O IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Amplo é um importante indicador de preços do varejo. Construído e divulgado mensalmente pelo IBGE, o IPCA considera uma vasta gama de produtos e serviços, que cobrem os setores de alimentação, habitação, artigos de residência, vestuário, transporte, saúde, despesas pessoais, educação e comunicação. Portanto, considera tudo que efetivamente uma família de renda de até 40 salários mínimos gasta para viver. O peso de cada um dos grupos é resultante de uma outra ampla e profunda pesquisa que o IBGE fez, contratando famílias em regiões metropolitanas do Brasil para anotarem os gastos que faziam. Portanto, reflete como nenhum outro levantamento, o perfil de consumo. É com base nesse levantamento que se estabelece o peso de cada produto no cálculo do custo de vida de cada uma das regiões e, de modo consolidado, do Brasil.
Ademais, o IPCA é o índice que o Governo adota para aferir a chamada Meta de Inflação. Em outras palavras, o Governo estabelece e comunica à sociedade, ao final de cada ano, qual é a inflação que se espera ter no país. À meta de inflação estabelecida convergirão as políticas de juros, de emissão de moedas e de gastos públicos, dentre outras. Ao longo do ano, se o IPCA demonstra que o país está com crescimento de preços que coloque em risco o cumprimento da meta estabelecida previamente, o Governo tomará atitudes para desaquecer a economia. Por exemplo, sobe a taxa de juros. Conhecemos este filme, não?
O gráfico 1 mostra o comportamento de três indicadores, ao longo de 2005: IPCA, Preços do Grupo Alimentos e Bebidas, Preço do Conjunto de Leite e Derivados, ambos componentes do próprio IPCA. Veja que os dados que deram origem ao gráfico estão disponíveis na tabela 1. Portanto, o gráfico e a tabela são formas de se apresentar a mesma realidade, ou seja, as evoluções de preços para se manter uma família (IPCA), de preços de alimentos (alimentação) e de preços de leite fluido e de derivados (Leite e Derivados), todos medidos no nível do varejo, média para o Brasil.
Na tabela e no gráfico, o referencial para se aferir o comportamento dos preços foi o mês de dezembro de 2004. Por isso, todos os três indicadores começam com o índice 100. Veja que, na tabela, existem índices em vermelho, artifício utilizado para chamar a atenção para os meses em que os preços caíram ou ficaram estáveis. No gráfico 1, em azul está registrado o comportamento do IPCA, mês a mês. Em verde, está registrada a evolução de preços do conjunto de alimentos e, em amarelo, os derivados lácteos. A tarja vermelha tem o propósito de facilitar o entendimento do gráfico e está picotando o índice 100 ao longo do gráfico. Toda vez que os preços ficarem acima da tarja vermelha, significa que os preços subiram acima do que eram em dezembro de 2004, que é nossa referência inicial (índice 100, portanto). Toda vez que a linha de preços estiver abaixo da tarja vermelha, o inverso é verdadeiro, ou seja, os preços estão menores que dezembro de 2004.
O que os dados revelam é que o custo de manter as famílias evoluiu continuamente. Dessa forma, excetuando-se o mês de junho, cada vez ficou mais caro comprar uma cesta de bens e serviços. Em outras palavras, o conjunto de bens e serviços relacionados à alimentação, habitação, artigos de residência, vestuário, transporte, saúde, despesas pessoais, educação e comunicação teve preços acrescidos em onze dos doze meses de 2005. Mais que isso, esse conjunto de bens e serviços, em dezembro de 2005, para ser adquirido, custou 5,1% a mais que em dezembro de 2004. Se o consumidor não teve nenhum reajuste em sua renda ao longo de 2005, significa dizer que ele perdeu poder aquisitivo ou ficou mais pobre nesta proporção (5,1%).
Já o grupo Alimentação, que congrega o custo de alimentos como pães e biscoitos, legumes, verduras, carnes, bebidas, refeições fora de casa e outros, teve um comportamento de elevação contínua até maio, quando iniciou queda de preços, que foi até setembro. A partir daí, os preços voltaram a crescer, para fechar o ano com preços somente 1,7% maiores que o início do ano.
Mas comportamento surpreendente apresentou o grupo Leite e Derivados. Os preços cresceram do início do ano até maio e junho, quando iniciaram queda vertiginosa até dezembro. Entre abril e julho a variação mensal de preços foi acima do verificado para o custo de vida, medido pelo INPC, e maior que a variação de preços do grupo Alimentação, entre março e setembro. Em dezembro de 2005, o preço do grupo Leite e Derivados foi menor que em dezembro de 2004, em 2,7%.
Os dados apresentados, que são oficiais, demonstram que, entre abril e julho, os derivados lácteos contribuíram positivamente para elevar o custo de vida das famílias, ou seja, puxaram o custo de vida para cima. Já a partir de agosto, a contribuição foi no sentido de segurar a elevação do custo de vida, ou seja, Leite e Derivados puxaram o custo de vida para baixo (linha amarela comparada com linha azul).
Um fato que chama a atenção é a comparação entre dezembro de 2004 e dezembro de 2005. O custo de vida cresceu 5,1% nesse período, enquanto que o custo da alimentação cresceu 2,0%. Mas, o surpreendente é que os derivados lácteos ficaram mais baratos em -2,7% para os consumidores!
Em resumo, se o consumidor gastava R$ 1.000,00 para manter sua família em dezembro de 2004, ele passou a gastar R$1.051,00 em dezembro de 2005, para consumir os mesmos bens e serviços e nas mesmas quantidades. Se o consumidor gastava R$ 1.000,00 somente com alimentação, um ano depois passou a gastar R$ 1.020,00 para consumir os mesmos bens e nas mesmas quantidades. Contudo, se os gastos com leite e derivados foi de R$ 1.000,00 em dezembro de 2004, em dezembro de 2005 esse consumidor gastou R$ 970,00 para consumir os mesmos bens e nas mesmas quantidades.
Gráfico 1. Comportamento do IPCA, do preço do Grupo Alimentação e do Grupo Leite e Derivados entre dezembro de 2004 e dezembro de 2005, em números-índices. Brasil.

Tabela 1. Comportamento do IPCA, do preço do Grupo Alimentação e do Grupo Leite e Derivados entre dezembro de 2004 e dezembro de 2005, em números-índices. Brasil.

O gráfico 2 e a tabela 2 reproduzem o comportamento dos preços recebidos pelo produtor de leite (linha preta) e os preços pagos pelo consumidor, para leite e derivados (linha amarela). A linha amarela já é conhecida. Corresponde à mesma linha amarela do gráfico 1 e tem como fonte de dados o IBGE. Já a linha preta tem como referência o Cepea/USP, e é uma média mensal para o Brasil. Ambas as curvas foram construídas tendo por base o mês de dezembro de 2004, ou seja, nesse mês o número-índice é 100. Já a reta vermelha tem o propósito tão somente de permitir visualizar quando os preços tornam-se menores do que eram em dezembro de 2004, o mesmo procedimento adotado no gráfico 1.
Portanto, fica claro que o preço recebido pelos produtores variou mais que o preço pago pelos consumidores no primeiro semestre. De Janeiro a junho de 2005, a variação dos preços recebidos pelos produtores foi de 11,9%, contra uma variação para os consumidores de 6,0%. De junho a dezembro de 2005 a situação se inverte, pois os preços despencaram. Enquanto os preços de leite e derivados no varejo caíram -8,2%, os preços recebidos pelos produtores caíram -28,0%. Numa comparação entre dezembro de 2004 e dezembro de 2005, percebe-se que o produtor recebeu no final deste ano cerca de 80% do que havia recebido em dezembro de 2004.
Gráfico 2. Comportamento de preços recebidos produtores de leite e preços pagos por consumidores de Derivados Lácteos, expressos em números-índices. Brasil. Dezembro de 2004 a Dezembro de 2005.

Tabela 2. Comportamento de preços recebidos produtores de leite e preços pagos por consumidores de Derivados Lácteos, expressos em números-índices. Brasil. Dezembro de 2004 a Dezembro de 2005.

Por fim, torna-se importante analisar o preço do leite ao produtor frente ao crescimento do custo de vida, mês a mês. Afinal, o preço recebido é receita para o produtor e, quando este cresce mais que o custo de vida significa que o produtor passou a ter mais renda para gastos com sua família ou para investir na sua propriedade.
O Gráfico 3 retrata esta análise. Dos doze meses do ano passado, somente entre março e julho o poder de compra do produtor se elevou, se tivermos por base o custo de vida medido pelo IPCA. Em janeiro e fevereiro e a partir de agosto, o produtor perdeu poder de compra. Além disso, os 29,46% que o produtor acumulou de poder de compra entre março e julho foram aquém dos 81,42% acumulados que ele perdeu nos demais meses.
Portanto, conclui-se que o produtor de leite perdeu com esta crise. Isso não é novidade. A indústria também, embora os dados permitam afirmar apenas para o caso dos produtores. Mas, é notória a dificuldade que os homens de laticínios vêm enfrentando. Por outro lado, nada se pode afirmar sobre o varejo, se perderam ou ganharam com a crise, pois não temos dados públicos sobre o mercado lácteo no atacado. Contudo, é inegável o ganho de renda ou poder aquisitivo do consumidor brasileiro com a evolução dos preços dos derivados lácteos. No artigo da próxima quinzena iremos analisar o comportamento de preços de alguns produtos lácteos, como leite UHT, leite em pó, leite condensado, manteiga, queijos, doce de leite e outros. Até lá!
Gráfico 3. Poder de compra mensal do produtor de leite, tendo por base o índice de preço recebido e o IPCA. Brasil. Janeiro a Dezembro de 2005.