Em 2001 assistimos um ano muito difícil para a cadeia láctea, principalmente para os produtores. Ao final do ano, no entanto, algumas notícias começaram a dar esperanças para o setor, como por exemplo, o início das exportações.
Evidente que não dá para haver euforia, como a que está sendo ensaiada pelo setor, em cima das exportações. Há necessidade de se analisar em quais contextos e situações ocorreram os primeiros embarques em volumes crescentes de leite em pó e, especialmente, a que preços foram colocados no mercado externo.
Os trabalhos de marketing para o mercado internacional apenas começaram, como por exemplo a estratégia anunciada por algumas indústrias que organizaram uma "trading" visando atingir o mercado externo. Já se planeja lançar a marca brasileira, acompanhando o exemplo da carne: "Brazilian Beef". No caso do leite, é provável que a campanha adote o nome de "Brazilian Dairy", conforme observado por Almir Meireles, presidente da Associação Brasileira de Longa Vida.
Além de leite em pó, cooperativas mineiras estão enviando carregamentos experimentais com leite longa vida para a China, país de extensão continental que sempre é lembrado em primeiro lugar quando se fala em mercados potenciais.
O estabelecimento do produto no mercado internacional depende de muitos fatores e não acontece da noite para o dia. A boa notícia, digna de otimismo, é que estão sendo realizados trabalhos visando este mercado e, aparentemente, serão bem feitos. Porém, acreditar que a situação dos preços do leite irá melhorar por este fator em curto período de tempo é ilusão.
Além da demora para se conquistar o mercado, outros fatores contribuirão ou não para o sucesso do leite brasileiro no plano internacional. Há a necessidade de se investir em qualidade e a melhor maneira de se conseguir qualidade e padrão no produto é através de ações conjuntas ao longo de toda a cadeia. Por mais que nosso foco não seja os mercados selecionados, pelo menos momentaneamente, o que leva-se a crer que não há tanta exigência de qualidade, vale lembrar que os valores e a qualidade intrínseca do produto serão balizados pela oferta padrão do produto no mercado. Existe e ainda existirá no mundo muito produto subsidiado, que pode até diminuir em quantidade durante alguns períodos mas certamente voltará a aparecer.
Caso não se atente a estas variáveis, corre-se o risco de só exportarmos a preços extremamente baixos, o que acabará não interessando para a cadeia láctea brasileira.
Ao mesmo tempo que se batalha mercados nacionais, não se pode negligenciar o mercado interno. Afinal, juntamente com a China e outros gigantes, o Brasil é um dos maiores mercados potenciais do mundo. Dentro de um pragmatismo moderado, de nada adianta atentar-se apenas para o mercado internacional se negligenciarmos o mercado interno.
Na briga das indústrias pela competitividade e lançamento de novos produtos, o que é presumível e saudável, algumas idéias inovadoras podem acabar provocando problemas no futuro.
Como exemplo, pode-se citar o caso da adição de soro no leite em pó, ou leite fluido a base de soro na sua composição, como várias vezes entrou na pauta de discussão.
Apesar de ser uma saída momentânea para as indústrias, como ocorreu no caso da bebida láctea, a longo prazo pode gerar confusão para os consumidores. Mesmo que se dê outro nome que não leite ao produto, ao final se comparará leite com o novo produto a base de soro, criando uma concorrência entre os duas coisas distintas.
Ao final, esta estratégia contribuirá para reduzir a qualidade do produto apresentado à população e reduzir também a receita total das empresas. As indústrias terão a quem repassar e o produtor, como sempre ocorre, acabará ficando com as amarguras do péssimo mercado.
O problema de preço de leite ao consumidor final não parece ser tão importante na decisão desta estratégia, uma vez que gasta-se por habitante, em média, mais do que 2,5 vezes com refrigerante do que com leite fluído no país. Como sempre temos colocado, o problema de consumo de leite no Brasil é mais cultural do que falta de dinheiro, apesar da pobreza da população contribuir muito.
Dentro do país, o potencial de mercado é enorme e não deve ser negligenciado. Trabalhos conjuntos e planejados visando o fomento do consumo de leite devem ser levados a cabo, pois corre-se o risco de dar peso apenas a um dos pratos da balança.
Investir em qualidade, e nos interesses comuns da cadeia, pode até parecer pouco interessante e pouco rentável atualmente, mas a longo prazo ficará evidente que o consumidor brasileiro vai atrás das mesmas condições que o consumidor do mundo inteiro: qualidade intrínseca e benefício com os produtos.
O mercado também é um desafio interno
Evidente que não dá para haver euforia, como a que está sendo ensaiada pelo setor, em cima das exportações. Entenda melhor, acesse.
Publicado por: Maurício Palma Nogueira
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Maurício Palma Nogueira
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