Retrospectivas e perspectivas para o setor leiteiro no Brasil

O fim do ano 2000 chegou acompanhado de nova onda de desânimo para os produtores. Saiba mais sobre as perspectivas para o setor leiteiro nesse artigo!

Publicado em: - 6 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Maurício Palma Nogueira

O fim do ano 2000 chegou acompanhado de nova onda de desânimo para os produtores, especialmente aqueles que se especializaram na crença de que sobrevive o produtor específico, voltado para a produção pura de leite, em volume e qualidade.

As leiloeiras relatam, novamente, bom movimento, com fazendas tomando o caminho da liquidação de seus plantéis, depois de um ano em que a expectativa para com o futuro do leite fortalecerá os ânimos dos produtores. Chegou-se a dizer que este seria o ano da reviravolta.

Como quanto mais alto maior é a queda, a quebra da expectativa no fim do ano e início de 2001 revolta os pecuaristas.

Entre as fazendas que cessaram as atividades, muitas são ineficientes, com a famosa confusão entre tecnologia e "perfumaria".

Desta maneira, com custos altos e produção insuficiente, a saída do mercado foi uma questão de tempo, mesmo que subsidiada por outra atividade dos proprietários.

Porém, o que é preocupante não é quando este tipo de fazenda encerra suas atividades, mas sim quando isso ocorre em fazendas com estruturas adequadamente dimensionadas, índices técnicos e zootécnicos ideais, produção por hectare anual próximo dos 25 mil litros, maximização da eficiência da mão de obra, minimização de custos, etc.

Muitas fazendas deste nível liquidaram ou estão em vias de liquidar o plantel até o fim de 2001. Algumas esperam apenas o início da seca para melhores resultados nos leilões.

Mas então está tudo horrível?

Não queremos dizer que não há lucratividade na pecuária de leite. Muitos conseguem lucros ao longo do ano e deverão continuar obtendo resultados "azuis" nos próximos, porém o tamanho da lucratividade se reduz anualmente.

Algumas das fazendas que foram liquidadas, operavam com lucratividade que, no entanto, reduzia-se ano a ano e o retorno do investimento era tão baixo que o trabalho para produção de leite não compensava. Para quem é da atividade, nem é preciso entrar em detalhes do que é a rotina de uma fazenda leiteira.

Não é justo esperar que investimentos em produção não sejam pagos.

De que vale investir se não haverá retorno? E quando se faz necessária a divisão de "pró labore" ?

Normalmente, tem se observado a captação de recursos, fora da atividade, para o giro da propriedade, para que o proprietário mantenha seu padrão de vida.

Não está se falando de uma vida luxuosa, mas sim de recursos para poder ter um período de férias por ano e manter, no mínimo, três filhos na universidade. Ou será que o produtor rural não tem direito a isso?

Nos tempos de hoje, com a situação precária do país, e por que não dizer de muitos outros países do mundo, uma condição que deveria ser evitada a todo o custo é o desencorajamento de investimentos em produção, em qualquer área que seja.

Tecnologia x subproduto

Mesmo que ainda seja possível registrar lucratividade na atividade tecnificada, com a maximização dos índices zootécnicos e minimização dos custos desnecessários, é sabido que o risco é maior e a busca por melhoria e aumento na eficiência é incessante. Por outro lado, na pecuária extensiva ou semi intensiva, com rebanho não especializado, tem possibilitado lucratividade sem muito esforço, especialmente em épocas de bons preços de bezerro para engorda.

No caso dos não especializados, não está se falando de cálculos corretos ou errados na planilha de custos, mas na forma de manejo da atividade. Na apuração dos custos, pelo método padronizado, a participação das receitas define a participação nos custos de produção.

Desta forma, se o produtor tem a maior parte de sua receita gerada na venda de animais, a maior parte dos custos é relacionada aos animais que foram criados, ficando apenas o restante para computar-se na produção de leite.

Isso faz com que o custo do leite produzido em uma propriedade que vende bezerros acabe tendo menor custo que fazendas especializadas na venda de leite, cuja receita com animais será basicamente seu descarte, e poderá girar em torno de 5% a 12% da receita total da fazenda, normalmente.

Portanto, quando o produtor de leite especializado perde os cabelos ao se deparar com custos de produção em torno de R$0,22 a R$0,24/litro, com lucratividade média de R$0,06 a R$0,10/litro, nesta época do ano, pode ter certeza que são de fazendas não especializadas.

comparação

Se a comparação de custos de produção entre especializados e não especializados serão colocadas no mesmo balaio, é melhor rever os conceitos que estão sendo colocados sobre profissionalização por todos os meios de comunicação.

Quem é mais eficiente? Quem produz mais, preza a qualidade (controle de mastite, etc), reduz custos de transporte dos laticínios; ou quem possui lucratividade na atividade?

Até agora a produção do futuro, com rebanho especializado, produção elevada por hectare e controle de qualidade, tem perdido para a produção do passado em termos de eficiência econômica.

Será que o que está sugerindo-se é que o produtor recue alguns passos na história?

Números de 2000/1999

Mesmo depois de passada a fase de chamar o ano de 2000 de o ano do leite, ainda se fala que o produtor não pode reclamar de 2000, pois os preços foram bem mais elevados que os do ano de 1999.

Realmente, se pegarmos as médias do preço cota em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás, em valores nominais de ambos os anos e fizermos cálculos mês a mês, chegar-se-á a conclusão de que o valor do leite em 2000 foi, em média, 18% superior ao de 1999. Observe na tabela 1, a valorização do leite, valor nominal, de 2000 em relação ao ano de 1999.

Tabela 1: Variação nos preços do leite por tipo e estado entre os anos de 2000 e 1999

Tabela


As elevações nos valores no atacado ficam próximas aos dos produtores.

Custos

Sempre é difícil falar de custos de leite, especialmente no Brasil, onde não há padrão, nem de sistemas de produção, nem para o cálculo de custos.

O fato é que em 2000 os custos aumentaram tanto para laticínios como para produtores.

No caso dos produtores, estimava-se no meio do ano, depois de avaliação de algumas fazendas, que os custos aumentariam em torno de 18 a 19% em relação a 1999.

Esta estimativa, feita com base na participação dos componentes de custos de produção e aumento nos preços médios em relação a 1999, desconsidera ainda os aumentos nos combustíveis ocorridos na segunda metade do ano de 2000.

Apesar de custos e preços terem aumentado nas mesmas proporções a situação de 99 era o fundo do poço, pois naquele ano os custos de produção tinham aumentado outros 14 a 16% (estimativa) enquanto os preços médios aumentaram apenas 4 a 6%, tudo em valores nominais.

Quem é o vilão

Sempre se tenta achar um vilão para a situação:

- o governo que em hipótese alguma deixa o leite subir através de alterações nas políticas externas, ou seja, leite subsidiado importado, constituindo prática de "dumping".;

- o longa vida que possibilitou a participação de regiões longíquas do mercado dos grandes centros, ou seja, leite barato em lugar de preços altos;

- a indústria, devido a políticas que atuam em detrimento do fôlego do produtor;

- há também considerável parcela de culpa na atuação das grandes redes varejistas, que tem pressionado os preços no atacado, que pressionam os produtores, que não tem como pressionar ninguém, a não ser fechando as porteiras.

Para 2001

O ano, século e milênio começa nebuloso para o produtor de leite.

Todos os fatos que exerceram influência no mercado em 2000 devem atuar no mercado de 2001, principalmente com relação aos preços dos lácteos no mercado internacional em alta, mas com alguns agravantes:

- A indústria está muito mais preparada para responder às exigências por mudanças e, sendo assim, naturalmente o produtor deverá ser pressionado. A parceria entre produtor e indústria ainda está longe de ser uma realidade.

- São esperados novos aumentos nos custos de produção, tendo em vista o aumento das exportações de farelo de soja para atender a demanda na União Européia. Desta forma, os custos dos concentrados, pelo menos as fontes protéicas devem aumentar.

É a hora de produtores e técnicos realizarem uma "reengenharia" nos sistemas de produção e administração da fazenda leiteira tecnificada. Há a necessidade também atuar no campo político, buscando união e parcerias.

Este será o desafio nos próximos anos. Retroceder ao passado tecnológico é uma possibilidade sombria.

**************


Scot Consultoria - (17) 3343-5111
E-mail: scotconsultoria@scotconsultoria.com.br
Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

Maurício Palma Nogueira

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?