
Em fevereiro de 2002 os preços do leite pararam de recuar, iniciando um processo de recuperação nos valores pagos.
A maior parte das indústrias havia percebido que a falta de leite na entressafra era inevitável e passaram a ofertar preços melhores visando estimular a produção.
No entanto, passado fevereiro, e portanto praticamente findo o período de safra, dificilmente consegue-se respostas em aumentos significativos na produção, pois o período é pouco eficaz com relação ao armazenamento de alimentos volumosos para entressafra.
Grande parte dos produtores, ou reduziu, ou não aumentou sua produção de leite em 2002. Parte desta redução de produção foi proposital e parte foi por necessidade de venda de vacas para compensar os baixos preços do leite de 2001.
Em março e abril, os preços pagos pelo leite continuaram aumentando, chegando-se a oferecer, em algumas regiões, preços que não condiziam com a realidade de mercado.
Esta prática visava atrair produtores de outras indústrias e incentivar o aumento da produção para que não houvesse falta de leite em meados do ano.
Para que fossem pagos os valores que estavam sendo prometidos em algumas regiões, o preço subiria consideravelmente aos consumidores o que retrairia o consumo. Sabe-se que o leite é um produto de baixa elasticidade de demanda, porém, com elevações repentinas, o consumidor acaba fugindo das compras, ou pelo menos diminui as quantidades adquiridas.
Por fim, também não era possível obter aumentos consideráveis no volume de leite, mesmo que oferecessem preços mais elevados, o que fez com que a prática de oferecer valores altos aos produtores fosse menos agressiva nos meses subseqüentes.
Desta maneira o mercado seguiu mantendo-se firme até o final de 2002. A firmeza do mercado do Longa Vida possibilitou que os preços ao produtor permanecessem em alta. Observe no gráfico os preços nominais (R$) do Longa Vida no atacado nos últimos três anos.
Veja, no gráfico, que nos anos anteriores logo após picos de preços do longa vida, havia um forte recuo nos valores, causado pela retração momentânea no consumo e grande pressão por parte das redes varejistas. O mercado se abastecia de Longa Vida, pois as indústrias iam atrás dos bons preços, o que facilitava a pressão baixista.

Em 2000, a diferença entre o menor e o maior preço do Longa Vida no atacado chegou a superar os 80%. Tal condição desfavorece desde os produtores até os consumidores.
Em 2002, nos meses de março a abril, os preços do Longa Vida haviam recuperado os valores próximos de R$1,00/litro. Nestes meses, caso emplacassem os preços altos, acima comentados como fora da realidade de mercado (para aquela época), é provável que haveria um pico semelhante ao de 2000 no mercado com os valores recuando significativamente logo após a ocorrência deste pico. No entanto, tal fato não ocorreu e o mercado seguiu com elevações graduais nos valores, sempre sendo aceitos pelo consumidor.
Até meados do segundo semestre do ano, parecia que o mercado caminhava para a tão desejada estabilidade nos valores de mercado ao longo do ano. Teoricamente, com o mercado estável, seria possível reajustar valores dos produtos sem que houvesse especulação e posterior queda nos preços. A elevada oscilação nos preços de mercado é sabidamente péssima para o setor.
Não que o ano de 2002 seria bom para o produtor, mas caminhava para consistir numa transição que provavelmente privilegiaria o profissionalismo na produção a partir do ano de 2003.
Porém, como o mercado é mais parecido com uma maré tempestuosa e turbulenta do que com um lago calmo ao por do sol, todos os fatores ocorridos no segundo semestre de 2002 alteraram os preços dos insumos pagos pelos produtores. A partir de julho, os custos de produção aumentaram significativamente.
Estima-se que os custos tenham aumentando próximo dos 25% no final do ano, quando o preço do concentrado (média geral) era cotado a valores cerca de 80% superiores à média de preço do primeiro semestre (ano 2002). Os demais insumos apresentaram o mesmo comportamento.
Preços que gradualmente se tornavam bons para o produtor, tornaram-se insatisfatórios para cobrir os custos de produção. O ano termina com o produtor tendo o mesmo poder de compra que tinha no final de 2001, quando os preços eram os piores da história, conforme colocado anteriormente. Precisa-se, hoje, da mesma quantidade de leite para comprar determinado volume de insumos que era necessária no final de 2001.
Os tão comentados, e inéditos, altos preços desta safra que estamos vivendo consistem exatamente nos preços de safra da virada de 2000 para 2001, dois anos atrás, quando considera-se preços corrigidos pelo IGP-DI.
Observe na tabela a valorização de alguns produtos e índices em 2002 (preços médios do ano) quando comparados aos valores médios de 2001.



Aparentemente, pela tabela, os preços de Goiás valorizaram-se mais que nas outras praças, porém em 2001 o Estado foi palco de todas as especulações de preços, tendo, portanto, os piores desempenhos de preços do leite no país. Logo, não foi em 2002 que os preços foram superiores aos demais, mas sim em 2001 que eram extremamente baixos.
No atacado, os piores desempenhos de preços foram para os leites pasteurizados, tipo B e tipo C. Tal comportamento evidencia uma piora nas condições de cooperativas e pequenas indústrias, onde a maior parte das vendas ainda é referente a estes produtos.
Portanto, em 2002 houve valorização dos preços pagos mas, antes que se diga que o ano foi bom, vale lembrar:
- Aos produtores, os valores pagos em 2001 foram piores que os pagos em 2000, portanto tal valorização nos preços vale para o período de 2 anos.
- Os aumentos nos preços dos insumos elevaram os custos de produção em torno de 25%, portanto subindo mais que o aumento nos preços. Se o ano de 2001 foi ruim, nos valores atuais o ano de 2003 será pior para o produtor.
Em 2003 é esperar para ver. Façamos votos para que tenhamos força e paz de espírito para superar os obstáculos.