O leite rumo às fronteiras

Normalmente temos escutado falar das bacias leiteiras promissoras do Brasil, que apresentam grau de crescimento de produção acima da média geral dos demais.

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Maurício Palma Nogueira

Normalmente temos escutado falar das bacias leiteiras promissoras do Brasil, que apresentam grau de crescimento de produção acima da média geral dos demais estados. Dentre esses casos, o mais famoso é o do Estado de Goiás, consolidado entre as mais importantes bacias leiteiras do País.

O centro produtor se distancia dos centros consumidores, onde ainda há muito espaço para o leite crescer, pois a produtividade e a escala de produção ainda são muito reduzidas. Esta situação deixa os produtores mais especializados de regiões como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul de "cabelos em pé".

Afinal, com que leite a produção profissional das regiões sudeste e sul estarão competindo? Observe que, em termos de produção de leite, o Estado de Goiás já pode, e deve, ser classificado nos mesmos níveis das bacias mais tradicionais. O leite neste Estado não é mais "fogo de palha", como acreditava-se anteriormente.

A opção brasileira, juntamente com o eficiente trabalho de marketing do leite longa vida, possibilita o consumo de leite fluído de regiões cada vez mais longínquas. De 1990 até o momento, a participação do consumo de leite longa vida no mercado de fluidos aumentou de 4% para cerca de 70% entre os brasileiros.

Já se observa o movimento estratégico das indústrias rumo ao Mato Grosso, Rondônia e outros estados, antes considerados de baixo interesse. Rondônia tem sido constantemente citado como o Estado que deve surpreender em termos de produção.

Na região norte, Pará especificamente, dá para se notar um aumento na intenção de produzir leite. Fazendas que dificilmente apresentavam em sua rotina diária a chegada de um caminhão "batendo latas", hoje convivem com a nova realidade. O cálculo é simples: se do rebanho de vacas de cria de corte, apenas 100 mantiverem uma média de cinco litros diários, o pecuarista enviará ao laticínio cerca de 500 litros por dia, aumentando a rentabilidade e pagando a folha de alguns empregados. Muitas vezes, tal venda consiste em acordo para fixar o funcionário na fazenda, permitindo que parte deste leite seja dele, através de resultados na cria dos bezerros. Quer leite mais barato que este?

Nesta região, o leite vai para laticínios pequenos, muitas vezes informais, onde é transformado em queijos para atender aos centros consumidores próximos (muito comum no MT) ou é pasteurizado, para atender o mercado regional. Nas prateleiras, em cidades médias do interior paraense, dificilmente encontra-se leite longa vida à venda.

Estas regiões, no futuro, tendem a caminhar no mesmo sentido do Estado de Goiás, ou seja, buscando-se a profissionalização. Goiás, que inicialmente era apontado como um Estado de produção de leite de vacas de corte, tem se profissionalizado anualmente, inclusive sendo a região do País com maior força e representatividade junto ao governo, na defesa dos interesses dos produtores de leite.

A preocupação procede nos estados mais tradicionais na produção leiteira, pois o preço do leite certamente será nivelado por baixo. Porém, em termos de produção, as grandes bacias estão perdendo espaço ou não?

Observe na tabela 1, o crescimento anual da produção de leite em alguns estados do Brasil, durante o período de 1990 a 1999, segundo pesquisa municipal do IBGE.

 

Tabela



Observe que tanto Goiás, Pará, Mato Grosso e Rondônia, aumentaram a produção em níveis bem acima da média anual do aumento de produção no Brasil. Em São Paulo, até 1999, a produção reduziu-se cerca de 0,26% ao ano.

No entanto, falar em porcentagem pode permitir alguns enganos analíticos, como se observa na tabela 2, com o volume de leite aumentado ano a ano em cada uma das mesmas regiões.

 

Tabela



Observe que, em termos percentuais, enquanto o Estado de Rondônia aumentou sua produção em proporções bem mais elevadas que os demais, em termos de volume, o Estado de Minas Gerais ainda é o que possui o maior aumento de produção ao ano, seguido de Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul.

Anualmente, de 1990 a 1999, São Paulo deixou de produzir 14,4 mil litros de leite por dia. Esta redução não significa que a produção no Estado esteja perdendo espaço e importância, uma vez que São Paulo fica apenas atrás de Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É bom lembrar que a crise afetou, de imediato, mais o produtor paulista do que os demais, dadas às características de produção e do consumo de leite regional em São Paulo. O Estado pode e deve ter sido o mais afetado por todas as mudanças ocorridas durante a última década.

Ainda pode-se aliar ao fato as variadas alternativas de produção no Estado, com muita busca por arrendamento, tanto de cana como de laranja, culturas que sempre avançam na paisagem paulista.

Para ver se São Paulo saturou sua capacidade produtiva, basta dar uma olhada na realidade do Estado, onde 50% da área ainda é coberta de pastagens, segundo dados do LUPA (1996). Assim como em Minas, há muito espaço para aumento da produção paulista, portanto, resta saber se compensa, pois neste ano ou no próximo, caso as estimativas de aumento de produção da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) se concretizem, o Brasil será auto-suficiente em volume de leite produzido. Apesar de já haver relatos de exportação por parte de algumas indústrias (pouco significativo), o Brasil já estará pensando em exportação de excedentes.

Neste cenário, existe o problema de se entrar em um mercado com produtos subsidiados e fortes barreiras protecionistas, embora os preços no mercado internacional sejam elevados.

Como disse um colega outro dia, é para pensar no assunto....

 

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