Fazenda São Caetano

Morrinhos / GO

A atividade leiteira no Sítio São Caetano e Fazenda Chapadão em Morrinhos-GO pode ser associada à trajetória de vida e de sucesso como médico veterinário de José Renato Chiari, formado pela Unesp-Jaboticabal, em 1984. Sua ligação com a terra teve início na infância vivida no sítio de seus pais, em Analândia, no interior de São Paulo, município próximo a São Carlos. Desde cedo, aprendeu a trabalhar e fazer da terra um meio de vida. Os filhos de Cesare Domingos Chiari e Thereza Franceschini Chiari, Paulo César, José Renato e Renata, foram criados com a renda proveniente do trabalho agrícola e pecuária de leite. Dos três filhos, hoje, apenas Renata não vive ou trabalha na propriedade.

A vida no campo foi determinante para a formação e escolha profissional de Paulo César, engenheiro agrônomo, e José Renato. Ambos mantêm uma relação umbilical com a terra. “Muita gente reclama do campo, do sol árduo e das dificuldades. Para mim, isso tudo é muito natural. Eu fui criado assim. Só sei viver assim. Moro na fazenda e é difícil eu sair daqui. Minha vida é isso aqui e sou feliz dessa maneira. Tem gente que sofre com o calor, com o sol, com o fato de ter de acordar cedo e de trabalhar muito. Eu não. Eu vivo disso”. Com tais palavras José Renato tentou nos explicar sua ligação com a fazenda e origem no campo. A tradição familiar da exploração agropecuária como fonte de receita é mantida até hoje. Zé Renato, como é conhecido por muitos, e seu irmão moram na fazenda com as respectivas famílias e sobrevivem da agricultura e produção de leite.

Em seu primeiro emprego, José Renato trabalhou em uma fazenda na área de reprodução de eqüinos e gado de corte. Em 1986, teve a oportunidade de conhecer e trabalhar de modo intensivo com a produção de leite, quando foi contratado como médico veterinário na área de reprodução na fazenda Agrindus em Descalvado-SP. A fazenda, que já ocupava cenário de destaque no setor, serviu como verdadeira escola prática na área de reprodução de bovinos de leite. Na época, segundo Zé Renato, os desafios eram enormes. Não havia recursos e disponibilidade de tecnologia. Implementos como, por exemplo, o vagão total mix (TMR) para alimentação de rebanhos confinados eram novidade. No manejo reprodutivo da Agrindus, José Renato teve a oportunidade de desenvolver trabalhos inéditos e pioneiros no Brasil, como o uso de embrião terapêutico, além da implantação ferramentas para diagnóstico, como o micro-hematócrito, para monitoramento de tristeza parasitária bovina (TPB) ou mesmo o tão popular ultrassom para monitoramento do aparelho reprodutivo e diagnóstico de prenhez.

Em 1987 montou a Clinica Veterinária SAMVET (as siglas são a abreviação de: Serviço de Assistência Médica Veterinária) com o parceiro, e também médico veterinário, Dr. Sergio Ostronoff. Com a clínica, atendeu às principais fazendas leiteiras da região. Criaram uma equipe de 5 veterinários de campo e um laboratório clínico completo. Em 1989 foi criada a SAMVET EMBRIÕES, em parceria com a Fazenda Calumby. Segundo José Renato, foi uma época de muito trabalho e grande desenvolvimento para os profissionais envolvidos. Havia grande volume de trabalho e Zé Renato prosperou. Enquanto José Renato estudava e também durante os anos em que trabalhou com assistência médica veterinária, seu irmão Paulo César Chiari prosperava com agricultura em uma fazenda comprada em 1980, em Goiatuba-GO. Posteriormente, surgiu a oportunidade de comprarem outra fazenda em Morrinhos. Passaram então a trabalhar com agricultura bem diversificada: produção de milho, soja, cebola, batata e tomate. Atualmente, as fazendas dos Irmãos Chiari (como são conhecidos) exploram mais de 1.000 ha irrigados.

A vinda de José Renato para a região aconteceu em 2001, quando se viu diante de um impasse: continuar com a clínica ou assumir novos desafios com os negócios da família, em outra região promissora. Assim, quando surgiu a oportunidade de compra o Sítio São Caetano, com boa estrutura para desenvolver e explorar o mercado de embriões, em uma região ainda pouco desenvolvida, decidiu deixar os negócios em São Paulo para mudar definitivamente para Morrinhos-GO com seus pais e filhos. Deixou a sociedade na clínica veterinária, mas manteve o nome SAMVET EMBRIÕES ao montar empresa para prestação de serviços de Biotecnologia da Reprodução (FIV e TE). Neste mesmo ano, começaram a produzir leite em baixa escala (100L/dia) em regime confinado como consequência dos trabalhos com a central. Naquela época, segundo Chiari, seus conceitos sobre produção de leite eram voltados única e exclusivamente para o sistema confinado. “Para mim, como técnico da área de reprodução, a produção de leite somente poderia se viabilizar com vacas de alta produção, boa genética holandesa e em regime confinado”. Decisão condizente para alguém que fez escola numa das maiores fazendas produtoras de leite do país, neste regime de produção.

Recentemente, ao visitarmos a fazenda, nos deparamos com 2 sistemas distintos de produção de leite em duas glebas de terra: Sítio São Caetano, com produção de leite em confinamento tipo free-stall e Fazenda Chapadão, com produção intensiva a pasto (rotacionado e irrigado, debaixo de pivô). Duas realidades, dois perfis de rebanho, dois sistemas de produção, um gestor experiente e uma administração familiar. Um prato cheio para o Porteira Adentro.

Atualmente, na fazenda são produzidos 10.500 litros por dia, sendo 5.400 litros a pasto irrigado através de um único pivô móvel (2 módulos rotacionados de 17 ha - compostos por tifton-85, coast-cross e vaquero) e o restante em confinamento (5.100 litros) tipo free-stall. Talvez seja a única fazenda do Top 100 MilkPoint a agregar 2 sistemas intensivos de produção concomitantes.

A história da produção de leite no sítio São Caetano é, até certo ponto, bastante interessante e curiosa: a produção em regime de confinamento começou em função do trabalho com a central de embriões e histórico profissional de José Renato. Na fazenda Chapadão, onde encontramos a produção de leite a pasto, o projeto inicial de exploração da área consistia na instalação de três grandes pivôs para agricultura. Na implantação do projeto, constataram que não seria possível colocar em prática o plano idealizado por causa de problemas de infraestrutura elétrica: faltava carga suficiente na rede de abastecimento capaz de movimentar os equipamentos. A verba do financiamento para aquisição dos pivôs já estava liberada, o processo encaminhado e o projeto já adiantado. Não seria possível implantar os três grandes pivôs para agricultura, de acordo com estudos do fabricante, mas seria possível a instalação de dois pivôs de 34 ha. De acordo com os cálculos e projeções de Paulo César, dois pivôs de 34 ha não se viabilizariam para o projeto agrícola. Nessa ocasião, José Renato teve a ideia de instalar um único pivô móvel e fazer uso do mesmo para produção de leite a pasto. No início, todos desacreditaram da proposta, considerando-a de certa forma arrojada e até um pouco maluca: “Produzir leite a pasto, debaixo de um pivô? Irrigar pastagem?” Enfim, “este era o questionamento de todos na época”, relata. Foi assim que começou a produção de leite a pasto.

A experiência com produção de leite de forma intensiva em regime confinado era ampla. O desafio seria encontrar animais aptos a se enquadrarem num manejo e regime produtivo em condições bem mais severas e, digamos, brasileiras.

O projeto Porteira Adentro é uma iniciativa do MilkPoint, patrocinada pelo programa Maxi-Leite, da MSD Saúde Animal.

Texto: João Paulo V. Alves dos Santos, engenheiro agrônomo e produtor de leite

A produção de leite dos Chiari é caracterizada pela existência de 2 sistemas de produção independentes: pastejo e confinamento. O projeto de confinamento é conduzido no Sítio São Caetano e o de leite a pasto é desenvolvido na fazenda Chapadão.

Os animais no sistema confinado estão alojados em um galpão free-stall “adaptado e não ideal”, segundo José Renato. Atualmente, são 146 vacas de alta produção, com média superior a 30 litros/cabeça, divididas em 5 lotes, e mais um sexto lote de vacas mantidas em tie-stall anexo à ordenha, duplo 6. Em 2012, a produção média de foi de 27 litros/cabeça/dia. Neste sistema, são realizadas 3 ordenhas diárias. O rebanho em confinamento é composto por um total de 350 cabeças.

Para produção de silagem de milho, são destinados 100 ha de lavoura com produtividade média de 50 ton de MO/ha. Na dieta, além da silagem de milho é fornecida também palha de milho (que aproveitam da colheita de milho/semente) como fonte de fibra efetiva. Trabalham com grão úmido de milho (silagem) e, como subproduto, utilizam polpa de tomate. Os farelos utilizados são de milho, sorgo e soja.

O manejo alimentar dos animais em produção é realizado por meio de dieta única. Os animas jovens (recria) também recebem a mesma dieta única destinada às vacas secas e aos animais em crescimento. A programação do vagão TMR é feita com uma dieta padrão, sendo que os lotes são manejados com diferentes quantidades adicionais de concentrado (de acordo com a demanda), fornecidos de maneira adicional, misturado manualmente pelo tratador na dieta-base.

Moto adaptada para levar ração aos piquetes

Na Fazenda Chapadão, encontramos o sistema de produção a pasto composto por uma área total de 34 ha, dividida em 2 módulos rotacionados de 17 ha cada. Por razões econômicas, adotaram o sistema móvel, ou seja, o pivô, o qual é montado sob uma base que irriga inicialmente 50% da área para posteriormente ser transportado (rebocado) por trator, para finalizar a área restante. No sistema de pastejo, são mantidas 350 cabeças em produção durante o verão e 240 cabeças durante o inverno, em regime de 2 ordenhas diárias. Um detalhe bem interessante no sistema de produção da Chapadão refere-se ao ajuste da lotação de inverno. Com a queda da produtividade da pastagem, as melhores vacas (com maiores médias individuais) são retiradas do pastejo e colocadas durante a estação seca em um sistema de confinamento a céu aberto, anexo à ordenha.

Fazenda Chapadão - Sistema de produção a pasto sob pivô

Fazenda Chapadão – Sistema de confinamento a céu aberto durante a estação seca

O projeto de pastejo foi, inicialmente, delineado para ciclos com 32 dias de descanso. As condições climáticas da região, entretanto, alteraram as estratégias de manejo. No verão, o período de descanso chega a ser reduzido para 16 dias, para propiciar resíduo ideal na saída dos piquetes, ótima qualidade da forragem e redução na taxa de lotação no sistema. Todo ano, em junho, são realizadas coletas de solo para análise e correção dos teores de potássio, fósforo e enxofre. Durante o verão, é realizada adubação nitrogenada via fertirrigação, com fornecimento em média de 500 kg de N/ha/ano. O manejo do pastejo é realizado em 66 piquetes, usando 4 piquetes/dia com intervalo de pastejo de 16,5 dias.

Um detalhe interessante, e não usual em sistemas de produção a pasto, é a presença de um mesmo gênero de forragem(Cynodon sp) nos piquetes, que são compostos por diferentes espécies (Tifton-85, Coast-Cross e Vaquero). Em termos de manejo, agronomicamente e tecnicamente falando, sabemos que o consórcio de espécies pode resultar em dificuldade de manejo por diferentes hábitos de crescimento e/ou respostas diferentes quanto à correção do solo e adubação, resultando em pastejo irregular. Este aspecto teórico, na prática, não foi constatado na propriedade (cabe aqui ressaltar que não temos piquetes “misturados” com diferentes forrageiras, mas sim alguns piquetes formados por uma ou outra espécie forrageira). Esta particularidade foi abordada em nossa visita e, de acordo com Zé Renato, a presença de diferentes espécies é interessante. “O Tifton, por exemplo, é uma excelente forrageira. Produz muito bem no verão, mas acumula muita haste no inverno, além de ter uma estacionalidade maior de produção. Se tivéssemos somente ele em nossos pastos, seria complicado. Como temos um pouco de cada forragem, o sistema acaba se equilibrando”. Além do manejo da pastagem com diferentes espécies de Cynodon, a fazenda trabalha com sobre-semeadura de inverno de azevém para melhorar a qualidade da forragem na seca (banco de proteína) e garantir uma boa taxa de lotação. Além dos 34 ha irrigados, são mantidos 30 ha de pastagem em regime de sequeiro.

No inverno, a fazenda complementa a alimentação dos animais com o fornecimento de batata que não pôde ser aproveitada para comercialização. Uma alternativa inusitada de fornecimento de amido e particular no manejo da fazenda. Além da suplementação com batata, os animais recebem volumoso adicional, como a silagem de milho. A forma como o volumoso é fornecido é bastante interessante, sendo colocado no próprio pasto, sob a divisória/cerca elétrica dos piquetes.

O volumoso é fornecido às vacas no próprio pasto, sob a divisória dos piquetes

No sistema de produção a pasto, são realizadas 2 ordenhas em sistema duplo 6. Na saída da ordenha, há uma ante-sala de alimentação capaz de comportar 48 animais e uma sala de alimentação (canzis) para fornecimento de concentrado para 12 animais. Essa seria uma configuração 12 x 48 x 12, ou seja, 2 grupos de 6 sendo ordenhados, 8 grupos de 6 animais esperando (até 6 grupos, se necessário) e 2 grupos de 6 animais consumindo ração (somente) no cocho.

Sala de alimentação com canzis, para fornecimento de concentrado pós ordenha

Após a ordenha, os animais recebem suplementação exclusiva de concentrado (sem volumoso) na saída, de acordo com o volume de leite produzido. Em média, 6 a 7 kg de concentrado para 21 a 22 litros de leite. A fazenda desenvolve trabalho intensivo no manejo reprodutivo, com apenas 10 a 12% do rebanho sendo inseminado anualmente. O restante do plantel é manejado por meio de embriões via fertilização in vitro (FIV) e transferência (tradicionais) de embrião (TE).

O controle e gerenciamento dos animais é informatizado (100%) através do uso de programa e software do fabricante de ordenha GEA (Dairy Plan).

O projeto Porteira Adentro é uma iniciativa do MilkPoint, patrocinada pelo programa Maxi-Leite, da MSD Saúde Animal.

Texto: João Paulo V. Alves dos Santos, engenheiro agrônomo e produtor de leite

As fazendas do grupo são administradas familiarmente. Quase todos os membros da família estão envolvidos com a rotina e o dia-a-dia da fazenda, seja na produção agrícola ou na produção de leite.

A agricultura é comandada por uma equipe de engenheiros agrônomos. Paulo César Chiari trabalha sempre ao lado de seu filho Arthur Traldi Chiari, e seu filho mais novo, Thomas, que está terminando sua graduação em Engenharia Agronômica na Universidade Federal de Goiás (UFG), também dá um suporte na fazenda.

A pecuária de leite é conduzida por José Renato, sua esposa Rogéria, seus filhos (Kamila e Felipe) e seu sobrinho, Thadeu Traldi Chiari, também médico veterinário. Rogéria trabalha na administração da fazenda e no laboratório de TE. Os trabalhos no laboratório de FIV são conduzidos por 5 funcionários. A administração, processamento de dados e controle zootécnico do rebanho são direcionados à Kamila. Felipe está terminando curso de medicina veterinária, também na UFG-GO/Jataí-GO, e vai trabalhar na fazenda. Para conduzir os trabalhos com o rebanho, contrataram há cerca de 3 anos outro médico veterinário: Douglas S. R. de Nunes.

Com uma vasta equipe familiar, praticamente todas as atividades da fazenda são supervisionadas por algum membro da família, sendo um diferencial da propriedade. No sistema de produção de leite, em ambos os sistemas, não há chefes ou gerentes de produção. A fazenda conta com 4 setores: produção, recria, doadoras e prestação de serviço . Para cada fazenda há uma unidade de ordenha e 6 funcionários para a realização das atividades.

O projeto Porteira Adentro é uma iniciativa do MilkPoint, patrocinada pelo programa Maxi-Leite, da MSD Saúde Animal.

Texto: João Paulo V. Alves dos Santos, engenheiro agrônomo e produtor de leite

Quem desejar começar a produzir leite e tiver a oportunidade de visitar o Sítio São Caetano e a Fazenda Chapadão, não perderá tempo ou a viagem. Terá a oportunidade de receber muita informação e conhecimento por uma série de motivos, dentre os quais destacamos três: conhecer um sistema de produção confinado bem conduzido, conhecer um bom manejo de produção de leite intensivo a pasto e poder conversar e trocar informações com um profissional de grande conhecimento e experiência em produção de leite.

José Renato, gestor do negócio leite, médico veterinário com vasta experiência na área de reprodução e clínica de vacas de alta produção, teve a oportunidade de trabalhar por muitos anos numa das maiores fazendas de leite do Brasil e, a partir do conhecimento adquirido, conseguiu com fruto do seu esforço desenvolver um interessante e pioneiro trabalho com embriões numa região com grande potencial para produção de leite no país. Sua personalidade carrega diferentes características, que vão desde a simplicidade e humildade à experiência e empreendedorismo. Diferentemente de muitos, José Renato não conduz seus sistemas de produção de leite observando somente aspectos técnicos. Consegue ter discernimento e maturidade suficientes para perceber que conceitos pré-estabelecidos e consagrados em condições experimentais nem sempre geram resultados satisfatórios ou viáveis. Um exemplo dessa flexibilidade foi revelado ao ser indagado sobre manejo de vacas de alta produção em regime de pastejo e sobre a dificuldade de consumo de matéria seca (MS) pelas vacas, compatível com o nível de produção. Não houve tergiversação, mas sim diagnóstico, constatação e reconhecimento de que tal aspecto talvez seja um dos maiores desafios envolvendo o manejo do pastejo, e que para conseguirmos produzir bom volume de produção de leite a pasto é necessário suplementar, sim, e com boa quantidade e qualidade de concentrado. No sistema de José Renato, vacas de alta produção chegam a consumir até 10, 12 kg de concentrado/cabeça/dia em apenas duas refeições diárias. Questionado se isso não seria um “absurdo técnico” uma vez que, sabidamente, o fornecimento de grandes quantidades de ração numa única refeição pode reduzir o pH ruminal e prejudicar o desempenho animal com padrão irregular de ingestão de MS, ele concordou. Foi enfático, entretanto, em dizer que: “na teoria é isso mesmo, mas na prática temos que trabalhar de outra maneira. Senão, como vamos fazer? Nós vamos adaptando, manejando e direcionando as vacas para o que queremos. No final, tudo se encaixa. Funcionando como um relógio”. Partindo de um profissional como José Renato, devemos guardar estas informações com atenção.

Quando visitamos propriedades pelo Brasil afora, geralmente temos como objetivo conhecer um determinado sistema de produção ou particularidades do mesmo. Ao visitarmos o Sítio São Caetano temos a oportunidade ímpar de observar 2 sistemas totalmente diferentes, com 2 perfis de rebanho e manejos opostos. Cada qual com, praticamente, o mesmo volume de produção. Tivemos a oportunidade de compará-los e questioná-los perante seu gestor sobre os aspectos financeiros e econômicos de cada sistema.

Ao abordamos sobre os temas Padrão Racial e Sistemas de Produção, José Renato pontuou sobre melhorias na raça Gir e animais cruzados com holandês. “Não podemos comparar o Gir leiteiro de hoje com o Gir de 30 anos atrás”. Na sua opinião, houve um grande melhoramento genético da raça nos últimos anos. “Hoje encontramos vacas meio sangue produzindo leite com muito maior volume e muito mais persistência do que no passado” (na ocasião da nossa visita, a produção média das vacas a pasto era de 21 litros de leite por cabeça, consumindo de 6 a 7 kg de concentrado/cab/dia).

Tradicionalmente, sistemas de produção de leite a pasto são delineados de acordo com conceitos que englobam fertilidade do solo, condições climáticas da região e lotação para garantir rentabilidade ao negócio. Espécies forrageiras são indicadas partindo de tais premissas. Em termos de manejo, é de conhecimento geral que o emprego de diferentes espécies numa mesma área, em função da dificuldade de manejo (altura de entrada x altura de resíduo), não é recomendável. Tecnicamente e teoricamente, concordo e direciono minhas consultorias e trabalhos dessa forma, por exemplo. Na prática, o que constatei e o que discutimos foi sobre outra realidade. Obviamente, uma única forrageira é a melhor condição para um sistema, mas a diversidade de espécies de um mesmo gênero no sistema de produção visitado não foi fator complicador do manejo, mas sim complementar à necessidade do mesmo. Sorte? Coincidência? Não. Segundo José Renato, a presença do Tifton é interessante pelo seu potencial produtivo e a presença de Coast-Cross e Vaquero, pela qualidade de folhas no dossel.

Quando visito propriedades para aprendizado, troca de informações ou assistência técnica (consultoria), costumo observar e comparar sempre o idealizado versus praticado. Muitos sistemas de produção a pasto são projetados para o fornecimento de muita forragem e baixa quantidade de suplementação/vaca/dia para produção de leite. Determinados raciocínios são interessantes de serem acompanhados, na teoria. Na fazenda Chapadão aspectos práticos importantes foram revelados, sem segredos, como a quantidade de suplementação. As vacas produzem, sim, se pagam e dão lucro, mas consomem ração - e em boa quantidade. Equiparável com a realidade de alguns confinamentos no país. Em nossa conversa, Zé Renato foi muito cauteloso ao abordar os indicadores financeiros. No entanto, a região, que é produtora de grãos, permite a compra de ingredientes tradicionais (farelos de milho e soja) a preços mais competitivos. Possuem ainda a oportunidade de substituir o farelo de milho por farelo de sorgo, disponível no mercado, e utilizar fontes alternativas de alimento como batata - não aproveitada para alimentação humana - e polpa de tomate (uma das atividades da fazenda, que também tem sociedade em uma processadora de alimentos da qual recebe os subprodutos). Dessa forma, o sistema a pasto na região é capaz de gerar receita/área superior à maioria das culturas agrícolas. Tomando como base os números médios entre os 2 sistemas de produção de leite, a produção por área supera a marca de 35.000 litros/ha/ano, enquadrando a pecuária de leite como um excelente negócio.

Polpa de Tomate: subproduto bem aproveitado

O resultado financeiro de ambos os sistemas de produção foram positivos em 2012. Tanto no sistema confinado como no pastejo a fazenda obteve lucro. Analisando e comparando os resultados, foi possível notar diferenças significativas entre os dois sistemas: o regime de produção a pasto gerou lucro 4 vezes superior ao do confinamento, revelando-se como excelente opção para se produzir leite na região.

Visitando a fazenda Chapadão ficou claro que a escolha da raça é uma questão essencial e fundamental para implantação de um sistema virtuoso de pastejo rotacionado. A vaca, em si, é peça-chave dentro do modelo de produção. Na ocasião da nossa visita, conversamos por longo período debaixo do pivô, observando os animais. Ficou muito claro o comportamento, a disposição e diferença em termos de saúde, estado geral e condição corporal de animais ½ sangue quando comparados com alguns animais com maior grau de sangue holandês, por exemplo, que entraram no sistema por conta de compra de lotes fechados. As vacas com boa presença de sangue zebu estavam plenas, enquanto que em muitas “holandesadas” a condição corporal e o aspecto do pelo, eram visivelmente piores, mesmo consumindo boas doses diárias de concentrado e sendo bem manejadas em todos os aspectos. Nas palavras de Zé Renato, estas eram “candidatas a saírem do sistema”. Vale lembrar que não estamos aqui neste espaço fazendo apologia sobre uma ou outra raça. Estamos apenas chamando atenção sobre uma particularidade importante e determinante para o sucesso da produção em regime de pastejo.

Quando temos a oportunidade de escolher o local de implantação de um empreendimento para produção de leite no Brasil, devemos atentar para fatores importantes como as vantagens comparativas de cada região. Fatores como fertilidade do solo, disponibilidade de água, infraestrutura, assistência técnica e serviços disponíveis ao redor de uma propriedade são aspectos importantes a serem considerados. Topografia e economia agrícola da região também são fundamentai, uma vez que oferecem a possibilidade e acesso a insumos com preços mais acessíveis e, em muitos casos, maior disponibilidade de subprodutos interessantes, como é o caso de Zé Renato. Outro fator importante de ser avaliado é o mercado de terras. Enquanto no estado de São Paulo, em regiões próximas a usinas de açúcar e álcool, encontramos terras comercializadas entre R$25.000,00 a R$33.000,00/ha, na região de Morrinhos encontramos preços ao redor de R$14.500,00/ha. Essa diferença é significativa, flexibilizando a amortização de investimentos.

O projeto Porteira Adentro é uma iniciativa do MilkPoint, patrocinada pelo programa Maxi-Leite, da MSD Saúde Animal.

Texto: João Paulo V. Alves dos Santos, engenheiro agrônomo e produtor de leite

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