- A inflação geral (IPC-Fipe) medida desde o início do Plano Real (jul/94 a fev/02) foi de 102,2%.
- O preço do leite no varejo teve um aumento nesse mesmo período de 76,5%
- Os alimentos in natura (frutas, legumes e verduras) tiveram um aumento médio de 101,6% no período
Já nos últimos 12 meses o quadro é o seguinte:
- A inflação geral (IPC-Fipe) medida foi de 7,5% em 12 meses.
- O preço do leite no varejo teve um aumento nesse mesmo período de 9,0 %.
- Os alimentos in natura (frutas, legumes e verduras) tiveram um aumento médio de 5,0% no período.
A partir desses dados primários, podemos tirar algumas conclusões óbvias:
1) O preço do leite para os consumidores aumentou em taxas significativamente abaixo da inflação nos últimos 7 anos, ou seja, objetivamente falando podemos dizer que o leite esta ficando cada vez mais barato para os consumidores (utilizando a taxa de inflação como referência).
2) No último ano o preço do leite para os consumidores subiu acima da inflação.
No entanto, cabe agora a pergunta: "Como ficou o produtor nesse cenário?"
Para responder essa questão, peguei alguns dados dos últimos dois anos (de jan/2000 a fev/2002) relativos aos preços pagos aos produtores e o preço do leite longa vida no varejo. Escolhi o preço do leite Longa Vida (LV) porque consolida-se cada vez mais a idéia de que o preço do LV no varejo ou no atacado é o grande balizador de preço para o produtor, isto porque a maior parte do leite produzido no Brasil é destinado para comercialização como leite fluído e o LV representa atualmente cerca de 70% do leite fluído comercializado no país.
Se isto for verdade, podemos afirmar que o aumento de preço do LV no mercado é benéfico para o produtor, certo?
Vamos aos números apontados pela tabela abaixo:

Quando analisamos estes números, verificamos que realmente há uma correlação altíssima entre o preço do LV no varejo e o preço pago aos produtores. O coeficiente de correlação calculado entre estas duas variáveis é de 90%. Para podermos visualizar melhor esta relação, apresentamos o gráfico abaixo:

E para refinar um pouco mais a análise, avaliei a relação entre o preço pago ao produtor e o preço vigente no varejo nos últimos dois anos, cujos resultados são apresentados na tabela abaixo:

Esta análise mostra que em média o produtor recebeu um valor equivalente a 35% daquele praticado nas gôndolas dos supermercados para o leite LV, sendo que a variação desse coeficiente oscilou de um valor mínimo de 31% até um máximo de 40%. E um dado interessante é que, quando analisamos a média dos últimos 2 anos (ano de 2000 e ano de 2001) não houve variação média desse valor. No ano 2000 os produtores receberam em média 35% do preço do LV, o mesmo valor encontrado no ano 2001.
No entanto, quando ampliamos o universo de análise para os 7 anos do Plano Real, pode-se perceber que os produtores são mais prejudicados, isto porque os preços pagos aos produtores aumentaram muito abaixo da inflação no período. Desta forma , se o leite no varejo já aumentou menos do que a inflação, o preço aos produtores aumentou ainda menos, significando que os produtores perderam margem no processo.
Dessas análises pode-se concluir que o leite particularmente foi um produto que ajudou no controle da inflação do período, assim como a grande maioria dos alimentos, configurando-se a âncora verde. Supostamente, os consumidores são os grandes beneficiários desse fenômeno, especialmente se considerarmos o baixo poder aquisitivo médio da população brasileira. Durante esse período do Plano Real, existe até o momento pelo menos uma margem de cerca de 25% de defasagem entre o preço do leite no varejo e a taxa de inflação, valor este nada desprezível, certo? Imagine que se fizermos um cálculo grosseiro, o preço do leite pago ao produtor em SP, que em fevereiro é de R$ 0,30, poderia ter sido de R$ 0,37 caso a defasagem da inflação não existisse e fosse repassada integralmente para os produtores.
Dessa forma, também podemos concluir grosseiramente, que os produtores de leite brasileiros estão "subsidiando" em parte os consumidores (pelo menos esta função é altruísta!). Mas, além disso, os produtores ainda perderam "margem" para os elos intermediários da cadeia nos últimos anos, embora isto não tenha ocorrido de forma muito evidente nos últimos dois anos.
Dessa forma, se pegarmos as estatísticas dos últimos anos, tudo leva a crer que o preço do leite vai subir de forma significativa para os produtores nos próximos meses, bem como o preço do leite nas gôndolas dos supermercados. Isso vai gerar reportagens nos "jornal nacional" da vida ali pelo mês de Junho, mostrando o leite como vilão da inflação, etc, etc..... Tudo muito previsível... Nessa hora fico me perguntando, porque nunca sai num "jornal nacional" ou num desses "fantástico" a verdadeira história de que os produtores de leite deste país são muuuuito bacanas e até subsidiam o preço do leite para os consumidores e para as indústrias e redes varejistas?
Enfim, a mensagem deste artigo é o seguinte: "prezados produtores, não se apavorem, pois o preço do leite vai subir (pelo menos até junho, julho ou agosto). Mas não que isto seja motivo para grandes emoções e comemorações, até porque, se compararmos o início do ano 2002 com os dois anos anteriores a situação não é muito favorável. Na média dos meses de jan e fev dos anos 2000 e 2001, os produtores receberam respectivamente 35% e 40% do valor praticado nas gôndolas dos supermercados para o leite LV. Já neste mesmo período de 2002 o valor foi de apenas 32%, embora a FIPE tenha apontado um aumento do preço do leite no varejo de 9,0% nos últimos 12 meses. Ou seja, mais uma vez o produtor perdeu margem.
O duro é que as perspectivas não são muito animadoras, num cenário em que o poder aquisitivo da população é baixo (o LV não pode aumentar muito de preço pois nesse caso o consumo cai) e no qual há uma forte concentração tanto na indústria quanto no varejo.