Preços: de olho no mercado ou nos anos passados

Observe que, nos outros anos, os preços estavam em queda desde junho e julho, enquanto neste ano os preços no atacado seguem firmes.

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Chegando no final do mês de agosto, as características da produção de leite não se alteraram, ou seja, não houve aumento significativo no volume coletado na maioria das praças consultadas. Embora tenha se registrado estabilidade na coleta diária, não houve incremento.

Os preços do leite pagos aos produtores em agosto mantiveram-se estáveis, com alguns reajustes nas médias de valores em algumas regiões. Acredita-se que a produção passe a ser incrementada em volume a partir do mês de setembro e não já em agosto, como tem sido argumentado por várias indústrias em depoimentos à mídia.

Várias análises estão sendo baseadas na expectativa de aumento na produção de anos normais para se justificar a eminente redução nos preços pagos aos produtores.

No entanto, quando os preços do mercado no atacado caem na entressafra, como ocorrido em junho de 2001, não se utiliza como base "anos normais" para manter os preços, mas sim as condições de mercado do período em questão. Quando os preços estão em alta, o que possibilitaria manutenção e até mesmo reajustes nos valores pagos aos produtores, a indústria se baseia em "anos normais".

Observe na figura o comportamento dos preços em Reais por litro do longa vida nos meses de janeiro a agosto, durante os anos 2000, 2001 e 2002.
 

 


Neste ano, os valores de atacado estão mais elevados, na média nominal de preços, que nos dois anos anteriores (veja artigo Boatos e Fatos, dia 9 de agosto).

Observe que, nos outros anos, os preços estavam em queda desde junho e julho, enquanto neste ano os preços no atacado seguem firmes.

Portanto, no atacado os preços de 2002 não seguem o comportamento de anos anteriores. O mercado de leite e derivados, cujos preços no final de agosto estão se mantendo praticamente os mesmos do final de julho, inclusive com alguns reajustes, depõe contra qualquer redução nos preços pagos aos produtores.

Outro fator que foge da normalidade no período de entressafra é o aumento nos preços dos concentrados. No decorrer de julho, os alimentos subiram cerca de 22%, em média. Apenas em meados de agosto, as elevações nos preços dos concentrados já atingiram 9,9%. De junho até a metade de agosto, os preços dos alimentos concentrados já haviam subido mais de 30%, em média.

Em um cenário como o atual, manter os preços pagos aos produtores não é caridade, mas sim um posicionamento favorável aos fornecedores de matéria-prima e à manutenção das condições de mercado (preços firmes no atacado).

A tão almejada estabilidade nos preços durante o ano parece finalmente ter sido atingida e, enquanto as ações deveriam visar manter estes ganhos, tenta-se estrategicamente reduzir os preços para garantir maiores lucros em um ou dois meses, sob risco de voltar a prevalecer as elevadas oscilações nos preços ao longo do ano. Evidente que pelas leis de mercado, os preços devem recuar em períodos de safra, no entanto, que recuem de acordo a realidade do mercado e não com base em observações de anos anteriores.

Indústrias argumentam que têm tido maus resultados devido à necessidade de garantir a produção industrial através de importações de leite a preços elevados e com o câmbio desfavorável. De fato, é uma condição desconfortável para a indústria, porém vale lembrar que em 2001 a produção nacional praticamente atingira a auto suficiência quando práticas estratégicas de mercado provocaram a redução da produção neste ano corrente. Muitos acabaram colhendo o que plantaram e levaram junto outras indústrias com menor poder de decisão no mercado.

Segundo informações de produtores, alguns preços já foram reduzidos para a produção de julho, paga em meados de agosto. Estas informações não são confirmadas pelas indústrias, mas o fato é que a redução de preços não acompanha a realidade do mercado atual, da mesma maneira que em abril deste ano, os preços de R$ 0,50/litro não eram compatíveis com o mercado.

Porém, misteriosamente, quando a realidade pressiona por baixos preços, as leis de mercado parecem funcionar melhor.

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Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

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