A recente crise anunciada da gigante Parmalat tem ocupado grande espaço na mídia, dada a importância da empresa no cenário mundial, uma vez que, em apenas 32 anos de existência, o grupo italiano possui atualmente 139 centros de produção e cerca de 34.800 parceiros comerciais espalhados por 30 países localizados em todos os continentes e dentro das principais regiões produtoras de leite do planeta.
Nas Américas, por exemplo, a Parmalat está presente em 13 países, destacando-se EUA, Canadá, México, Argentina, Uruguai e Brasil. Por aqui, o grupo tem forte atuação nos mercados de lácteos, vegetais e biscoitos, englobando marcas tradicionais, tais como Santal, Batavo, Glória, Etti e Duchen, constituindo-se numa das maiores empresas do setor de alimentos do País.
É no segmento de lácteos, porém, que a Parmalat Brasil concentra os seus negócios no País, desde a entrada, em 1972 (através da parceria com os Laticínios Mococa S.A.), até a conquista da liderança nacional do mercado de leite fluido, fazendo com que recebesse da matriz a missão de promover a expansão da marca na América Latina, culminando com a criação da Parmalat Brasil S.A. Indústria de Alimentos (empresa de capital aberto), através de um amplo processo de reorganização societária, passando a ter suas ações negociadas na Bovespa, entre outras características próprias de uma sociedade anônima.
Os desdobramentos do atual embate econômico da Parmalat, especialmente para o caso brasileiro, são de interesse de grande parte da sociedade nacional, uma vez que poderão afetar não só a cadeia do agronegócio lácteo, mas atingir também os consumidores finais (incluindo vários ramos da distribuição) e, finalmente, o mercado de capitais, no qual operam atualmente muitos acionistas da empresa.
Mensurar e conhecer a magnitude desses impactos, particularmente nos diversos segmentos da sociedade brasileira, caso se acentue o agravamento da situação financeira da empresa, é, portanto, um exercício oportuno (embora complexo), que poderá contribuir para a minimização destas eventuais e indesejáveis repercussões negativas que poderão acontecer.
Ocupando a segunda posição no ranking dos maiores laticínios do Brasil, a Parmalat captou, em 2002, cerca de 948 milhões de litros de leite, ou seja, atingindo 7,2% dos 13.221 milhões processados pelo segmento formal nacional. Detendo 11,3% deste mercado, a Nestlé repetiu a sua liderança, seguida pela Cooperativa Itambé, Elegê e Cooperativa Central de Laticínios de São Paulo (CCL-SP), com 5,5%, 5,4% e 2,3% de participação, respectivamente.
O fato de cerca de 20% do leite do segmento formal brasileiro estarem sob o domínio de apenas duas empresas (ambas não-cooperativadas) assume relevância ainda maior quando se constata que, segundo recente censo divulgado pela Confederação Brasileira de Cooperativas de Laticínios (CBCL), as cooperativas reduziram a sua participação, que era de 60% do mercado na década de 80, para apenas 40% atualmente, ao contrário do que aconteceu em outras partes do mundo, onde se presenciou a consolidação e expansão do sistema cooperativado, com o surgimento expressivo de inúmeras mega-estruturas, detentoras majoritárias do mercado (atingindo-se de 80 a 99% da produção leiteira dos seus países).
Para agravar ainda mais essa situação, os números do Censo da CBCL mostram que o sistema cooperativado nacional não só deixou de prosperar no Brasil, como apresentou em 2002 uma forte atuação no mercado spot, ou seja, fez com que se encolhessem a sua atividade industrial e presença no mercado, traduzindo-se em menores possibilidades de ganhos para a agregação de valor à matéria-prima leite, com conseqüente geração de dividendos menos atrativos aos seus acionistas (produtores primários cooperativados).
Pelos resultados do censo da CBCL percebe-se que, dos 5.254 milhões de litros de leite captados pelo sistema cooperativado brasileiro, 2.134 milhões foram comercializados no mercado spot, ou seja, atingindo-se 40,6% do total. Somente este volume do mercado spot das cooperativas equivale a 2,25 vezes o volume de leite processado pela Parmalat no Brasil. E isso não é tudo: enquanto as indústrias laticinistas privadas operaram com uma média de 220 litros diários por produtor, as cooperativas "sobreviveram" com volumes diários de apenas 95 litros, ou seja, para cada ponto de coleta de leite existente na iniciativa privada, as cooperativas precisaram criar 2,3 vezes mais para coletar o mesmo volume de leite, resultando em aumentos significativos nos seus custos de coleta, ou seja, em reduções expressivas no valor obtido com a agregação de valor à matéria-prima leite.
A falta de consolidação e infeliz encolhimento na participação da estrutura cooperativada no segmento de lácteos do Brasil, bem como a sua forte e crescente atuação no mercado spot resulta na primeira grande constatação: qualquer que seja a crise que venha a acontecer no setor (dentro ou fora do sistema cooperativado ou mesmo para o caso atual da Parmalat), esta acarretará inúmeros efeitos negativos a todos os agentes do mercado, especialmente aos produtores primários de leite e, dentro destes, atingirá também os cooperativados (que são hoje altamente dependentes do mercado spot), ou seja, o eventual agravamento da crise financeira da Parmalat Brasil não irá gerar problemas apenas para os seus produtores e fornecedores diretos de leite, mas atingirá também aqueles outros que acreditavam estar "protegidos", participantes ou não das estruturas cooperativadas.
Este raciocínio, guardadas as suas devidas proporções, também pode ser estendido a todos os demais elos da cadeia do agronegócio lácteo, ou seja, o eventual acirramento da crise da Parmalat Brasil ou de qualquer outra empresa do setor, aumentará a virulência negativa, fazendo-se com que se atinja indistintamente todos aqueles que operam neste importante e estratégico segmento, responsável pelo abastecimento de alimento essencial, insubstituível e nobre para a população brasileira. Neste sentido, não se pode esquecer também que, de alguma forma (alterações no abastecimento, preços praticados, entre outros), os efeitos serão sentidos pelos consumidores finais.
Vale ressaltar que o atual processo de globalização, com a desejável abertura de mercados e de capitais, criou uma nova e imprevisível "cadeia alimentar", com o surgimento e desaparecimento instantâneo e inesperado de inúmeros novos agentes, aonde certamente "os conhecidos leões" não estarão para sempre no seu topo, bem como também os "respeitados plânctons" não viverão eternamente na sua base.
Talvez esteja no provável distanciamento dos escassos investidores atuais (e dos novos eventuais também) uma perda difícil de ser mensurada, ou seja, aquela preciosa oportunidade que o setor dispunha de atrair novos investimentos (via abertura de capital), especialmente num país onde o segmento lácteo é muito carente estruturalmente, fundamentalmente pela falta de capacidade de investimento dos seus inúmeros produtores (detentores de escala de produção pequena e pulverizada) e pelo encolhimento da estrutura cooperativada, aliado às elevadas taxas de juros praticadas para os financiamentos e totalmente incompatíveis com este segmento do agronegócio.
Portanto, quando as indústrias laticinistas nacionais buscam recursos no mercado, via abertura de capital a novos investidores, cria-se um cenário mais otimista para a prosperidade sustentável do setor lácteo nacional, fato que acaba atingindo positivamente os produtores de leite também, inclusive àqueles que se encontram dentro do sistema cooperativado, pelos inúmeros fatos mencionados anteriormente.
Finalmente, muito ainda se tem a desvendar sobre as conseqüências de um eventual agravamento da situação financeira da Parmalat (e da própria Parmalat Brasil S.A. Indústria de Alimentos), mas um ponto é nítido: este eventual acirramento da crise não interessa a ninguém que deseja presenciar o crescimento do agronegócio lácteo no Brasil, mesmo àqueles brasileiros menos envolvidos com esta questão e que ainda mantêm o "Paolo Rossi e a derrota da Seleção Brasileira de Futebol na Copa de 82 para a Azzurra" engasgados na garganta.
As conseqüências da crise da Parmalat
Publicado por: Wiliam Tabchoury
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RÕMULO LESQUIVES DEPOLLO
OUTRO - RIO DE JANEIRO - EMPRESÁRIO
EM 09/01/2004
A atual situação das cooperativas já era visível há vários anos atrás. Com os maquinários sucateados entraram no comodismo de entregar o leite a grupos multinacionais. Acho que o momento é de reflexão, principalmente por parte do governo. Para resolver o problema as cooperativas deveriam se unir e arrendar a Parmalat e produzir leite (principalmente em pó) para exportação. Porém, a administração deste grupo precisaria ser feita por consultores externos.

SERGIO RICARDO
OUTRO - PARANÁ - ESTUDANTE
EM 06/01/2004
O governo tinha que valorizar mais as empresas brasileiras.

ELDER MARCELO DUARTE
SÃO CARLOS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 05/01/2004
William, Parabéns pela brilhante apresentação !
Entre os pontos a serem considerados no estudo que você propõe, sugiro a análise do impacto negativo que já causou no setor, essa empresa líder no segmento de leite fluido (e naturalmente balizadora de preços), atuando com enorme prejuízo operacional nos últimos seis anos. Agora começou a ficar mais claro para todos como é possível operar tanto tempo com tanto prejuízo! E talvez isso ajude explicar por que as cooperativas (na maioria processadoras de leite pasteurizado) não conseguiram viabilizar suas operações industriais, num ambiente de concorrência desleal.
Entre os pontos a serem considerados no estudo que você propõe, sugiro a análise do impacto negativo que já causou no setor, essa empresa líder no segmento de leite fluido (e naturalmente balizadora de preços), atuando com enorme prejuízo operacional nos últimos seis anos. Agora começou a ficar mais claro para todos como é possível operar tanto tempo com tanto prejuízo! E talvez isso ajude explicar por que as cooperativas (na maioria processadoras de leite pasteurizado) não conseguiram viabilizar suas operações industriais, num ambiente de concorrência desleal.