Os preços do leite, publicados nas cotações, referem-se à produção de fevereiro paga em março. No entanto, em algumas regiões paulistas, chega-se a negociar preços de até R$0,50/litro para produtores com volume inferior a mil litros diários, produção de abril.
Tal aumento representaria um acréscimo de cerca de 40% nos preços do leite, em relação à produção de fevereiro, o que anima qualquer produtor. No entanto, vale lembrar que os preços são formados da prateleira para trás e não da porteira para frente. Não adianta pensar em aumento de preços com base em cálculos de custos de produção (que se elevam ano a ano) se quem decide o valor é o mercado final. Com base em custos de produção, o aumento nos preços seria justo, porém, não é este o critério real para cálculo dos valores a ser pagos.
Nos últimos três anos, o preço da matéria-prima do leite longa vida (balizador do mercado, com mais de 70% da preferência do consumidor) representa, em média, 34% do valor final de atacado, com variação de 5 pontos percentuais para cima ou para baixo. Nos preços que estão sendo cogitados para abril, o valor da matéria-prima atingiria mais de 40% da composição final dos preços do longa vida, já considerando os últimos aumentos ocorridos nos seus preços.
Sendo assim, a matéria-prima estaria acima do valor máximo da participação no preço final do longa vida. Nesta altura, haveria uma pressão de alta nos preços do produto final, que seria benéfico para todo o setor produtivo, ou uma pressão de baixa da matéria-prima, ou seja, queda nos preços do leite. A alta nos preços esbarra no interesse do consumidor e, consequentemente, no interesse dos supermercados, que almejam margens e volume, independente do produto que seja vendido.
A mídia já sinalizou, na última semana, para que lado deve se deslocar a curva de equilíbrio do mercado, quando o jornal nacional "denunciou" o aumento nos preços do leite, no varejo, em torno de 35%. Pode-se esbravejar, como muitos tem esbravejado, dizendo que a comparação dos preços é feita com base em valores de vários meses atrás, porém a análise é correta.
Dentro dos últimos 12 meses, os preços ao produtor variaram 40% entre o menor e o maior valor. No atacado, e provavelmente também no varejo, esta variação média atingiu valores próximos de 35%, confirmando a denúncia da Rede Globo em horário nobre, horário este muito longe de ser ocupado pela cadeia láctea em sua defesa.
Se os preços recuarem, novamente o pico de valores terá sido antecipado e os preços mais elevados terão curta duração. Com isso, mesmo que venha a receber preços altos em um mês, o valor médio da produção anual será menor ou o acréscimo nos preços será pouco significativo, não acompanhando nem mesmo a inflação. De fato, o que interessa ao produtor é o resultado anual e não em um, dois ou três meses de produção.
Observe na tabela 1 a recepção mensal de leite nos laticínios fiscalizados divulgada pelo IBGE.
Tabela 1: Recepção mensal em mil litros de leite nos estabelecimentos fiscalizados

Fonte: IBGE
Observe que o pico dos preços ocorre nos meses de menor produção (entressafra), o que é normal com base na lei da oferta e da demanda. No entanto, atualmente, a variação de produção entre a safra e entressafra não passa de 12%, enquanto a diferença nos valores dos preços fica próximo dos 40%.
Tanto para o produtor como para a indústria, o interessante seria buscar um valor médio de preços durante os meses. Evitar esta oscilação nos preços é fundamental para a sobrevivência do setor. Anualmente, o preço será sempre empurrado para os patamares mais baixos e sempre haverá dificuldade em repassar os custos de produção (da fazenda e da indústria) para o consumidor.
Apesar de muitos analistas dizerem o contrário, há espaço para se aumentar os preços dos produtos lácteos, no entanto, o aumento não pode ocorrer de uma só vez. Há necessidade de que o consumidor associe os preços com o valor do produto que está comprando. Como já foi escrito antes, nesta mesma coluna, o consumidor atual associa preço com preço e não preço com valor de um produto de elevada qualidade alimentar.
Para que o setor consiga aumentar a receita, há necessidade de um amadurecimento entre os elos, fornecedores e compradores, visando uma política de preços melhores.
Como disse o Roberto Jank, presidente da Láctea Brasil, "estamos vendo a casca de banana na esquina e indo em direção a ela".