Brasil leiteiro de Sul a Norte - Paraná
No Paraná tive a oportunidade de viver e interagir com a cadeia do leite diretamente durante 18 meses. Foi uma experiência espetacular. Neste estado pude conviver com uma agricultura de elevado conteúdo técnico e de alta produtividade nos diversos produtos do agronegócio ali cultivados. São muitas máquinas [...]
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A produção e produtividade da soja é fantástica. Uma vez colhida, vem o milho safrinha, com elevadíssima colheita, diferenciado de qualquer outro estado do país. Retirado o milho para a silagem, surge a terceira safra, principalmente com o trigo e as forrageiras de inverno. O estado com apenas 199.315 km2, ocupa posição de destaque no ranking nacional de soja, milho e trigo, aves e suínos, além do leite.
O Paraná é um tradicional produtor de leite. O gosto pela bovinocultura veio como herança da população europeia que se firmou no estado, consolidado pela estrutura fundiária, onde a prevalência de pequenas propriedades é marcante. A imigração dos holandeses na década de 50, nas regiões de Castro, Carambeí e Arapoti, e, dos alemães, na região de Witmarsum, é um caso de sucesso para o setor leiteiro nacional. Estes “bravos” colonizadores transformaram as terras de campo num seleiro da produção de grãos e leite com adoção de muita tecnologia. Essa região tornou-se referência para todo o país em genética e produtividade de leite. Os “gaúchos europeus” também fazem parte dessa história, integrando uma presença importante na composição dos 114.000 produtores de leite.
Considera-se que 70% dos produtores paranaenses são responsáveis por 30% da produção e os demais 30%, respondem por 70% da mesma, o que comprova a importância social dessa atividade no estado.
Com a produção de 3,97 bilhões de litros em 2012, 12,3% da produção nacional, o Paraná encosta no Rio Grande do Sul, ocupando o terceiro lugar no ranking dos estados, segundo dados da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM), do IBGE.
No período 2008-2012, o aumento médio da produção brasileira de leite foi de 17%, enquanto o crescimento da produção paranaense foi de 40%, sendo considerado o mais alto do país.
Embora a atividade leiteira esteja presente nos 399 municípios paranaenses, ela se destaca no oeste e sudoeste do estado. As regiões de Francisco Beltrão, no Sudoeste, Ponta Grossa, nos Campos Gerais, Castro, no Centro Sul, Marechal Cândido Rondon e Toledo, na região Oeste, apresentam as maiores produções.
Um fato relevante que retrata a grandeza dessa atividade no Paraná é de que cinco dentre as doze maiores empresas de laticínios do Brasil do Ranking de 2013 – elaborado pela LEITE BRASIL, CNA, OCB, CBCL VIVA LÁCTEOS e EMBRAPA/Gado de Leite, estão presentes com operação no estado (DPA, BRF, Castrolanda/Batavo, Confepar e Frimesa).
Na recente edição especial da revista Exame Melhores e Maiores de 2014, que lista as 1.000 maiores empresas do Brasil, as empresas BRF, Castrolanda, Frimesa e Batavo, presentes no Paraná, figuram entre as 100 maiores empresas da região Sul.
O Paraná leiteiro também é destaque na edição 2014 do Top 100 do MilkPoint,onde ocupa a segunda posição, com 17% das propriedades. Dentre as 10 maiores, as três da região Sul, são desse estado.
A raça leiteira predominante é a holandesa. Há ainda, muitos rebanhos mestiços com elevada participação da raça Jersey. O estado é exportador de genética para todo o país. As cooperativas do Pool ABC e Witmarsum sempre venderam muitos animais na forma de reprodutores, vacas e novilhas. A inseminação artificial é uma prática convencional nos rebanhos. Ainda assim, em algumas localidades do estado menos tecnificada, principalmente no lado oeste, encontramos produtores que não foram bem sucedidos e retornaram aos touros.
No Paraná podemos assegurar que embora haja mais ordenhas mecanizadas que na região Sudeste do país, ainda há menos ordenhadeiras que no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Entre os fatores que contribuem para o elevado desempenho tecnológico no estado, estão a capacitação de produtores e dos profissionais que atuam na cadeia produtiva do leite, o melhoramento genético do rebanho, programas de inseminação artificial e as formas de nutrição alimentar.
O pasto é o volumoso básico da alimentação. No verão é comum em todo o estado as forrageiras tropicais (mombaça, tifton, estrela e outras), e, na parte mais ao Sul, as forrageiras, aveia e azevém, no período de inverno. Na região Centro Sul, muitos produtores já migraram para o confinamento total, com adoção de freestall. Nesses sistemas prevalece a dieta com uso da silagem de milho, silagem pré-secada de aveia e/ou azevém e fenos, todos suplementados com os concentrados. O Paraná, que também é um importante produtor de mandioca, tem nos subprodutos desta cultura uma fonte de alimentos no período de escassez de forragem.
O estado é precursor em programas de capacitação de pessoas para a atividade. O SENAR -AR/Paraná, em parceria com o SEBRAE, criou um programa exemplar para a formação de jovens empreendedores rurais, chamado Programa Empreendedor Rural (PER). Este, certamente têm sido o alicerce da boa performance do agronegócio no estado e viabilizará a sustentabilidade desse crescimento. Sabidamente o PER foi nacionalizado e, hoje, já é desenvolvido em outras unidades da federação.
O Centro de Treinamento para Pecuaristas (CPT), de Castro, criado há quase 50 anos para qualificar a mão de obra voltada ao trabalho da produção leiteira, é outro exemplo que deveria ser reproduzido em todo o país.
A Emater local também tem papel relevante no desenvolvimento sócio econômico da produção rural no estado. Na região Noroeste, tive a oportunidade de promover eventos com esta empresa e conhecer profissionais competentes com trabalhos de assistência técnica muito eficazes.
O Programa Balde Cheio, desenvolvido pela Embrapa Pecuária Sudeste, foi inspirado na experiência do Paraná. A Cooperideal, uma das maiores cooperativas de técnicos especializados em leite, foi criada no estado e tem sua sede em Londrina.
Outra iniciativa interessante para a cadeia do leite paranaense foi a criação do Conseleite Paraná, conselho paritário entre os segmentos produtor e indústria, cujo objetivo é nortear a política de remuneração dos produtores com base nos preços praticados no mercado, mitigando assim os conflitos entre os segmentos da cadeia produtiva. Uma equipe de técnicos da Universidade Federal do Paraná processa os dados de volumes e preços do mercado do leite que são apresentados mensalmente em reunião do setor. Os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Rondônia já reproduziram esta experiência.
O Paraná apresenta um importante parque industrial mesclado com fábricas antigas e outras novas. Boa parte da produção é processada na forma de leite longa vida, queijos e pó, comercializados no estado, no país e até exportados, principalmente na forma de pó. O leite paranaense também é exportado na forma “in natura” para outras regiões, como São Paulo e Minas Gerais.
No mercado formal, o estado possui aproximadamente 200 indústrias de laticínios sendo 110 com Serviço de Inspeção Federal (SIF), e 90 com Serviço de Inspeção do Paraná (SIP).
A captação do leite também é realizada através da própria indústria ou terceirizada. Como no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o modelo predominante na remuneração do transportador terceiro ainda é por litro de leite transportado, o que implica nas mesmas consequências ruins da dependência do transportador. Tive a oportunidade de gerenciar pessoalmente grandes conflitos relacionados com o domínio do leite dos produtores pelo transportador. A comercialização de linhas de leite ainda é pratica presente no setor.
Quanto a qualidade do leite, podemos considerá-la já bastante diferenciada nas regiões colonizadas pelos holandeses e alemães, especialmente no que se refere a Contagem Bacteriana Total (CBT). O leite captado pela Cooperativa Castrolanda, por exemplo, apresenta uma CBT compatível com as melhores fazendas do mundo leiteiro desenvolvido.
A cultura do associativismo é bastante praticada. O conceito é muito bom quando se pensa em fortalecer o segmento produtor e, consequentemente toda a cadeia produtiva, mas não apenas para reinvindicação de preços ao produtor, como em geral acontece. Há muito que se melhorar na organização das associações. As lideranças atuam muito focadas apenas com a “plataforma” do preço e pouco no desenvolvimento dos produtores. Programas de assistência técnica, compras conjuntas, inseminação artificial em grupo, recria de fêmeas comunitárias deveriam também ser priorizados nas ações destas organizações. Negociei diretamente com elas em muitas oportunidades e a pauta, na maioria das vezes, foi apenas endereçada aos preços do leite, o que também é importante, mas não o suficiente, tendo em vista que estes dependem muito da conjuntura do mercado.
Podemos fechar este artigo considerando o Paraná não apenas como uma importante região estratégica para o abastecimento do país, mas certos de que temos muitas boas experiências que merecem ser multiplicadas para o setor leiteiro e todo o Agronegócio do país.
Material escrito por:
Antônio Carlos de Souza Lima Jr.
A SL Consultoria em Agronegócios é uma empresa criada em agosto de 2014, com sede em Goiânia, tendo a expertise em negócios relacionados com a Cadeia do Leite como seu pilar central. Ela foi projetada pelo seu sócio proprietário, que atuou por 23 ano
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MARINGÁ - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 05/04/2018
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 31/07/2014
Abraço,

CASTRO - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/07/2014

FRANCISCO BELTRÃO - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 15/07/2014
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 09/07/2014
Você como um produtor de leite bem sucedido na atividade na região da Zona da Mata de MG, é um bom exemplo que ilustra o valor do CPT para o setor. Com certeza seu sucesso também tem a ver com o estágio que você fez naquela no passado naquele Centro de Treinamento.
Forte abraço,
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 09/07/2014
Obrigado pelo seu comentário deste grande consultor, que entende do setor como negócio. Você inerpretou bem a mensagem. Foi com este objetivo que alinhamos esta parceria com o Milkpoint, retratando as fortalezas, fraquezas, ameaças e oportunidades para o setor leiteiro nacional, baseado em experiências já vividas nas diversas regiões do país.
Forte abraço,
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 09/07/2014
Grande abraço,
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 09/07/2014
O CPT do PR é muito organizado e muito eficaz. Acho que o setor deveria, de alguma forma, trabalhar para "cloná-lo" em outros estados do país.
Quanto às associações elas são importantes para a organização dos produtores mas deveriam ter um foco voltado para o desenvolvimento do setor produtivo e não apenas para negociação de preços..
Forte abraço,

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 09/07/2014
GOIÂNIA - GOIÁS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 08/07/2014
Mais um excelente artigo, que retrata bem a realidade do Paraná e nos permite compartilhar um pouco de sua vasta experiência na cadeia do leite.
Muito boa observação a respeito do CTP, um exemplo que realmente deveria ser difundido em outros estados da federação; e também concordo com sua opinião a respeito do forte movimento associativista do centro ocidental Paranaense.
Grande Abraço.

GOIÂNIA - GOIÁS - ZOOTECNISTA
EM 08/07/2014

GUARATINGUETÁ - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/07/2014
Ótimo texto, como sempre.
Grande Abraço!

CURITIBA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/07/2014

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/07/2014
Um grande abraço!

ARAGUAÍNA - TOCANTINS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 08/07/2014

PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 07/07/2014

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 07/07/2014