Algumas razões para produzir e consumir (ou não) orgânicos: leite e derivados

Correndo o risco de parecer pretensioso ao tratar de tema tão polêmico e complexo, o propósito deste artigo é - sem maniqueísmos ou fundamentalismos - colocar alguns pontos, mas sem pretender esgotá-los, a respeito do questionamento aos sistemas orgânicos, em sua capacidade de produzir alimentos saudáveis, de forma sustentável e suficiente, com foco restrito à produção orgânica de leite.

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Correndo o risco de parecer pretensioso ao tratar de tema tão polêmico e complexo, o propósito deste artigo é - sem maniqueísmos ou fundamentalismos - colocar alguns pontos, mas sem pretender esgotá-los, a respeito do questionamento aos sistemas orgânicos, em sua capacidade de produzir alimentos saudáveis, de forma sustentável e suficiente, com foco restrito à produção orgânica de leite.

Segurança alimentar

Em 1992, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento reconheceu que os alimentos eram o principal veículo de transmissão de contaminantes ambientais, tanto químicos quanto biológicos. Recentes situações de perigo para a saúde humana constatadas em diversos países, como as crises da vaca louca, da dioxina, a gripe aviária, numerosos casos de contaminação alimentar e do uso de milho geneticamente modificado na alimentação humana, têm levado a uma crescente percepção negativa do consumidor - por sua vez cada vez mais distante da produção - com relação, principalmente, aos alimentos processados e manipulados.

É preocupante, por exemplo, o fato de que "90% de todos os tipos de câncer observados na população humana são de etiologia química, estimando-se que 50% destes sejam produzidos por substâncias componentes da dieta, ou seja, carcinogênicos presentes nos alimentos" (www.pr.gov.br/leite/).

No caso do leite e seus derivados, os consumidores - de forma ainda muito incipiente no Brasil - preocupam-se, sobretudo, com seus efeitos sobre a saúde humana (inocuidade e funcionalidade), alguns poucos, mais reflexivos, sobre o meio ambiente e, possivelmente pouquíssimos, com o bem-estar dos animais que os produziram.

Diferentemente das hortaliças e frutas, em que as intoxicações por agrotóxicos são agudas e mais evidentes, as intoxicações a partir de lácteos com resíduos químicos são sutis, cumulativas (toma-se leite por toda a vida, freqüentemente) e crônicas, o que mascara a percepção dos danos causados à saúde do consumidor.

Resultados de pesquisas sobre resíduos químicos em leite são recentes e escassos no Brasil, verificando-se alguns poucos produzidos em algumas universidades do Sul e Sudeste, com predominância daqueles delineados para a detecção de resíduos de antibióticos. Abstraindo-se questões de ordem metodológica e os altos custos destas análises, que limitam o custeio destas pesquisas, não parece haver, de fato, real interesse da cadeia produtiva em se investigar o problema, vez que ainda não causam danos econômicos; embora resíduos de antibióticos os causem, razão da praticidade da metodologia já disponível.

O fato é que a Normativa 51 não regulamenta devidamente este aspecto, referindo-se basicamente a análises físico-químicas, microbiológicas, CCS e resíduos de antibióticos apenas, todos estes relacionados com perdas industriais.

A não implementação de um programa nacional de controle de resíduos no leite, a exemplo do que existe para a carne, efetivado por força das exportações, reflete essa falta de interesse.
Quanto à incapacidade da produção orgânica em atender as demandas mundiais de alimentos, trata-se de simplificação extremada de quem assim coloca a questão, havendo contra-argumentos a esta hipótese, como o colocado por Altieri(2):

Em 1999 produziu-se suficiente quantidade de grãos para alimentar uma população de 8 bilhões de habitantes (seis bilhões habitavam o planeta em 2000), se estes fossem distribuídos equitativamente ou não fossem fornecidos a animais: sete em cada dez libras de grãos são usados para alimentar animais nos Estados Unidos.

No período 1959 a 1995, no agronegócio brasileiro, segundo Montoya e Guilhoto(3) o setor de insumos experimentou um crescimento de 45 vezes, enquanto que a produção primária apenas 11 vezes, menos da metade do que cresceu o setor processador e distribuidor: 24 vezes.

Se, hipoteticamente, cerca de meio milhão de pequenos e médios produtores no Brasil, produzindo estimados 5,0 litros /vaca/dia, passassem a produzir em torno de 8 litros/vaca/dia (média observada em sistemas de produção orgânica de leite por Aroeira e colaboradores(4)), haveria uma oferta adicional diária de pelo menos 1,5 milhões de litros, com baixa agregação de custos com insumos externos, o que obviamente não interessa às grandes corporações produtoras de agroquímicos.

Nem a quem possa lucrar com essa reserva de mercado advinda da exclusão das pequenas e médias escalas, sem chances de permanecer em uma atividade com preços cadentes e de aumento progressivo da dependência de insumos externos, com perspectiva de custos crescentes.

Levando-se ainda em conta que a alimentação dos animais em sistemas de produção orgânicos de leite (de base agroecológica) é quase que exclusivamente obtida em pastagens e forragens, haveria significativa liberação da produção de grãos para a alimentação humana. Além disso, por serem mão-de-obra intensivos, a geração de empregos no campo seria significativamente aumentada.

Produtividade baixa/ preço elevado

De fato, em regiões como o Sudeste, em que os custos de oportunidade da terra e da mão-de-obra são altos, tendo-se que trabalhar com animais mais rústicos (zebu e seus cruzamentos, com ênfase no F1), mantidos basicamente em pastagens tropicais e suplementados com forragens, dependendo quase que unicamente de leguminosas como suprimento de nitrogênio para o solo e de proteína para os animais, há perdas de produtividade, tanto por animal como por hectare.

Ainda, em função do uso restrito de concentrados e pela impossibilidade de utilização de formas solúveis e sintéticas de NPK, há que se ter um mercado consumidor disposto a pagar um sobre-preço de 70%, como mencionam Aroeira e colaboradores, já citados, o que parece demasiado, embora haja quem se disponha a pagar esse prêmio.

De outro lado, em regiões onde o custo de oportunidade desses fatores é baixo, como é o caso do NE semi-árido, a situação é inversa, podendo haver ganhos de produtividade, com redução de custos de produção. A ironia é que, também inversamente, os nichos consumidores de orgânicos, no mercado interno, estão no sudeste. Em outras palavras, no Nordeste com terra e mão-de-obra baratas e outras vantagens comparativas, pode-se produzir com menores custos, aumentando a produtividade, porém sem mercado consumidor de lácteos orgânicos, que está no sudeste, onde a oferta é inexpressiva e a preços elevados.

Portanto, no caso específico do leite, pode-se dizer que o mercado para a produção orgânica no Brasil ainda se restringe a um nicho de mercado, concentrado no eixo Rio/São Paulo, constituído por consumidores de maior poder aquisitivo, sobretudo mais bem informados, que o sabem tratar-se de produto "sem agrotóxicos", embora frequentemente desconheçam que os preços mais altos se explicam porque, em sua produção, serviços ambientais, (maior conservação dos recursos naturais, florestais e da biodiversidade em geral) não são premiados pelo mercado, além da não contaminação ambiental e alimentar, custos não internalizados na produção convencional.

Além disso, devem ser consideradas as deseconomias de escala no processamento que oneram o produto final, sem esquecer também a agregação de custos com a certificação, medida necessária para um contexto com alto grau de oportunismos e fraudes.

Outro aspecto a ser considerado é o fato de que os altos ganhos de produtividade na produção de alimentos alcançados pela revolução verde, de elevada dependência de insumos externos, foi resultante de pelo menos quatro décadas de investimentos em pesquisa centrada nesse paradigma, para só se tratar de Brasil. Se parte significativa desse esforço for direcionado para sistemas orgânicos de produção, é de se esperar que diferenças de produtividade se reduzam ao longo do tempo.

Valor nutritivo e sabor

Pesquisa recente (2003), publicada pelo Instituto de Pesquisa em Pastagens e Meio-Ambiente (IGER), na Inglaterra, evidenciou que o leite orgânico contém 64% mais Omega 3 do que o leite convencional. A razão do fato, segundo os autores, reside na maior proporção de leguminosas na alimentação das vacas, nos sistemas de produção orgânicos.

Em adição, pesquisadores do Centro Dinamarquês de Pesquisa Agropecuária, estudando o teor de anti-oxidantes e vitaminas, verificaram que o leite orgânico continha 50% mais vitamina E, do que o leite convencional.Também nesta pesquisa, as diferenças foram atribuídas a maiores quantidades de leguminosas na alimentação das vacas, na produção orgânica, enquanto que nos sistemas convencionais a alimentação básica era a silagem de milho.

Encontraram, ainda, níveis de beta-caroteno 75% maiores no leite orgânico. Além de atuarem como antioxidantes promotores de saúde, uma quantidade significativa dos componentes do sabor do leite é formada com base nesses carotenóides, contribuindo para formação de compostos aromáticos que afetam o gosto do leite. (www.foodnavigator.com; www.news.bbc.co.uk).

Impactos ambientais

Os poucos resultados de estudos comparativos existentes entre sistemas de produção orgânicos e convencionais, contidos em relatório feito pela OCDE indicam que empreendimentos leiteiros maiores e intensivos apresentam maior risco de prejuízos ambientais e que:

As explorações leiteiras orgânicas revelam geralmente um maior equilíbrio entre o aporte de nutrientes, pesticidas e energia, e o que é necessário para a produção. Por conseguinte, as explorações leiteiras orgânicas têm melhores indicadores agro-ambientais quanto à qualidade do solo (por exemplo, matéria orgânica, atividade biológica e estrutura do solo), à qualidade da água (lixiviação dos nitratos, fosfatos e pesticidas) e à biodiversidade das espécies.

Outro resultado conseqüente: embora a pressão ambiental da indústria orgânica seja inferior na base por hectare, a diferença entre os sistemas diminuiu substancialmente quando medida na base da produção por unidade de produto, sendo que o nível de emissões de metano por animal, tende a ser maior nos sistemas orgânicos.
(www.oecd.org/bookshop/)

Por fim, lembrando o brilhante zootecnista Vaz Portugal, em seu artigo sobre o futuro da produção animal:

...há formas diferentes de produzir o mesmo alimento, conduzindo o consumidor a escolher. A produção intensiva e a produção natural são sistemas complementares de produção animal, cuja produção e distinção entre os mesmos produtos terá de ser regulamentada, coordenada, melhorada e defendida a sua origem e genuinidade. A imagem pública da produção animal terá de ser defendida através da formação da opinião do consumidor. A estrutura produtiva deve preocupar-se com a saúde pública e ambiental e o bem-estar animal.

Indústria animal e produção natural coabitam o mesmo espaço e produzem alimentos variados que o homem pode escolher. Trata-se de uma produção massal (sistemas intensivos) e uma produção de oferta limitada (produção natural), esta feita com o recurso local, a raças autóctones e alimentos de composição nutritiva com reflexos nos flavores do produto final (grifos nossos).
(www.fmv.utl.pt/SPCV/)

Assim, a produção natural ou orgânica - não a simples substituição de insumos, como ocorre em grandes explorações leiteiras americanas - mas a de base agroecológica, sustentável, mais operacional nas pequenas/médias escalas e com maior possibilidade de agregação de valor, coloca-se como uma opção; embora, necessite do conhecimento científico que a fundamente e de ações governamentais - entre elas a pesquisa - que a apóiem e a regulamentem, vez que não pode ser importada e/ou adquirida pronta, nem mesmo reproduzida em série, posto que é sobretudo arte, muito menos abstraída do efeito do ambiente local, que lhe confere genuinidade.

Referências

(2)ALTIERI, Miguel A. Biotecnologia Agrícola: mitos, riscos ambientais e alternativas. Petrópolis, Vozes, 2004.

(3)MONTOYA, M. A. ; GUILHOTO, J. J. M. Dimensão econômica e mudança estrutural no agronegócio brasileiro entre 1959 e 1995. Agricultura Familiar: realidades e perspectivas, Passo Fundo: EDIUPF, 1999.

(4)AROEIRA, L. J. STOCK, L. A., ASSIS, A. G., MORENZ, M. F., ALVES, A. A. Sistema orgânico de produção de leite e sua viabilidade no Brasil, enviado à Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, João Pessoa. 2006.
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Material escrito por:

Orlando Monteiro de Carvalho Filho

Orlando Monteiro de Carvalho Filho

Engenheiro Agrônomo, Pesquisador Aponsentado da Embrapa

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Christina Maria Queiroz de Jesus Morais
CHRISTINA MARIA QUEIROZ DE JESUS MORAIS

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 31/08/2009

Seu artigo veio corroborar o trabalho que estou desenvolvendo, visando o monitoramento de agrotóxicos organofosforados em leite. E tenho verificado e detectado resíduos dessas substâncias. Creio que devemos pesquisar mais e propor aos orgãos responsáveis o real monitoramento dos agrotóxicos também. Com isso repensar a forma de produção desse alimento tão importante para toda a população.
Parabéns pelo artigo.
Luiz Fernando Bonin Freitas
LUIZ FERNANDO BONIN FREITAS

NOVA FRIBURGO - RIO DE JANEIRO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 15/02/2007

Conseguimos, depois de muita luta e estudo, convencer um produtor de leite da nossa região de atuação a promover uma intensa reformulação em sua atividade, e demonstramos com números, aplicação de tecnologias, novas práticas de produção (homeopatia, estilosantes, pastejo rotacionado, mecanização da ordenha, I.A., gerenciamento da atividade) enfim, uma luta árdua, mas gratificante e digna.

Fizemos até mesmo levantamento do mercado consumidor, exigente e merecedor de um produto de qualidade, pois acreditamos que alimento para crianças não devem conter resíduos de antibióticos, antinflamatórios, ivermectinas e outras substâncias cujos efeitos colaterais são graves, inclusive cancerígenos.

Os próximos passos serão a divulgação do produto pela mídia, controle de qualidade conduzido de forma séria e idônea, certificação e contato com outros produtores da região que queiram trocar informações e conhecimentos para que juntos possamos desenvolver uma atividade rentável, produzamos com qualidade.

Grato pelo excelente artigo.
Orlando Monteiro de Carvalho Filho
ORLANDO MONTEIRO DE CARVALHO FILHO

ARACAJU - SERGIPE

EM 31/01/2007

Prezados Professores Langoni e Nelton Menezes,

Antes, gostaria de agradecer pelos comentários. O que quis enfatizar é que precisamos de um esforço muito maior em pesquisas, que ora começam a acontecer, como por exemplo esta que está sendo conduzida sobre qualidade do leite aí em Botucatu. A propósito, o nosso leite está sendo utilizado como referência em pesquisa para obtenção de doutorado aqui em Sergipe, com o objetivo de detectar resíduos de metais pesados e de organoclorados em amostras de leite produzido na bacia leiteira do sertão sergipano.

Penso que talvez devêssemos também procurar investigar, a exemplo dos estudos europeus citados, não só a ausência de resíduos, como também outros parâmetros que eventualmente revelem a melhor qualidade do leite orgânico.

A ambos convido a visitar, pelo menos virtualmente, nosso sistema de produção em www.fazendaacaua.com.br.
Nelton Menezes
NELTON MENEZES

FLORIANÓPOLIS - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 30/01/2007

Excelente clareza e objetividade sobre o contexto onde se insere a "produção de orgânicos" no mundo atual, especialmente os produtos de origem animal.

Parabéns ao Sr. Orlando, e muito sucesso em sua atividade.
Helio Langoni
HELIO LANGONI

BOTUCATU - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/01/2007

A produção de leite orgânico é uma possibilidade que deve ser estimulada. A agroecologia é também uma ciência e pode ser adequada para muitas regiões de nosso país, visando um produto de melhor qualidade do ponto de vista de resíduos químicos.

Claro que pesquisas são necessárias. Estamos iniciando projeto de pesquisa, trabalhando na região de Botucatu (SP), avaliando a qualidade do leite de algumas propriedades que adotam este sistema de produção. Trabalho com mastites há muitos anos, e precisamos comparar os aspectos de qualidade do leite e seus derivados na produção orgânica, com os sistemas tradicionais de produção láctea. Sou profesor titular da FMVZ-UNESP-Botucastu-SP.
Qual a sua dúvida hoje?