Final de ano é o momento tradicional para se fazer balanços e análises do período que se encerra.
Dessa forma, para escrever o primeiro artigo do milênio desta coluna resolvi fazer algumas análises parciais do que ocorreu neste ano que se encerrou. Considerando a absoluta carência de estatísticas adequadas, atualizadas e confiáveis, destaco desde já que é sempre um grande risco fazer análises baseadas nos precários dados que dispomos. Mas como dizia um velho professor de estatística, "se você não dispõe de um dado confiável, invente algum convincente, pois o que não pode acontecer é ficarmos sem uma análise!". Mas ironias a parte, faço este parêntese apenas para destacar que julgo que a falta de estatísticas oficiais e confiáveis gera um problema sério para fazermos uma avaliação do setor lácteo brasileiro. No vácuo dessa carência de estatísticas, muitas informações desencontradas são geradas e grande parte delas divulgadas aos quatro cantos com a finalidade de "maquiar" algum cenário de mercado que favoreça o interesse de certas partes. Aliás, ainda acho que nesse "jogo de empurra e acomoda" que é o mercado, as cadeias varejistas acabam tendo uma vantagem comparativa extra com relação aos demais atores da cadeia agroindustrial, pois pelo menos detêm uma informação privilegiada do termômetro de consumo (demanda final). Já a informação da oferta é mais difícil de aferir, por ser mais pulverizada. Talvez as grandes empresas de laticínios tenham um nível de sensibilidade mínimo para formular algum cenário de oferta minimamente adequado. Bom, nessa história toda só quem não dispõe de informações atualizadas e confiáveis do mercado são os produtores, que não sabem o comportamento nem da oferta e nem da demanda. Talvez outro agente importante do mercado também não saiba nada - o governo -. Mas isso pode até soar como ironia para alguns e saudosismo para outros...
Bom, mas este parêntese já ficou grande demais e afinal de contas o objetivo aqui era fazer um balanço do setor no ano 2000. Então vamos as famosas "estatísticas" que neste caso tiveram como fontes especialmente os boletins do CNA com informações do MF, do MDIC além do censo demográfico 2000.

Se estes números estiverem corretos poderemos fazer algumas análises interessantes, e faço uma ressalva aqui que precisamos aguardar a confirmação dos valores referentes ao ano 2000, pois até o momento que escrevi este artigo faltavam os dados oficiais dos últimos 2 meses do ano (por isso foi usada uma estimativa para o ano 2000).
1) A produção nacional cresceu de forma significativa (5%). Quais os motivos desse crescimento?
Observa-se que o preço do leite pago ao produtor aumentou em relação ao ano passado, mas esse aumento não foi tão significativo, especialmente se acreditarmos também nas análises feitas por vários segmentos ligados à produção que alegam alta no preço dos insumos. Além disso, não esqueçamos que este ano a produção pode ter sido castigada bastante em algumas regiões pela seca. Então cabe a pergunta: onde cresceu a produção e porque?
2) As importações caíram de forma significativa em volume(16%), no entanto, considerando o aumento no preço dos lácteos no mercado internacional, tal fato já era esperado, e talvez até surpreenda que a queda nas importações não tenha sido maior. Ainda assim continuamos gastando mais de US$ 300 milhões/ano com a compra de lácteos. A queda nos gastos em US$ com importações (10%) não acompanhou linearmente a queda do volume importado em função do referido aumento de preço dos lácteos no mercado internacional. Continuamos gastando nosso "rico dinheirinho" com a compra de leite e derivados e a balança comercial, apesar de todo o esforço do governo, voltou a ficar negativa em mais de US$ 690 milhões neste ano. Parece uma sina, e o desafio para o equilíbrio do balanço de pagamentos do país é cada vez maior.
3) Somando-se as importações mais a produção nacional, chegamos a uma oferta total de leite de 22.1 bilhões de litros no ano 2000, o que representa um aumento de 2,8% na oferta. Se estes dados estiverem corretos bem com os do censo demográfico, teremos que admitir que houve um aumento real no consumo de lácteos no Brasil neste último ano. Descontando a taxa de crescimento demográfico de cerca de 1.5%, teríamos um aumento real de 1.3% no consumo de lácteos. Isso significa que o brasileiro ingeriu cerca de 1.2 litro de leite (equivalente leite fluído) a mais no ano 2000 quando comparado com 1999 (129.5 l/hab x 130.7 l/hab/ano)
Esta informação pode até ser surpreendente, considerando que o poder aquisitivo médio do brasileiro, segundo as últimas análises, caiu no ano de 2000, apesar do razoável desempenho da economia, com crescimento do PIB e leve queda no desemprego. Desta forma, não haveria muita justificativa para aumento de consumo associado ao crescimento da renda (sabendo-se que o leite e especialmente seus derivados apresentam alta elasticidade renda da demanda).
Portanto, poderia-se concluir que o preço dos lácteos no varejo não devem ter aumentado ou mesmo podem ter diminuído (é o que se observa de forma marcante, por exemplo, no preço do longa vida e alguns queijos nos últimos meses).
4) Considerando-se que a oferta aumentou de forma relativamente sensível (aumento da produção nacional) e que não há "espaço" para aumentos significativos ao consumidor (poder aquisitivo estável ou em declínio) pode-se inferir que não há grande oportunidade para aumento de preço ao produtor, até porque este seria um dos últimos segmentos da cadeia a obter qualquer vantagem de um aumento de preço generalizado na cadeia (decorrente de algum aumento de preço no varejo ou aumento de demanda).
5) Se o cenário econômico se mantiver estável, tudo leva a crer que o próximo ano será muito semelhante ao ano que findou - crescimento moderando da economia, leve queda no desemprego e salários estáveis. Se isto for verdade pergunto:
* se a produção nacional crescer a um ritmo de 5% ao ano o que pode acontecer com o preço do leite ao produtor?
* E se este aumento não for acompanhado por uma diminuição significativa nas importações (decorrente de alguma salvaguarda nacional ou de um aumento expressivo de preços no mercado internacional) ?
Respostas possíveis:
* o consumidor agradece, e o governo também (controle da inflação e manutenção do preço da cesta básica)
* os produtores podem começar a apertar mais o cinto pois o percurso do próximo ano não vai ser fácil.
* O governo só não agradece pelos mais de US$ 300 milhões que o país teria que gastar em divisas com a compra de lácteos (visto que o saldo da balança comercial é uma questão cada vez mais sensível para o governo)
Bom, e neste caso, existe algum cenário mais animador?
Creio que o cenário poderia ser melhor para todos caso as importações diminuíssem de forma significativa. Neste caso, a oferta de lácteos ficaria um pouco mais limitada e haveria possibilidade para "acomodar" um pouco melhor um possível aumento da produção nacional sem pressionar muito os preços para baixo. No entanto, tal possibilidade só poderia ocorrer em decorrência de um aumento significativo no preço dos lácteos no mercado internacional (possibilidade em potencial caso haja aquecimento expressivo da economia especialmente na Ásia e Leste Europeu) ou em decorrência de salvaguardas de proteção ao mercado interno baseado em sobretaxas de importação (p.ex. processo anti-dumping contra países exportadores de leite).
Nesse caso o país economiza "alguns trocados" (isso ajuda no saldo da balança comercial), há um certo alívio em potencial do preço pago ao produtor e tudo leva a crer que o preço no varejo não dispara se efetivamente houver aumento constante na produção nacional (portanto a inflação e a cesta básica continuariam sem sofrer pressão de parte dos lácteos).
Mas o fato é que o processo não é assim tão simplista, pois a importação de lácteos envolve uma série de questões:
a) grande parte dos lácteos importados é oriunda de países do Mercosul, e portanto o estabelecimento de taxas extras de importação é uma questão politicamente delicada apesar de não ser impossível ou inviável.
b) Muitos importadores utilizam, p.ex. leite em pó como matéria-prima (industria de massas, biscoitos, sorvetes, etc...) e estes preferem a estabilidade, oferta regular e qualidade do produto importado, mesmo pagando um pouco mais caro por isto.
Ou seja, a solução para esse emaranhado de questões não é fácil, mas certamente uma redução nas importações "daria uma mãozinha" para o setor lácteo nacional.