Para o setor leiteiro e suas dificuldades - na verdade para a agricultura como um todo - produtores, técnicos, analistas, políticos, acabam, mesmo sem querer, se prendendo a apenas uma única solução para resolução de problemas, geralmente o assunto da moda.
O exemplo típico foi o da vitória do setor leiteiro contra as importações subsidiadas no início deste ano. Apesar de boa notícia para o setor, uma conquista, o produtor não deveria ter criado a expectativa que se viu em torno dessas medidas.
Para muitos que nos telefonaram, era evidente o "estouro" nos preços do leite este ano e que não haveria surpresas como a ocorrida em 2000, quando os preços despencaram no final da entressafra.
Quebra nas expectativas
Para tristeza dos otimistas, a "surpresa" deste ano foi antecipada e pior, com a queda nos preços em plena entressafra.
Alguns analistas, baseados em argumentos concretos, acreditam que o maior problema do excessivo volume de leite advém da expectativa que se formou em torno dos preços deste ano e da facilidade do produtor brasileiro responder em produção com mínima suplementação do rebanho.
Apesar da realidade do aumento de produção na entressafra, ficou evidente que outros fatores influenciaram as condições do mercado.
Portanto, a busca por uma solução, sempre milagrosa, para o produtor de leite, traz riscos para o setor: primeiro, pela demora em buscar solução para outras questões prementes e depois, pela reação dos produtores e do setor em geral quando os resultados são pífios.
MERCADO MANDA
Tanto em 2000 como agora em 2001, deu para perceber que na maioria das vezes, não existe a percepção da origem dos futuros problemas. Esta condição deixa o produtor refém de um processo pelo qual ele não tem controle.
Segundo o USDEC (United States Dairy Council), a indústria de lácteos é o setor que mais lança produtos no mundo. Será que o motivo é um mercado é ruim?
Alguém tem ficado com todos os "louros" do agronegócio do leite e esta é uma questão fundamental para o produtor. Quem?
A indústria varejista, gigante em fase de crescimento, mostrou sua força de manipulação de mercado e despertou um outro gigante: a indústria de leite e derivados.
Nenhuma empresa foge do lucro em prol de uma "causa nobre" e é exatamente por esse motivo que o produtor está sentindo na pele o peso do mercado.
Para o produtor, as leis de mercado não funcionam, há manipulação.
Mesmo com o aumento de produção na seca, ainda o intervalo de entressafra é claro, pois a produção das águas embora também tenha aumentado além do volume estimado (entre 15 a 20%), a recepção de leite durante a seca ainda é insuficiente para reverter essa situação.
Se há manipulação, há cartel e novamente toda a atenção se voltará para a possibilidade de denúncia no CADE e na possibilidade de instalação da CPI do leite. Os produtores, por intermédio de seus representantes, poderão até provar essa perversão de mercado, porém não estarão eliminados os fatores e artifícios sempre utilizados em detrimento dos preços da matéria prima.
Para prestar atenção
As questões que dizem respeito às indústrias e ao varejo são de extrema importância e devem ser monitoradas, assim como a importação de produtos lácteos, especialmente os que são usados em programas sociais de governos. No entanto, a atenção a outros assuntos é fundamental, como alguns a seguir.
- PNMQL( Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite) - Não servirá para melhorar os preços aos produtores, pelo contrário, haverá maior cobrança e, como alguns grandes compradores já sinalizaram, as punições devem ser mais significativas que as bonificações. O programa só trará benefícios ao setor pela conquista de mercado ocupada hoje pela produção informal.
- Safristas e fronteiras - Os produtores da região sul - de São Paulo, Minas Gerais e Goiás - continuarão sofrendo a concorrência de safristas e de novas bacias. Parece ser melhor comprar leite barato com deságio do que preservar a qualidade da matéria prima. O movimento dos laticínios e a política que parece estar sendo adotada comprovam esta teoria. O PNMPL deveria pelo menos policiar esta atuação.
Observe que há uma infinidade de fatores que aviltam os preços recebidos pela matéria prima. Alguns ainda nem estão muito claros.
Em encontros de técnicos, produtores e analistas, é recomendável que se deixe as vaidades de lado e se busque todos os problemas e soluções possíveis: redução de custos, o fortalecimento das cooperativas, a conscientização do produtor, pressão política, acompanhamento do mercado e antecipação aos fatos. O setor precisa agir e não apenas reagir.
Onde mora o problema
Apesar de boa notícia para o setor, uma conquista, o produtor não deveria ter criado a expectativa que se viu em torno dessas medidas.
Publicado por: Maurício Palma Nogueira
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Material escrito por:
Maurício Palma Nogueira
Acessar todos os materiaisDeixe sua opinião!

ADILSON DA MATTA ANDRADE
MURIAÉ - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 10/10/2001
Aparentemente o PNMQL tem mais caráter punitivo, mas se unirmos em prol desta idéia o quadro seria revertido, principalmente na questão do safrista cuja infraestrutura está distante para produzir com qualidade. J
Já o produtor profissional(que investe e entra no risco), está mais perto. Diferenciando o produtor de leite do "tirador" de leite.
Difícil é acharmos mecanismos de fiscalização para que o consumidor pague diferenciadamente pela qualidade, para que isto possas ser, realmente, repassado ao produtor.
Já o produtor profissional(que investe e entra no risco), está mais perto. Diferenciando o produtor de leite do "tirador" de leite.
Difícil é acharmos mecanismos de fiscalização para que o consumidor pague diferenciadamente pela qualidade, para que isto possas ser, realmente, repassado ao produtor.