura fundiária com propriedades tipicamente familiares associada a uma topografia acidentada menos apropriada à produção de grãos favorece muito a exploração da atividade.
Em 2012 a produção de leite foi de 2,7 bilhões de litros, segundo dados a Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE, o que garantiu a Santa Catarina a quinta posição no ranking dos estados. No período 2008-2012, o aumento médio da produção brasileira de leite foi de 17%, enquanto o crescimento da produção catarinense foi de 28%, o segundo mais alto do país, atrás apenas do Paraná, que cresceu 40% nesse período.
A produção é bastante sazonal. Ela é mais baixa entre março e junho. Nesta época o pasto de verão fica escasso e se inicia o plantio das forrageiras de inverno. A partir da segunda quinzena de junho as vacas já entram nos pastos de aveia. O azevém sucede a aveia e permite uma extensão da safra até setembro/outubro. A curva de produção apresenta um antagonismo à da região Sudeste do Brasil. Isto confere uma vantagem competitiva a Santa Catarina, viabilizando a exportação de leite do estado. O gráfico abaixo elaborado com base na média mensal de leite recebido pelas indústrias de 2007 a 2012, apurado pela Pesquisa Trimestral de Leite do IBGE, dá uma boa ideia como a produção se comporta ao longo do ano.
Gráfico 1. Volume médio mensal recebido pelas indústrias de S. Catarina - 2007 a 2012 (x1.000litros)
A raça predominante é a holandesa, mas a presença da raça Jersey nos rebanhos de Santa Catarina é muito relevante. É por esta razão que os sólidos do leite no estado são muito elevados quando comparados com outras regiões do país.
A produtividade da vaca catarinense é a mais elevada do país, ao lado do Rio Grande do Sul. Ela passa de 2.500 litros, quase o dobro da produtividade média brasileira de 1340 litros por vaca ano.
A prática da Inseminação artificial é comum na grande maioria dos rebanhos.
Os animais se alimentam de pasto no verão com forrageiras tropicais e com forrageiras temperadas, especialmente aveia e azevém, no inverno. Nos períodos de pouco pasto a suplementação convencional é a silagem de milho. O concentrado suplementa as forragens. Um melhor manejo da alimentação, com arraçoamento técnico dos rebanhos, pode implicar em ganhos econômicos importantes para os produtores, com a redução nos custos de produção.
O estado é livre de febre aftosa sem vacinação. A brucelose também está bem controlada. Um controle muito rigoroso é realizado pelo estado em suas fronteiras através das barreiras sanitárias. Trata-se de um belo exemplo para o país.
A qualidade microbiológica do leite deixa a desejar. A Contagem Bacteriana Total (CBT) é elevada. Isto se explica em função do modelo de resfriamento que ainda precisa ser melhorado. Ainda se utiliza equipamentos pouco eficazes na refrigeração do leite nas fazendas, como os resfriadores de imersão em água gelada. Os processos de limpeza e higienização dos equipamentos, em geral, precisam ser melhorados quanto à qualidade e temperatura da água, produtos químicos e os próprios métodos. A Contagem de Células Somáticas (CCS) precisa ser trabalhada. As ordenhadeiras, presentes em praticamente todos os rebanhos, às vezes muito simples, sem manutenção preventiva e corretiva, e, muitas vezes, insuficientemente higienizadas, predispõem à incidência de mastites subclínicas.
Um problema bastante frequente no Sul do Brasil como um todo, no período do outono, é a ocorrência do leite instável não ácido (LINA), associado à presença de cloretos e alcalinidade. Isso acontece, principalmente, quando a forrageira de verão fica escassa e os produtores estão preparando para o plantio das forrageiras de inverno.
O produtor de Santa Catarina responde bem aos programas de assistência técnica e extensão rural. Ela é realizada pelos órgãos públicos e pelas cooperativas e indústrias privadas. O programa “Balde Cheio” da Embrapa Pecuária Sudeste é uma boa semente plantada no estado e que se consolida com sucesso entre os pequenos produtores.
Para aumentar a produção no Estado, a Secretaria de Agricultura lançou em 2013 o programa “Um Milhão de Litros de Leite”, envolvendo produtores de 32 municípios do Sul do Estado. O programa tem como objetivo melhorar a pastagem e dobrar a produção atual de 500 mil litros por dia para 1 milhão na região no período de cinco anos.
Programas de capacitação dos produtores como o Leite Legal do SENAR e SEBRAE já têm sido realizados, mas precisam ser implementados ainda com mais vigor.
A cultura estabelecida de uma forte relação do produtor com o transportador de leite na região, também comum nos demais estados do Sul do país, deixa a indústria refém do produtor. O transportador recebe por litro de leite transportado e raramente por km rodado. A virada de uma rota inteira de um estabelecimento industrial acontece muitas vezes. Esta realidade também prejudica a obtenção de leite de boa qualidade pelas indústrias.
Uma exceção no estado de Santa Catarina é a inexistência de reboques (Julietas) no transporte do leite. Diferentemente dos demais estados do país e até do mundo desenvolvido do leite, em Santa Catarina, não é permitido sua utilização. Esta forma de otimização do frete permitindo aumentar o volume de leite transportado por km rodado, através da utilização do reboque (Romeu e Julieta), proporciona ganhos logísticos importantes e, consequentemente, dá mais competitividade a cadeia do leite.
Grande parte da produção de leite de Santa Catarina é industrializada no próprio estado e comercializada internamente e em outros estados, principalmente na forma de leite UHT e queijos. A produção de leite em pó ainda é modesta, realizada apenas por uma Cooperativa e uma indústria privada. A venda de leite spot é pequena. Ela é praticada para os estados do PR, SP e até MG.
Podemos tirar boas lições para o país do setor leiteiro catarinense. A primeira é que para se produzir leite não é preciso grandes áreas. Fazendo aqui uma analogia radical comparando Santa Catarina ao Pará verificamos que Santa Catarina é 13 vezes menor que o Pará em área e produz 5 vezes mais leite.
Outra boa lição é que podemos e devemos evoluir no controle sanitário do rebanho brasileiro. É possível erradicar as principais zoonoses do nosso rebanho nos tornando assim muito mais competitivos na produção de carne e leite, mundialmente.
Nosso dever de casa em Santa Catarina é implementar melhorias no manejo da ordenha e no resfriamento do leite, com ganhos de qualidade.
O desenvolvimento do produtor representa uma grande oportunidade para assegurar a sustentabilidade das famílias rurais no campo.
