A produção de leite nos dois estados é pequena. Conforme mostra a tabela abaixo, baseada nos dados do IBGE, 2012, o MT produziu 722 milhões de litros, com 2,2% da produção nacional, ocupando o 8° lugar no ranking dos estados, enquanto o MS produziu 524 milhões, com 1,6%, ficando no 13° lugar.
O crescimento da produção nos últimos 5 anos foi 10% e 6%, respectivamente, nos estados do MT e MS. Juntos cresceram apenas 8,2%. Para se ter uma referência, no mesmo período, o PR cresceu 40%.
Fonte: IBGE, 2012
Analisando a evolução da produção no período de 1990 a 2011, o MT cresceu 343%, enquanto o MS, apenas 129%.
A vocação para produção de leite nos dois estados é grande tendo em vista a abundante disponibilidade de pastagens tropicais e as boas condições para sua produção. Normalmente, o período de chuvas (outubro a abril) favorece a produção de pastos e volumosos para a suplementação no período seco (maio a setembro). Outra vantagem competitiva é o custo da terra e da mão de obra, que são mais baratos, quando comparados a outros estados.
O pasto predominante é a Brachiaria brizantha. A produção de volumoso para a suplementação na seca é muito incipiente. No Diagnóstico da Cadeia do Leite do MT, 2012, realizado pelo Sistema FAMATO, apenas 3,2% da área está sendo utilizada para a produção de reserva de alimentos com predominância da cana com 2,3%. O milho e sorgo ocupam 0,7% e a capineira, apenas 0,1%, conforme gráfico abaixo.
Fonte: Diagnóstico da FAMATO, 2012
A sazonalidade da produção é bastante elevada nos dois estados. Segundo o Diagnóstico, as cooperativas e as indústrias tiveram em 2011 um aumento de 40% e 65 %, respectivamente, na produção do período das águas. Isto se explica, principalmente, pela maior dependência das pastagens cuja produção varia significativamente ao longo do ano. O excedente da produção no período da safra “joga os preços para baixo” afetando o fluxo de caixa dos produtores.
Nestas regiões a suplementação com volumosos no período seco é essencial para a regularidade da reprodução, dos partos e, por consequência, da produção.
O rebanho nos dois estados tem ainda prevalência das raças zebuínas. Baseado nos dados do IBGE/PPM, com estimativa da Embrapa Gado de Leite, a produtividade média por vacas ordenhadas (totais) no MT e MS foram respectivamente 1.252 e 994 litros. A produção média diária por produtor é baixa. Em ambos os estados ela é de apenas 59 litros de leite. Uma boa parte dos produtores estão em assentamentos do governo federal.
Nos dois estados o leite é recebido por cooperativas e indústrias privadas. A participação das cooperativas é menor que das indústrias. Segundo o Diagnóstico, em 2011, as cooperativas do MT comercializaram 43% da produção. Já no MS a cooperativa tem uma presença ainda menor.
O estado do MS conta com um parque industrial pequeno, mas ocioso. Apenas a SAGA envasa leite UHT. Ainda não tem nenhuma indústria de pó. Uma empresa iniciou a concentração de leite recentemente, para venda a terceiros, fora do estado. No MT, há quatro plantas habilitadas para a produção de leite UHT e ainda não tem nenhuma fábrica de pó.
O queijo mussarela é o principal produto da indústria nos dois estados. Mas também, são produzidos queijos tipo parmesão, prato e provolone. O volume excedente da indústria de leite do MT e MS tem sido comercializado “in natura” para dentro e fora do estado (SP, GO e PR).
Em ambos os estados a densidade de coleta de leite é muito baixa o que onera os custos logísticos para coletar o leite. Um trabalho para a otimização da coleta com aumento de produtividade dos produtores, melhoria da malha logística através deredesenho de plantas e postos de resfriamento, implantação de reboques (“Romeu e Julieta”) são fundamentais para se reduzir os custos de captação do leite, que são muito elevados.
Como a produção média por produtor é baixa, sendo muitos deles estabelecidos em assentamentos, a existência de tanques comunitários é uma realidade nestes estados. Desta forma a coleta do leite quente até o tanque coletivo é inevitável. Este processo requer mais atenção a fim de que o leite possa ser resfriado o mais rapidamente possível. É fundamental que a localização dos tanques fique o mais próximo possível dos produtores. O mais apropriado é utilizar tanques menores e melhor posicionados.
Nos dois estados a qualidade do leite medida em contagem de células somáticas é baixa, dado que o leite ainda é ordenhado de vacas com predomínio de sangue zebuíno e com baixa produção de leite por vaca.
No que se refere a contagem bacteriana total (CBT) devemos fazer dois comentários importantes. A CBT que considera toda a flora bacteriana é muita elevada por três motivos: o primeiro diz respeito aos processos de ordenha, que é manual na grande maioria das propriedades e é realizada ainda sem adoção das boas práticas de higiene. Outro ponto é ter muito leite coletado através de tanques comunitários. E por fim, há o agravante das grandes distâncias que aumentam o tempo de recolhimento do leite contribuindo para a elevação da contagem das bactérias psicrotróficas. Quanto aos sólidos, eles estão dentro de uma média nacional, mas são igualmente baixos, se comparados a países que já buscam há muitos anos ganhos genéticos para o respectivo aumento.
Em ambos os estados a assistência pública está presente, no MT através da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e no MS a Agência de Assistência técnica e Extensão Rural (Agraer). Como na maior parte do país faltam recursos para que o trabalho destas empresas possam promover o desenvolvimento dos produtores de leite.
No MS, o governo estadual está implementando, através da AGRAER, o projeto “Leite Forte” para promover o desenvolvimento da produção de leite. Muitos técnicos das empresas públicas e das indústrias e cooperativas estão sendo treinados pela Embrapa Gado de Leite para suportá-lo.
Outros projetos também procuram estimular a atividade leiteira no MS, como é o caso do “Vaca Móvel” que através de técnicos do Instituto Bio Sistêmico, do Sebrae e da Secretaria de Produção e Turismo do Estado visitam bimestralmente produtores de leite para analisar a qualidade do leite e as condições de higiene durante a ordenha. Nas visitas são feitas análises físico-químicas do leite, para melhor orientar as ações corretivas. O projeto Balde Cheio da Embrapa Sudeste também assiste grupos de produtores tanto no MT quanto no MS.
Nestes dois estados é muito relevante o interesse da organização dos produtores liderados pelas Federações da Agricultura. No MS a Federação da Agricultura e Pecuária do MS (FAMASUL) coordena junto com o Sindicato das Indústrias de Laticínios do MS (SILEMS) o Conseleite, conselho paritário, que baliza os preços praticados entre o produtor e a indústria, baseado no mercado.
A indústria é representada respectivamente pelos seus Sindicatos: o Sindicato das Indústrias de Laticínios (SINDILAT), no MT e o SILEMS, no MS. Uma ação eficaz destas duas instituições, juntamente com as respectivas Federações, (FAMATO e FAMASUL) é muito importante para o futuro do setor.
O Sebrae, em ambas unidades da Federação, têm procurado apoiar os produtores nos processos de profissionalização das cadeias produtivas, estimulando o empreendedorismo e a profissionalização.
Nesta mesma linha o SENAR tem cumprido o seu papel. No MS pude acompanhar o trabalho na implementação do “Leite Legal” lançada nacionalmente em 2013. Este programa é um modelo para se obter ganhos de qualidade e deveria ser massificado nos dois estados.
Quando nos referimos a outros produtos do Agronegócio, como o gado de corte, a soja, o algodão e o milho, estes dois estados são destaques no cenário nacional. Viajando pela região é impressionante a exuberância da produção. Entendemos que na mesma linha é possível organizar e profissionalizar a produção de leite.
Os dois estados juntos representam próximo de 15% do território Nacional. O MT, com 903 mil km2, é 1,7 vezes o tamanho da França. Com este gigantismo, é preciso zonear a produção para facilitar a estrutura logística, levando-se em consideração o estabelecimento da malha de fábricas, postos, compatível com o mercado.
Um programa liderado pelas indústrias deveria ser implementado com o objetivo de melhorar o resfriamento comunitário do leite e a logística da captação.
A indústria tem que fazer o seu “dever de casa” e melhorar seus processos de gestão. O desenvolvimento do produtor tem que decolar “com muita força”, através de uma sinergia robusta entre os segmentos da cadeia produtiva.
