As mudanças não são isoladas para o mercado de leite. Várias revistas, jornais e publicações científicas trazem assuntos voltados às mudanças ocorridas no mundo e os impactos gerados na população.
A nova doença (que já não é tão nova) chamada estresse, reduzindo a idade de incidência de ataques cardíacos, as mudanças de hábitos, empresas se modernizando e valorizando o conhecimento e a capacidade de absorver informações, os jovens no mercado de trabalho aflitos com a incapacidade de demandar toda a oferta de informações, competição em todos os níveis - até para as religiões, etc.
Todos esses fatos e mudanças foram sendo absorvidos pela sociedade, que precisou encontrar alguma maneira de conviver com eles: precisava arrumar tempo. Mais do que nunca, tempo vale ouro e a sociedade precisou e vai continuar precisando deste ouro. Houve evolução no comportamento do consumidor e alguém estava lá para ofertar a demanda pelo produto mais nobre do fim do século passado: o tempo!
Quem não acompanha a linha evolutiva, vira dinossauro; dinossauros no mercado têm o mesmo fim que os dinossauros biológicos: entram em extinção ou viram "galinha" (no bom sentido, é claro).
As empresas de informática cresceram, pois proporcionaram tempo. Um funcionário rende mais no mesmo serviço que antigamente. As empresas aéreas, apesar da crise financeira, vem abocanhando clientes basicamente por reduzir o tempo destinado à locomoção e assim por diante.
No mercado de alimentos, os supermercados ofereceram tempo para o consumidor com várias facilidades fornecidas desde o acesso, a variedade de produtos, facilidade de compra e negociação, serviços de entrega, etc. Hoje, num supermercado se encontra roupas, eletrônicos, pneus, objetos para residência, móveis, produtos de limpeza e até alimentos.
Resumo: as grandes redes varejistas somam resultados financeiros espetaculares em todo o mundo.
Como estas redes cresceram sobre as margens e o giro da mercadoria, o hábito do consumidor adequado para os seus resultados baseia-se num elevado número de clientes que entram no estabelecimento, compram o máximo que podem e precisam, e saem o mais rápido possível. Nenhum empresário quer o estabelecimento lotado, pois pesquisa realizada no Reino Unido identificou que pessoas num shopping lotado apresentavam o mesmo nível de estresse que um piloto de caça em combate.
Portanto, para atender o hábito de compra nos supermercados, o leite precisava apresentar uma embalagem apropriada e durar, pelo menos, uma semana. Considerando os fluidos convencionais, dois produtos poderiam atender este mercado: o leite pasteurizado de excelente qualidade, hoje comercializado em embalagens tetra rex, e o longa vida, processo U.H.T., que permite a utilização de leite de qualidade inferior.
Além de não haver oferta suficiente do produto de qualidade superior no mercado, que permitiria maior tempo de armazenamento, outros interesses entraram em jogo, como buscar leite em outras bacias, comprar matéria-prima mais barata, etc.
As empresas que apostavam no longa vida foram mais ágeis que as que dominavam o mercado de pasteurizados e teriam condições de emplacar um novo produto no mercado, adaptado às novas condições. O longa vida se consolidou e o brasileiro, mesmo o mais exigente, acabou aceitando leite proveniente de matéria-prima de pior qualidade (não que o longa vida seja de má qualidade) quando comparado com um leite B pasteurizado, por exemplo.
O longa vida proporcionou maior concorrência entre as empresas, abriu espaço para que bacias distantes do mercado consumidor pudessem competir no mercado de fluidos, enfim, veio junto e participou de todas as mudanças do setor que têm aumentado ano a ano a crise e a insatisfação no campo.
O salto do longa vida foi tão grande que hoje, com 18% do volume de leite total disponível no Brasil, é o balizador de todo mercado.
Porém, o longa vida é só problema para o setor? Observe na tabela a evolução do consumo de fluidos na década.

Fonte: IBGE/ MAARA/ SUNAB/LEITE BRASIL/ABLV/ ABIQ/O Agribusiness do Leite no Brasil/ estimativas da CNA/Scot Consultoria
O longa vida, além de tomar mercado do leite tipo C, pode ter aberto mercado para o consumo de leite. Neste mesmo período, o consumo "per capita" aumentou 23%.
Apesar de não concordar, há linha de analistas que acreditam que o pasteurizado perderia espaço trazendo a redução do consumo de fluidos no Brasil, caso não houvesse o longa vida. Particularmente, acredito que o pasteurizado, mesmo que tarde, responderia aos acenos do mercado mudando a forma de apresentação do produto, como já existem marcas altamente atraentes. A verdade é que o longa vida chegou primeiro, com mais recursos para investimentos e num mercado que pedia mudanças. É por isso que estão aí, foram eficientes e conquistaram mercado. Hoje, para ter um lugar ao sol, as empresas acabam tendo que produzir longa vida.
Muitos têm discursado que precisa mudar a situação do longa vida, enquanto outros defendem com unhas e dentes, desencorajando qualquer iniciativa de mudança.
A verdade: claro que precisa mudar, sempre tem que mudar - essa é a única certeza além da morte. Porém não voltar para trás. O mercado é vivo e ávido por mudanças, desde que sejam boas e tragam benefícios.