O preço do leite na União Européia e conversas adjacentes

Saiba mais sobre o preço do leite nos países da União Européia (UE).

Publicado em: - 7 minutos de leitura

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Em primeiro lugar gostaria de saudar os leitores desta coluna com um feliz ano novo, com muita paz, saúde, sucesso e prosperidade.

E para começar o ano desta secção de conjuntura vamos discutir um tema ameno, para iniciar o ano mais relaxado, já que o ano passado não deixou saudades para quem trabalha na produção de leite. E quem sabe no próximo artigo desta coluna nós já poderemos discutir as tendências de aumento de preço de leite aos produtores, se tudo correr bem...

Pois bem, o tema que gostaria de abordar aqui diz respeito ao preço do leite nos países da União Européia (UE), tema este atual em função da recente unificação monetária daqueles países. Aliás um fato inédito e histórico, resultado de um processo de organização de um bloco comercial e econômico que já dura mais de 40 anos (é nessas horas que me pergunto qual o futuro de um Mercosul da vida, no qual os países envolvidos não tem sequer uma moeda definida – vide Argentina – e muito menos uma unidade cambial, fiscal e tributária!).

No entanto, é curioso observar que, apesar desse longo processo de harmonização econômica dos países da UE, que culminou com a unificação monetária, ainda existem discrepâncias tremendas no preço dos produtos entre os diferentes países que compõem o bloco do Euro, discrepâncias essas que vêm à tona agora, de forma mais clara, com a vigência da moeda única, a qual permite uma comparação mais clara de preços e que torna explícita a diferença entre os mesmos.

Neste sentido, encontrei em uma fonte os preços do leite dos países da UE que reproduzo na tabela abaixo, acrescentando o preço desse produto no Brasil.
 

 


Uma das análises que pode ser feita é justamente sobre a discrepância de preços pagos pelos consumidores nos diferentes países. Vejam que o preço do litro de leite varia de R$ 1,24 na Alemanha até R$ 2,44 na Áustria, sendo que esses dois países são vizinhos e têm várias particularidades em comum. Confesso que tenho uma certa dificuldade em entender tal discrepância de preços. Na verdade, quando vi tais dados, logo me veio a mente a cena de 3 fazendas leiteiras que visitei na região dos Alpes Austríacos há alguns anos. Duas delas tinham um sistema de ordenha mecânica com balde ao pé, num estábulo de madeira completamente fechado, com um odor típico. Um sistema muito semelhante aos utilizados no Sul do Brasil na região de colonização européia. As fazendas tinham cerca de 30-40 vacas em lactação e eram propriedades familiares. Tive a oportunidade de conversar com os simpáticos “caipiras” austríacos, ocasião em que perguntei qual era a finalidade dos sininhos pendurados no pescoço de cada vaca, que tilintavam sistematicamente com o caminhar dos animais. A resposta foi de que o barulho do sino ajudava a localizar os animais que ficavam soltos no cume das montanhas dos Alpes, onde as vacas se dirigiam para pastar. É isso mesmo, as vacas ficavam soltas nas montanhas, e procuravam um capim suculento nativo que cresce nas áreas altas das montanhas na época de primavera e verão. Fora isso, as vacas comiam uma pequena quantidade de ração oferecida durante a ordenha no cocho, naquele tradicional sistema em que cada animal recebe uma determinada quantidade de canecas de ração, de acordo com o humor dos membros da família.

Há, eu já ia esquecendo da terceira fazenda. Essa ficava bem no alto da montanha (se fosse em MG nós falaríamos no “alto do morro”) e tinha cerca de 10 vacas em lactação, manejadas por um caboclo já de bastante idade, que operava sozinho toda a “fazenda”, com um sistema parecido com as demais fazendas, mas diferindo apenas no sistema de ordenha, que, neste caso, era manual. Isso mesmo, ordenha na munheca, lá em cima dos Alpes. “Chique no úrtimo”, não? Pois é, eu que estava lá como turista, namorando com a minha futura esposa, achei formidável. O “véinho” até falou que tinha um banco de madeira com uma vista fantástica da montanha no local em que as vacas pastavam, e que ele tinha feito aquele banco justamente para os namorados apreciarem a vista e namorarem por lá. E olha que essa história toda que eu narrei é a mais pura verdade. Imagina agora, você poder namorar, sentado num banco de madeira artesanal, no cume dos Alpes, com uma vista maravilhosa e com umas vaquinhas vermelho e branco pastando ao redor. Isso é que é paisagem bucólica. Pois bem, eu particularmente achei fantástico, só que não pude deixar de pensar instantaneamente a respeito de quem estava pagando por tudo aquilo, pois logicamente que aquele “caboclo” austríaco não tinha a menor capacidade competitiva como produtor de leite. Talvez o preço do leite pago pelo consumidor austríaco explique parte do fenômeno. Quem sabe os namorados da Áustria estejam dispostos a pagar mais pelo leite para preservar o banquinho, a paisagem, as vacas pastando, a natureza do entorno e, logicamente, a simpatia do “velinho”. Além do alto preço do leite no mercado, certamente tem algum subsidiozinho extra do governo. Isso é que o europeu chama de multifuncionalidade da agricultura, que se traduz por preservação da paisagem, conservação do meio-ambiente, manutenção do emprego nas áreas rurais e fomento do turismo, sem esquecer do estímulo ao namoro, certamente a parte mais prazerosa da multifuncionalidade da terra, até porque a taxa de natalidade nesses países europeus está assustadoramente baixa...

E é por essas e outras que os europeus protegem ferrenhamente a sua agricultura, o que gera um tremendo debate, especialmente sobre o protecionismo agrícola no mercado internacional. E nós ficamos nos debatendo pela abertura de mercados para produtos agrícolas. Sabe quando que vai haver redução do protecionismo agrícola europeu ??? Quando eles perderem o gosto pela liberdade de namorar no alto dos Alpes, com uma bela natureza no entorno...

Além do mais, talvez seja justo ter esse desejo, certo? Pode não ser justo distorcer o mercado internacional com subsídios às exportações ou com programas especiais para escoamento de excedentes que aviltam os preços no mercado internacional. Mas ter o interesse em preservar o meio-ambiente, a paisagem natural, a cultura das comunidades rurais e o emprego no campo é mais do que justo. Trouxas são alguns povos de baixo do Equador que esperneiam para ocupar a fronteira agrícola amazônica com gado de corte, por exemplo, para depois espernear para conseguir abertura de mercado agrícola internacional para vender essas commodities baratinhas. Seria mais inteligente, preservar a floresta e vender o direito dos gringos virem namorar por aqui, apreciando a macacada no cume das árvores ou quem sabe pescar um peixinho tropical. Se continuar do jeito que está, em breve vai faltar macaco para os gringos apreciarem, ou vai faltar peixe para pescar (vai faltar??) e nós vamos continuar vendendo commodities agrícolas como fazemos há 500 anos. Isto sem falar no 8o ponto de prioridade para alguns moradores desta região dos trópicos que é a preservação do direito de vida dos nossos descendentes...

E para não perder o foco lácteo, tem uma outra coisa, quanto mais fronteira agrícola for aberta, mais se pressiona o preço do leite para baixo no nosso país, pois quanto vale um litro de leite ao produtor no meio do mato da Amazônia? Imagino que bem pouco, pois a terra sai baratinho, a mão-de-obra tem custo de oportunidade baixíssimo e a fertilidade natural do solo, naturalmente adubado pela mata por milhares de anos, ainda permite uma pastagem relativamente razoável, sem uso de calcário ou fertilizantes químicos. Além disso, para levar o leite desses rincões para os grandes centros consumidores não tem muito problema, basta envasar no sistema UHT ou fazer mussarela. E você que está em São Paulo ou Rio de Janeiro ainda vai apreciar aquela maravilhosa pizza com 4 queijos... E se você tiver dúvida do impacto da expansão da fronteira agrícola sobre a produção de leite no nosso país, basta verificar onde estão localizados os estados com a maior taxa de crescimento da produção de leite do Brasil (Rondônia e Mato Grosso).

Se voltarmos a analisar o preço do leite apontado na tabela anterior, veremos que o mesmo é substancialmente mais baixo no Brasil do que em qualquer país europeu. Na média dos países analisados, ficamos com um preço de leite praticamente 50% mais barato (R$ 1,77/litro na Europa contra R$ 0,89/litro no Brasil). Certamente que isso reflete, em parte, um impacto do câmbio (Real desvalorizado ao extremo), mas também há certamente o efeito de custos de produção maiores, da maior remuneração dos produtores, até porque, atualmente, o Brasil é um dos países do mundo com o menor preço em dólar pago aos produtores. Ou quem sabe isso reflete o fato também de que não há mais fronteira agrícola para ser explorada na Europa, mas sim um rígido sistema de cotas de produção e grande atenção do Estado para com um cidadão extremamente frágil no mercado (os produtores de leite) mas extremamente importante para a sociedade.

Mas outra coisa que realmente me deixou curioso nessa tabela de dados é a tamanha discrepância no preço do leite nos diferentes países europeus. Julgo que talvez com a entrada em vigor do Euro haja um a tendência de maior homogeneização desses valores.

No próximo artigo, para continuar com esta linha de raciocínio, faremos uma comparação do preço do leite, da coca-cola e da gasolina na Europa e Brasil, analisando alguns fatos interessantes.

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Material escrito por:

Luis Fernando Laranja da Fonseca

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Beatriz Waltrick
BEATRIZ WALTRICK

OUTRO - PESQUISA/ENSINO

EM 04/02/2002

Gostei muito do artigo e do humor intrínsico. É verdade, o consumidor europeu pode se dar ao luxo de pagar mais caro pelo litro de leite se a paisagem e o meio ambiente forem beneficiados. Um exemplo que pude presenciar foram as reações do povo aqui na Holanda quando da crise de aftosa. Todos notaram a falta dos animais nos campos, o horizonte tornou-se vazio, os animais eram parte da paisagem que de um dia para o outro foram removidos. As pessoas tornaram-se saudosas e exigiram do governo atitudes rápidas, simultaneamente o preço do leite subiu, mas não houve sequer protesto, uma vez que este esforço resultasse numa rápida recuperação do setor.

Apesar de não ser mais um país agrícola, e sim industrial, a paisagem mais comum na Holanda são os campos com vacas Holandesas e ovelhas pastando à sombra dos moinhos...muito bucólico. É assim que eles querem que fique! Além do mais, é hábito dos Holandeses tomar leite, muito leite, todos os dias, acompanhando os lanches, almoço e janta. Até num bar ou restaurante, se você quiser, ao invés de uma cerveja, pode pedir ao garçon um copo de leite e ele vai lhe servir e achar muito natural.


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