Os preços do leite subiram desde novembro de 2001, ininterruptamente, o que chamou a atenção da mídia não especializada. Jornais e telejornais acabaram por "denunciar" os aumentos nos preços, passando a impressão de que seriam abusivos.
Na verdade, os preços estão recuperando valores perdidos nos últimos anos. Essa recuperação só é possível pela atuação das leis de mercado: faltou leite e os preços subiram.
O Brasil vive condições de câmbio mais elevado, que acaba por inviabilizar as importações. Além do que, os preços internacionais estão altos.
No mercado interno, as crises de preços nos últimos anos provocaram desaquecimento da produção, o que foi mais notado em 2002, talvez o pior ano para a pecuária leiteira. Como não há outra saída, a resposta das indústrias e cooperativas no mercado é competir pela compra do leite dos produtores, o que se traduz em aumento de preços.
De fato, os preços médios do leite no Brasil em 2003 estão 27% acima da média dos preços de 2002, numa das raras vezes em que o aumento supera a inflação corrigida pelo IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas. No entanto, o fato não significa necessariamente que as condições estejam favoráveis aos produtores, embora estejam relativamente melhores em comparação ao ano passado.
Tomo a liberdade de citar trecho do artigo do senhor Jorge Rubez, presidente da Leite Brasil: "Nos últimos doze meses os principais índices de inflação indicaram uma evolução na faixa de 27 a 33,5%. Tivemos índices menores, com resultados de 14%, 17%, 19%, 20%, 26%, conforme a instituição de pesquisa e a metodologia adotada. Nesse ponto cabe-nos esclarecer que a vaca não come índices, mas alimentos cujos preços, esses sim, explodiram." (Jorge Rubez, 12/07/2003).
De fato, os insumos, e conseqüentemente os custos de produção, estão subindo de maneira mais acentuada que os preços do leite. Por mais que pareça absurdo, e que renda várias críticas a esta afirmação, é difícil encontrar empresas com custos de produção abaixo dos R$0,50/litro de leite.
O produtor de leite, matando um leão por dia para ficar na atividade, vê a agricultura batendo às suas portas, demandando terra para arrendar, e oferecendo renda que varia de R$200,00 a R$600,00/ha livre de riscos operacionais.
O desaquecimento da atividade não é só causado pela crise, mas também pela oportunidade de fazer o patrimônio render mais do que com a produção de leite. Para quem acha que é exagero, compareça a alguns leilões de liquidação e troque uma idéia com os empresários que estão desistindo da atividade.
Pois bem, novamente os preços subiram e teoricamente a "choradeira" dos produtores não se justifica mais. Observe na figura 1 a relação de troca, em quilos de concentrados comprados com 1 litro de leite. O concentrado foi composto de farelo de soja, farelo proteinoso de milho (refinazil ou promil), milho, polpa cítrica, uréia e minerais, simulando uma formulação batida.
Os preços dos concentrados são FOB (sem frete), enquanto os do leite são brutos, ou seja, precisa descontar o frete no preço do leite e adicionar o frete nos concentrados.
Sendo assim, na figura 2 estão apresentadas as quantidades em litros de leite para comprar 1 litro de diesel.


Eliminando inflação e preços nominais da conversa, falando apenas da moeda mais comum aos produtores, que é a relação de troca, nos últimos 5 anos o leite tem perdido seu poder de compra em relação aos insumos. Os concentrados, por exemplo, representam em média cerca de 30% dos custos totais de uma empresa produtora de leite. O diesel representa 25% a 35% do custo da hora máquina e está ligado a todas as operações mecanizadas e de transporte da agropecuária.
Observando a tabela 1 pode-se perceber que o poder de compra do produtor piorou nos últimos anos. Destacado em negrito estão os anos em que se registrou as piores trocas para o produtor de leite.
Tabela 1: Troca entre leite e diesel e ração concentrada

O produtor precisa hoje de 35% a mais de leite para comprar um litro de diesel do que precisou na média dos 5 anos anteriores a 2003.
Com relação aos alimentos, a troca só melhorou em relação a 2002 nos meses de junho e julho, quando os preços do milho começaram a cair, pressionando os preços dos outros concentrados. Mesmo assim, o volume de concentrados que se compra atualmente com a venda de 1 litro de leite é ainda 12% a 15% inferior à média dos 5 anos anteriores a 2003. Apesar da situação ter melhorado em relação a 2002, ainda é desfavorável quando comparada à de outros anos.
Portanto, de um lado, sem conhecimento de causa algum, a mídia diz que o setor leiteiro ganha muito. De outro lado está o produtor, rezando por mais altas nos preços ou, ao menos, por baixa nos insumos.
E os preços do leite, como devem ficar?
No mercado de julho, pela primeira vez desde o final de 2001, os preços do leite aos produtores perderam a firmeza, especialmente em praças como Goiás e Minas Gerais. Em São Paulo foram registradas novas altas, porém próximas a 1,5%. É provável que o leite se estabilize ou que assinale um recuo para os próximos meses. Dependerá do mercado dos próximos dias.