*Volume e sazonalidade de Produção
Estes critérios, apesar de não estarem relacionados com a qualidade intrínseca do leite, são bastante considerados para efeito de pagamento do produto, pois tanto o volume de entrega quanto a variação sazonal da produção afetam especialmente a rentabilidade da indústria. Desta forma, interessa aos laticínios, de maneira especial, captar leite junto a produtores que forneçam grandes volumes diários de leite e que apresentem baixa variação sazonal da produção. A captação de leite em grandes volumes significa uma diluição nos custos operacionais e de transporte além de uma melhor logística para recolhimento do produto. Já a pequena variação sazonal proporciona um melhor planejamento por parte da indústria e a minimização da ociosidade do parque industrial em determinadas épocas do ano.
No entanto, no trabalho realizado pela IDF, apenas 3 países (Hungria, Noruega e África do Sul) reportaram o volume de produção como sendo um critério para efeito de pagamento diferenciado do leite. Nos EUA, várias indústrias relatam a utilização do critério volume de produção para efeito de pagamento de leite. Já no Brasil, em todos os levantamentos realizados, o volume de produção desponta como o principal critério utilizado para pagamento diferenciado. No estudo realizado em 98 (CEPEA/USP), dos 93 laticínios pesquisados, cerca de 60% reportaram pagamento de bonificação em função de volume de produção.
Além disso, quando se analisa dentre estes laticínios a porcentagem de bonificação atribuída a cada critério utilizado, há um destaque especial para o quesito volume de produção, que chega a resultar num incremento até acima de 30% no preço ao produtor. Certamente no Brasil isto ocorre em função de que a grande maioria dos fornecedores de leite é formada por micro-produtores, com produção diária abaixo de 100 l/dia. Desta forma, os grandes produtores são disputados pelas indústrias, que procuram atraí-los com uma bonificação extra. Além disso, tal estratégia serve como estímulo para o aumento de escala dos pequenos produtores.
Também, a sazonalidade da produção é um critério antigo e tradicional, utilizado na definição do preço do leite para o produtor. É justamente este fator que embasa o sistema de leite cota e extra-cota no Brasil, por exemplo. Neste sistema, os laticínios definem o volume de cota de seus fornecedores, que nada mais é do que a média de produção do leite entregue à usina no período de formação de cota (entressafra). Uma vez definida a cota, a produção de leite que ultrapassar este valor no período da safra recebe uma cotação significativamente mais baixa e recebe o nome de leite extra-cota.
Este sistema também é utilizado por alguns laticínios nos EUA. No levantamento realizado pelo IDF apenas 7 países não determinaram pagamento diferenciado em função da variação sazonal.
Este tipo de procedimento funciona como um estímulo à profissionalização do produtor e como uma valorização dos produtores mais tecnificados que, em função do planejamento da dieta e do manejo do rebanho, conseguem manter a produção ou até mesmo aumentá-la durante as épocas mais críticas do ano.
*Condições de exploração/ Variáveis zootécnicas
A bonificação no preço do leite em função da adoção de certas “condições de exploração” ou “variáveis zootécnicas” é um método utilizado no Brasil que tem como objetivo estimular a melhoria das condições higiênicas e zootécnicas das fazendas. Dentre as diversas variáveis utilizadas por diferentes empresas, destacam-se: existência de curral cimentado, disponibilidade de água corrente, uso de coador do leite, ordenha mecânica, uso de inseminação artificial, controle leiteiro, ordenha coberta e escrituração zootécnica.
Como pode-se observar, tais variáveis não estão necessariamente relacionadas diretamente com a qualidade do leite; este sistema funciona como uma estratégia muito mais associada ao programa de fomento das indústrias de laticínios do que uma estratégia de melhoria da qualidade do leite. Tal prática não é mencionada em outros países tradicionais e não consta na lista da IDF e tampouco nos EUA. Já no levantamento realizado nos 93 laticínios mencionados anteriormente, cerca de 22% deles apontam a oferta de bonificação no preço do leite em função de certas “condições de exploração”.
Pode-se concluir que a utilização desses quesitos é típico de países com um setor de produção de leite incipiente, arcaico e atrasado.
*Freqüência das análises/laboratórios/transporte de amostras
A questão das análises laboratoriais é um delicado e importante tópico em um programa de pagamento diferenciado por qualidade do leite, uma vez que a espinha dorsal do programa são, justamente, os resultados obtidos nestas análises do produto.
Desta forma a confiabilidade do laboratório, a freqüência dos testes e o transporte das amostras são pontos chaves.
Quando se trata de parâmetros de análise para efeito de inspeção ou monitoramento oficial, logicamente que o laboratório onde será realizada a análise deverá ser cadastrado pelo órgão oficial. No entanto, como o foco estabelecido neste capítulo são os programas de bonificação dos produtos em função da qualidade do leite, tais análises podem ser feitas por qualquer laboratório indicado pela empresa de laticínio. Basicamente, existem 3 possibilidades: a utilização de um laboratório central terceirizado, o próprio laboratório da indústria ou um sistema híbrido.
A melhor opção depende do tamanho da empresa e do nível de qualificação do seu laboratório interno. Excetuando-se as mega-empresas, que apresentam laboratórios próprios bem equipados, geralmente a melhor opção é o sistema híbrido.
Neste caso, os critérios relacionados com a qualidade microbiológica do leite (CBT, redutase, acidez, alizarol) bem como os parâmetros físico-químicos (crioscopia e densidade) podem ser realizados na própria indústria, no seu laboratório interno, a partir de amostras “frescas” resfriadas trazidas pelo transportador de leite ou coletador na plataforma. Já as amostras para análise de composição do leite e especialmente para avaliação da CCS podem ser enviadas a um laboratório central terceirizado. Neste caso, as amostras são enviadas com conservante e não necessitam de refrigeração, o que facilita a logística. Logicamente que em qualquer situação os testes referentes à presença de resíduos de antibióticos e inibidores devem ser feitos “in loco” na própria indústria.
Com relação à freqüência das amostragens, existe uma grande variabilidade entre os diversos programas de pagamento de leite. Além disso, cada parâmetro de análise exige uma consideração particular. Desta forma, por exemplo, a presença de resíduos de antibióticos deveria ser monitorada diariamente, mesmo que isto seja feito ao nível de caminhão-tanque ou tanque de armazenamento na indústria e, caso seja encontrado resultado positivo, procede-se a análise individual dos produtores. Também, os testes para detecção de fraude (crioscopia, densidade) exigem uma alta freqüência de amostragens. Além disso os testes “de plataforma” devem ser realizados diariamente, tais como alizarol ou prova do álcool.
No entanto, para efeito de bonificação do leite, os testes mais complexos, tais como CCS, CBT e composição do leite podem ser realizados com menor freqüência, variando de 1 a 4 amostragens/mês. O procedimento mais utilizado no mundo todo tem sido as amostragens quinzenais e aleatórias (o produtor não é informado sobre o dia em que será realizada a análise do leite proveniente da sua fazenda). A freqüência de amostragens quinzenais proporciona uma boa estimativa da qualidade do leite de uma determinada propriedade e além disso apresenta custo compatível e uma logística de operação adequada.
Uma consideração especial merece ser feita aqui, no que se refere ao procedimento de coleta e transporte das amostras. Considerando que o método para coleta de amostra é um ponto crítico para o programa de bonificação, um cuidado especial deve ser dado ao treinamento da pessoa responsável pela coleta que, na grande maioria das vezes, é o próprio motorista do caminhão. A seguir, apontamos algumas recomendações práticas para a execução da coleta.
· medir a temperatura do leite
· agitar o leite do tanque por pelo menos 10 minutos
· fazer a coleta de preferência pelo parte superior do tanque e não pela torneira inferior
· utilizar um instrumento limpo e desinfetado para a coleta (geralmente uma concha de aço inox)
· observar cuidados para prevenir a contaminação da amostra durante a coleta
· fechar adequadamente o frasco após a coleta
· identificar corretamente a amostra (data, origem, observações extras)
· acondicionar corretamente a amostra para o transporte (se for amostra refrigerada, garantir a temperatura adequada; se for amostra com preservativo, homogeneizar adequadamente com o conservante). Desta forma, o treinamento dos transportadores de leite (caminhoneiros) é um item essencial para estabelecimento de programas de bonificação de leite. Este treinamento deve envolver não só questões relacionadas com a coleta de amostras mas também sobre higiene e qualidade do leite. O caminhoneiro também pode ser um excelente agente de extensão e educação dos produtores.
Por fim é fundamental ressaltar a importância da qualidade do trabalho desenvolvido no laboratório de análise. É importante que se estabeleça um programa estatístico de controle de qualidade, metas aceitáveis de variação dos resultados, controle intra e inter-laboratorial, manutenção de amostras padrão e constante atualização e treinamento dos técnicos laboratoristas.
*Freqüência e métodos de pagamento e contratos
Num programa de incentivo à qualidade do leite com pagamento diferenciado é importante que todas as regras sejam claras e de fácil compreensão. Muitas vezes. o que se observa é que em tais programas o sistema de pontuação ou bonificação acaba sendo tão complexo que foge da compreensão dos produtores, especialmente considerando que, muitos deles, têm baixo nível de escolaridade e compreensão limitada de matemática. Dessa forma, quanto mais simples e acessível for o programa, mais rapidamente poder-se-á chegar aos resultados almejados, pois somente com a compreensão clara do programa o produtor poderá estabelecer um projeto de melhoria de qualidade com vistas a uma melhor remuneração.
Além disso, é importante que o programa seja amplamente divulgado perante todos os fornecedores da empresa de laticínio, via os agentes de extensão e fomento, folhetos, jornais etc. Também, é importante que as regras não sejam mudadas com muita freqüência, pois isso desestimula os produtores a continuar perseguindo as metas estabelecidas. No Brasil, esse tipo de problema ocorre com bastante freqüência, devido à grande oscilação de produção no período safra/entresafra. Dessa forma, no momento de escassez de leite, os critérios de qualidade são relaxados enquanto que, no período em que há abundância de oferta (safra), as indústrias arrocham os critérios de qualidade.
Isso gera um desestímulo para os produtores profissionais e qualificados. Igualmente importante é o estabelecimento de parâmetros factíveis e realistas para efeito de bonificação do leite. A definição de parâmetros excessivamente severos leva a um desestímulo por parte dos produtores, pois estes passam a acreditar que não conseguirão atingir as metas desejáveis a ponto de receberem uma remuneração extra por tal feito.
Por fim, cabe ressaltar a importância da comunicação sistemática dos resultados de análises feitas, mesmo para aqueles produtores que não atingirem as metas. Essa comunicação dos resultados deve vir acompanhada de um serviço técnico de apoio que proporcione informações técnicas aos produtores sobre o que significa cada parâmetro de qualidade e quais as estratégias mais adequadas para atingir tais parâmetros.
Em termos de freqüência de pagamento, há uma variação grande nos diversos países e regiões. O método mais comum é pagamento mensal. No entanto, em alguns países o pagamento chega a ser semanal (Israel). Dos 20 países pesquisados pelo IDF além de Israel, o pagamento é mensal em 12 deles e quinzenal nos 8 restantes, da mesma forma que nos EUA.
Dentre as formas de pagamento destacam-se a transferência bancária, pagamento em cheque ou dinheiro diretamente aos produtores. Algumas indústrias dispõem de um sistema de crédito para aquisição de insumos, tais como ração, medicamentos e mesmo tanques resfriadores, sendo descontado o valor no dia do pagamento do leite. Este tipo de programa, geralmente, estimula os produtores e facilita a aquisição de insumos importantes para a melhoria da qualidade do leite (tanques resfriadores, detergentes, desinfetantes etc.).
O estabelecimento de contratos entre indústria e produtores é uma questão extremamente polêmica. No entanto, este tipo de relação formal é extremamente importante para a profissionalização e modernização do setor. No Brasil, são raros os casos de estabelecimento de contratos formais entre produtores e indústria, especialmente em decorrência de uma postura refratária por parte da última. Isto deve-se, em grande parte, à flutuação sazonal da produção no nosso país. Neste caso, a indústria sente-se livre para cortar a coleta de leite ou mesmo redefinir preços a qualquer momento. Por outro lado o produtor sente-se livre para mudar de empresa ao sabor do preço pago ou comodidade. Esses fatores levam a um cenário de baixa fidelidade indústria x produtor que não é benéfico para um trabalho de longo prazo em prol da melhoria da qualidade do leite.
Considerando que o estabelecimento de contrato é uma característica moderna de negócios, dentre os 22 países que responderam ao questionário da IDF, 15 (68% dos países pesquisados) apontaram o estabelecimento de contrato produtor x indústria.
*Condições básicas para adoção de um programa de bonificação
Em resumo, apontamos a seguir algumas condições básicas para viabilizar a implantação e o sucesso de um programa de pagamento diferenciado por qualidade do leite.
*Definição de parâmetros que efetivamente gerem benefícios para a indústria;
*Elaboração de um programa simples e de fácil compreensão por parte do produtor;
*Viabilizar um apoio técnico para esclarecer os produtores sobre o que são e como atingir os parâmetros definidos no programa;
*Não mudar as regras do programa com muita freqüência;
*Não adotar parâmetros indicadores da mesma problemática de qualidade (acidez + redutase);
*Não adotar limites excessivamente severos para tais parâmetros;
*Dispor de uma estrutura de análise laboratorial confiável e técnicos competentes;
*Estabelecer um sistema eficiente e confiável para coleta, transporte e identificação das amostras;
*Definir valores de bonificação que sejam minimamente atraentes para os produtores
*Comunicar sistematicamente e de forma clara aos produtores os resultados obtidos nas análises, as médias obtidas pelo conjunto dos fornecedores da indústria, bem como os progressos feitos
com a adoção do programa;
Tabela 1: Mecanismos envolvidos na negociação do leite