O primeiro toque de 2003

Neste começo de ano algumas indústrias já anunciaram a possibilidade de redução de preços, especialmente para o pagamento dos produtores com maiores produções.

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Neste começo de ano algumas indústrias já anunciaram a possibilidade de redução de preços, especialmente para o pagamento dos produtores com maiores volumes de produção, que geralmente recebem valores mais elevados, atingindo em média 15% acima dos preços mix (média geral).

Em alguns casos regionais, checados pela Scot Consultoria, mesmo com a intenção de recuar os preços por parte de algumas indústrias, outras logo se prontificam a pagar a mais ou manter os preços que estavam sendo recebidos pelo produtor. Portanto, o fato ainda sinaliza que há forte concorrência entre os compradores.

O recuo nos valores do mercado "spot", que voltou a ficar em torno de R$0,45 a R$0,47/litro nas principais bacias leiteiras, encoraja a iniciativa de redução nos preços ao produtor.

Porém, deve-se salientar que os preços elevados dos insumos mantém as relações de troca nos mesmos patamares do final de 2001, quando os preços eram extremamente baixos. Por isso, ainda é possível desenhar um cenário de preços para este mês mais próximo da estabilidade do que do recuo nos preços. Caso ocorram recuos, são esperados em pequenas proporções.

Mas, como o mercado tem sido caracterizado por constantes surpresas, ainda há que se observar o comportamento das vendas finais nestes primeiros dias de 2003 para se definir melhor os preços que serão praticados no campo.

No entanto, os assuntos que têm demandado maiores atenções neste começo de ano ficam ainda em torno do novo Governo. O programa Fome Zero gera expectativas positivas com relação à demanda de leite no mercado interno. Algumas estimativas sobre a necessidade e viabilidade de aumento de produção de leite para atender a demanda geraram várias discussões na última semana. O Brasil é capaz de aumentar 15% a 20% na produção de leite? A resposta é sim, mesmo a curto prazo, porém o fato só se concretiza se houver preço. Tendo preço, pode-se aumentar a produção dada a grande capacidade de resposta em produção do rebanho brasileiro, que geralmente é subalimentado. Evidentemente, tal fato só é possível durante os meses de chuva, quando há produção de forragens e o produtor pode armazenar alimentos para a seca.

As estimativas não estão erradas, o que dificulta a concretização do fato é o aumento dos preços, que não tem sido encarado como uma necessidade real pelos compradores, sejam eles consumidores finais, varejistas ou mesmo os governos nos programas sociais.

Lembrem-se que há cerca de um mês e meio, jornalistas e consumidores ridicularizaram, em plena Rede Globo, o fato dos produtores anunciarem que os aumentos nos preços deviam-se ao aumento da cotações do dólar.

Por causa direta do dólar, estima-se aumento nos custos de produção em torno de 25%, aos produtores, fora custos nas indústrias. Quanto ao varejo querer pagar menos, a conversa já é velha e permite pautas intermináveis de argumentação.

Agora foi a vez do Governo paulista suspender as comprar do leite para o programa Viva Leite, que deveria atender 720 mil famílias com o fornecimento de 15 litros de leite pasteurizado mensais para cada uma delas.

No entanto, os preços solicitados pelas empresas fornecedoras, em torno de R$0,91 a R$0,95/litro, desagradaram o Governo, que pagou em 2002 preços médios de R$0,45 a R$0,68/litro.

Segundo informações, o Governo esperava reajustes de preços em torno de apenas 15% sobre os preços do ano passado, tendo em vista o comportamento histórico dos preços do leite. Novamente, a análise de mercado é baseada apenas no passado, negligenciado qualquer fato novo ou mudanças no cenário econômico.

Os preços atuais dos fornecedores representam, no mínimo, reajustes de 33% sobre os valores pagos no ano passado. É abuso?

Observe no gráfico a série histórica dos preços do leite longa vida e pasteurizados tipo C e B no atacado, em reais nominais, nos últimos dois anos.
 

 


Como foi colocado por Jorge Rubez (Folha de São Paulo/ Milkpoint), os preços que foram pagos pelo programa em 2002 eram praticamente um assalto, o que pode ser comprovado pelo gráfico, visto que, mesmo no atacado, os preços do leite tipo C ainda eram acima de R$0,70/litro entre final de 2001 e início de 2002. Vale lembrar que os preços eram muito baixos naquela virada de ano.

Provavelmente os fornecedores fecharam acordo naqueles valores por pressão de preços e maior oferta de leite no mercado naquele período, realidade inversa a que vivemos hoje.

Analisando a série histórica dos preços do leite pasteurizado, pode-se observar que os ajustes nos valores em relação aos preços da safra de 2001/2002 foram insignificantes perto do observado para o mercado do longa vida.

Enquanto em 2002 os valores médios do longa vida foram 17,3% superiores em relação à média de 2001, os preços dos pasteurizados foram apenas 3,9% e 0,9% superiores em 2002 para o leite tipo C e tipo B, respectivamente.

Como é o mercado do longa vida que baliza os preços no campo, os valores pagos aos produtores comportaram-se de maneira semelhante em 2002, quando compara-se com o ano de 2001. No entanto, a valorização foi de apenas 12%.

Portanto, os preços solicitados pelos fornecedores de leite não são exagerados e nem abusivos. Considerando valores de mercado, são preços até modestos, visto que deverão ser mantidos ao longo do ano.

O ajuste que o Governo anunciou que aceita para o programa é de 15%, o que faria com o que o leite pasteurizado fosse entregue a R$0,51 a R$0,78/lito.

Preços em torno de R$0,50/litro são os valores que produtores mais especializados já recebem hoje. Consistem ainda nos valores próximos dos quais as indústrias deverão começar a pensar com mais freqüência, caso queiram evitar nova escassez de leite no mercado. Caso a cotação do dólar e da maior parte dos insumos não recuem, será difícil encontrar fazendas produzindo leite a custos médios anuais inferiores a R$0,50/litro.

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Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

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