Mataram a IN 51: o que é preocupante na IN 62.
Depois do Natal fiz o que a muito tempo não fazia. Fui para a praia para passar o ano e tentar esquecer os problemas do leite.
No último dia do ano fui a uma padaria, comprei um litro de leite e o jornal O Estado de São Paulo. Li a notícia Brasil não vai mais produzir leite tipo B”, onde Enio Marques, secretário substituto da Defesa Agropecuária do MAPA, dizia que o MAPA iria tirar de produção o leite B e C, que caíram em desuso, e tem a produção muito baixa. Não soube dizer qual o volume de leite B produzido, mas disse que é quase nada. Ficará apenas o leite tipo A produzido diretamente nas granjas e leite que não se enquadrar como A, ou seja produzido nas granjas e levado para usina para beneficiamento será classificado apenas como leite pasteurizado.
Olhei para a garrafa do leite B Serramar, produzido pele cooperativa de Guaratinguetá, que estava tomando, e pensei: será que a partir de agora se quiser tomar um leite pasteurizado de melhor qualidade e melhor sabor serei obrigado a comprar leite A, que é mais caro que o leite B? Será que o volume de leite A produzido, que também é restrito dará para atender os que procuram tomar um leite melhor e não ficará mais caro? Como consumidor me senti prejudicado. Por que o MAPA proibiria a produção de leite tipo B? Se o leite tipo B deixar de ser produzido deveria ser por iniciativa da indústria e não por norma do MAPA tirando a possibilidade da indústria de produzir um leite pasteurizado de melhor qualidade, que é o que vai acontecer se todo leite produzido por usinas de beneficiamento for jogado na vala comum “leite pasteurizado”. Como produtor fiquei preocupado, se isso acontecer, será que a indústria não podendo diferenciar seu produto final não vai também deixar de valorizar melhor o leite produzido por produtores se empenham em produzir leite de melhor qualidade?
Pensei comigo que deveria haver algum engano na matéria.
No dia 8 de janeiro, abrindo a internet, vi que infelizmente não havia nenhum engano.
A comissão de especialistas que analisaram os problemas com a implementação de parâmetros mais rígidos da IN 51 criou a 62.
Mataram e enterraram a IN 51, criando uma nova instrução normativa que altera a IN 51, não sei se acreditando que isso poderá em si resolver os problemas de qualidade do leite ou achando que com um novo número para a instrução normativa se esquecerá mais depressa os insucessos na implantação da IN 51.
E na IN 62 de fato se eliminou os regulamentos para produção de leite tipo B e tipo C, jogando todo leite pasteurizado produzido por usinas de beneficiamento numa vala comum que não distingue qualidade.
Em termos de qualidade entendo que eliminar o regulamento para leite tipo C tudo bem, mesmo por que os requisitos para produção do leite pasteurizado eram ligeiramente superior ao do tipo C que foi extinto.
Mas eliminar o regulamento que permitia as usinas produzirem o leite tipo B, um leite pasteurizado de melhor qualidade, não dá para entender.
Por que não deixar aberta a porta para usinas de beneficiamento produzirem leite de melhor qualidade? No meu ver isso é preocupante para a maioria dos produtores, que não tem possibilidade de beneficiar o leite na sua propriedade, que fornecem leite para as usinas de beneficiamento e para o consumidor que deixa de ter a opção que comprar um leite pasteurizado melhor como alternativa de comprar o leite tipo A, que certamente será maior do que o preço do leite tipo B.
Com a eliminação do regulamento para produção de leite tipo B, em termos do produtor e do consumidor considero a IN 62 um retrocesso com relação a IN 51, e que pode ser um entrave para aumentar a produção de leite de melhor qualidade para poder atender o mercado interno e para exportação.
Com relação a implementação de parâmetros mais rígidos para o leite cru, vejo que os especialistas foram realistas com relação à CCS, prevendo uma evolução gradativa, com valores e prazos adequados para se ter como meta.
No entanto com relação à CBT, onde a melhoria dos parâmetros é bem mais simples, dependendo fundamentalmente de higiene de ordenha e disponibilidade de frio. Penso que os especialistas foram tolerantes demais nas metas, no que toca ao tempo evolução de evolução para se atingir o valor final preconizado. No meu modo de ver, havendo vontade política do governo e da indústria o valor final poderia ser atingido em 2014, e o retardo pode ser entendido como sinalização da falta de empenho do Governo e da indústria em melhorar a qualidade do leite produzido no Brasil.
Pensando na melhoria da qualidade do leite no Brasil acredito ser oportuno as entidades que representam produtores discutirem com seus filiados e depois discutirem com o MAPA e a indústria, se não seria desejável na IN 62 deixar a porta aberta para as usinas de beneficiamento produzirem leite tipo B bem como propor uma evolução temporal mais rápida para se atingir o valor final previsto para CBT, e se isso for desejável, fazer um ajuste na IN 62.
Marcello de Moura Campos Filho
Mataram a IN 51: o que é preocupante na IN 62.
Comenta as mudanças em termos de qualidade do leite introduzidas com a IN 62. Apesenta preocupações com relação a alguns pontos da IN 62.
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