O assunto dá continuidade ao último tema abordado nesta seção - "Aumento nos preços: É real ou abuso?" - quando referia-se ao comportamento da mídia e de diversos economistas que se dispunham a discorrer sobre uma realidade totalmente desconhecida e distante deles: a produção agrícola.
O aumento do dólar elevou os preços dos insumos, que, atualmente, permanecem em patamares extremamente mais elevados. Estima-se que o impacto atual de aumento nos custos de produção atinja os 25%.
O curioso é que, no caso do leite, os aumentos nos preços não chegam perto do aumento nos custos de produção, evidenciando mais uma vez qual dos setores da economia deverá amenizar a inflação dos próximos meses. Observe no gráfico a evolução dos preços do leite quando se considera índices inflacionários, no caso o IGP-DI calculado pela Fundação Getúlio Vargas.

Os valores para outubro, último mês no gráfico, já consideram os aumentos em torno de 9% nos preços do leite produzido em outubro, que foram pagos agora em novembro, em relação à produção de setembro.
Observe que o tal "aumento" de preços durante a safra simplesmente eleva os valores atuais para os mesmos patamares de preços da safra de 2000/2001 (veja o destaque no gráfico). Não se deve esquecer que o período de safra de 2001/2002 representa os piores preços históricos do leite, reflexo de uma especulação de mercado durante o período, cujos méritos acabaram gerando várias CPIs sobre o assunto no Brasil.
No gráfico também pode ser notado que, enquanto os preços do leite se mantinham estáveis desde abril de 2002, os valores eram "engolidos" pela inflação, cujo aumento não deu trégua neste segundo semestre de 2002.
Enquanto o mercado agrícola "malemá" recupera os preços de um período que já era ruim para o setor, como foi a safra 2000/2001, outros itens de consumo vão acompanhando a inflação, como é o caso da gasolina. No gráfico abaixo apresenta-se os preços da gasolina envolvendo o mesmo período e mesmo critério que foi usado para o leite.

O consumidor é apertado por muitos outros itens de consumo, para os quais geralmente se faz vista grossa quando os aumentos de preços extrapolam a inflação do período.
No caso dos gastos diretos para produção agropecuária, os preços dos insumos muitas vezes até se reduzem ao longo dos anos (considerando a inflação), porém de maneira menos acentuada que os preços pagos aos produtores.
As cotações dos fertilizantes, por exemplo, vêm acompanhando a inflação ao longo dos últimos anos, como pode ser visto no gráfico abaixo, também em reais deflacionados pelo IGP-DI, desde setembro de 1997. Foram utilizados no exemplo os fertilizantes Uréia, Super Simples e Cloreto de Potássio.

Veja que os maiores acréscimos nos preços ocorrem simultaneamente às duas maxidesvalorizações mais bruscas do Real no período, a primeira no início de 1999 e a segunda agora no final de 2002.
Hoje os preços dos fertilizantes oscilam de acordo com a cotação do dólar, podendo variar num mesmo dia, dependendo do nervosismo do mercado financeiro.
Os concentrados, principais insumos para a produção leiteira, em termos de componentes de custos de produção, tiveram incremento até mesmo em dólar nos seus preços. Além de serem cotados em moeda norte americana, os preços no mercado internacional estão em alta (leia artigo "Momento crítico" de outubro).
Para o setor leiteiro, os preços ao produtor ainda não subiram para alcançar o aumento nos custos de produção, simplesmente voltaram aos patamares de 2 anos atrás. Para alcançar o aumento nos custos, faltam uns 15% de reajuste nos preços, pouco provável que aconteça a curto prazo.
Sendo assim, a resposta à pergunta da consumidora é: Sim, as vacas comem dólar! O problema é que os dólares que elas comem são pagos em reais.