Os preços em alta!!

Para a tristeza dos produtores, não são nos preços do leite que estão ocorrendo as altas, mas sim nos preços dos insumos destinados à produção.

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Para a tristeza dos produtores, não são nos preços do leite que estão ocorrendo as altas, mas sim nos preços dos insumos destinados à produção.

Enquanto o mercado de leite equilibra-se entre a tendência de estabilidade e a tendência de baixa para os próximos meses, os preços dos insumos "levantam vôo", especialmente os dos concentrados, cujas compras representam, em média, mais de 35% dos custos operacionais totais de produção de leite.

Com relação aos preços do leite, há regiões onde já se fala em retração nos preços. Estas regiões são justamente as que foram as primeiras a reajustar os preços, e também onde se observou a agressividade de algumas indústrias oferecendo preços superiores aos valores possíveis de mercado, nos idos de março e abril deste ano.

No entanto, de acordo com o último levantamento de mercado, a maioria dos entrevistados acreditava na manutenção dos preços praticados no mês de junho para os pagamentos de julho, que estão sendo feitos nesta segunda semana. Poucos cogitavam sobre a possibilidade de novos aumentos nos valores pagos aos produtores.

A estabilidade nos preços, que vinha sendo até bem vinda para os produtores de leite, já não representa mais um cenário favorável. As altas nas cotações do dólar contribuíram para o aumento nos preços dos concentrados, que apesar de serem produtos nacionais, são indexados em dólar.

Estes aumentos, que não ocorrerão apenas para os concentrados, incharão os custos de produção nas propriedades, independente da técnica que é aplicada à produção de leite. Não há tecnologia imune ao aumento dos custos dos insumos provocados pela alta do dólar, a não ser os sistemas baseados em extrativismo ou produção orgânica, que não usam fertilizantes de baixa solubilidade e nem calcário.

Como temos observado há algumas semanas, a efetivação de melhores preços este ano para os produtores de leite não implicaria em melhores condições, mas sim numa medíocre aproximação de recuperação nos valores que foram perdidos nos últimos anos.
Com o provável reajuste nos preços dos insumos, aumentos pouco significativos nos preços do leite de nada adiantarão para a melhoria das condições do setor. Até o momento, caso os preços permaneçam estáveis, os valores pagos aos produtores servirão apenas para recuperar o que foi perdido em 2001, o que levaria os preços aos patamares pagos em 2000, porém, numa realidade de custos de produção totalmente diferente.
 

 


No mês de julho, os preços dos concentrados estão custando, em média, 24% a mais que os preços pagos em junho. O farelo de soja sofreu reajuste de até 36% nos preços, voltando aos patamares proibitivos que chegou a ser cotado em 2001. Naquele ano, no entanto, o valor do farelo de soja no mercado internacional era mais elevado. Este ano, o aumento nas cotações dos concentrados é geral, e não isolado em apenas um ou outro produto. Mesmo que possa ser feita a substituição na formulação das dietas, a maioria dos produtos se encontra em patamares de preços mais elevados.

Observe na figura 1 a evolução das cotações do dólar comercial venda desde janeiro de 1999. Em 1999, quando a maior parte dos analistas acreditava que a explosão do dólar seria favorável à agricultura, o efeito imediato foi inverso, através da correção dos preços dos insumos, aumento dos custos de produção e demora dos produtos agrícolas em recuperar a perda nos valores. No caso do leite, os preços em dólares estão longe de ser corrigidos, como pode ser verificado na figura 2, com a evolução dos preços do leite, em dólar, de abril de 1997 a julho de 2002 (considerou-se os preços de junho e julho estáveis e iguais aos de maio).

 

 



Em dólares os valores de hoje são 54% inferiores aos valores pagos pelo leite em junho de 1997. Os "altos" preços deste último mês ficam em torno de 31% abaixo da média das cotações em dólar do período.

Com relação a pergunta que mais chega à nossa sede em Bebedouro - "Qual a tendência de mercado para os próximos meses?" - é difícil saber.

- A alta dos concentrados tende a prejudicar ainda mais a recepção diária de leite, o que favorece a firmeza e até uma melhora nos preços.

- No entanto, o reajuste de preços no atacado é sempre um risco, pois caso haja pressão do varejo, ocorre novamente a tão temida bagunça no mercado, que, apesar de possibilitar picos de preços em um ou dois meses, tende a derrubar os valores a patamares mais baixos, comprometendo o resultado médio anual.

- As condições das importações e exportações de lácteos no Brasil, conforme comentado na semana passada, merecem a devida atenção, pois podemos esperar desde medidas estratégicas e especulativas das indústrias até medidas do Governo, que pode se posicionar favorável a importações (abastecimento de mercado).

Enfim, traçar um cenário mais provável fica cada vez mais complicado, porém uma coisa é certa: haverá muita especulação.

Caso os preços apenas se mantenham, o produtor novamente estará arcando com todos os maus resultados da cadeia do leite.

Um trabalho planejado para repassar as altas ao atacado seria bem vindo, tanto para as indústrias como para os produtores.

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Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

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