O cenário atual e perspectivas de curto prazo

Por mais um mês manteve-se, no atacado, a estabilidade de preços e a firmeza no mercado do leite Longa Vida.

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Por mais um mês manteve-se, no atacado, a estabilidade de preços e a firmeza no mercado do leite Longa Vida.

Cita-se sempre o Longa Vida pelo fato de que sua importância crescente, dentro da preferência do consumidor, o levou à condição de balizador de preços no mercado, ou seja, há uma tendência de que o mercado do Longa Vida dite os rumos dos preços que serão pagos no campo. Apenas para efeito de curiosidade, hoje já existem correntes apontando como balizador o mercado de leite em pó, destinado às indústrias. De fato, com a possível consolidação do Brasil como país exportador de leite e derivados, é provável que a importância do leite em pó no mercado ganhe terreno num futuro bem próximo.

Pois bem, com a alta dos custos de produção, a manutenção dos preços pagos aos produtores acaba não se traduzindo em ganhos significativos em termos de resultados econômicos nas empresas rurais. Para ser mais claro, manter os preços nos atuais patamares, o que parecia bom há três meses atrás, já não resolve para o produtor. O preço do leite precisaria subir em pleno período de safra.

Embora pareça insanidade, visto que a produção aumentará de fato, os preços dos fertilizantes e dos concentrados desencorajam a resposta em produção. A indústria já apontou para o não pagamento do extra cota, o que leva o Brasil às mesmas condições do início de 2001: estímulo da produção de baixa tecnologia e estoques para a entressafra do próximo ano. Parecia que o setor sairia daquele círculo vicioso de especulação e oscilações nos preços e na produção, e agora parece lentamente ensaiar um retorno para tal situação. Evidente que não podemos esquecer o período de nervosismo e incertezas com relação à sucessão presidencial em meio a uma crise global de proporções maiores do que a que passamos internamente.

É neste contexto que a firmeza do Longa Vida no mercado poderia funcionar como aliada para melhorar e recuperar lentamente os preços pagos aos produtores. Até o momento, em relação a 2001, a indústria reajustou os valores médios do Longa Vida em 8% (valores nominais) enquanto no campo, o reajuste foi de cerca de 2%. Portanto, haveria espaço para aumentos.

Para quem acha que é ingenuidade pregar a hipótese de repasse de preços, o fato é que as importações que foram feitas pelo Brasil, de janeiro a agosto deste ano, ocorreram a preços em torno de US$1.500,00/tonelada, segundo o MDIC.

Considerando a cotação média do dólar, de janeiro a agosto, este leite entrou no Brasil a um preço "líquido" em torno de R$0,44/litro, em média. Tal valor é R$0,10/litro ou 29,5% acima do preço médio "bruto" da matéria prima no mercado interno, considerando o "mix" ou valor médio de todo o leite coletado pelas indústrias.

Fazendo o mesmo cálculo para os preços atuais (US$1.400/tonelada de leite em pó) e considerando a atual cotação do dólar (R$3,70), a estimativa do valor de entrada do leite importado no Brasil seria de R$0,54 a R$0,55/litro livre, na melhor das hipóteses, desconsiderando os custos operacionais, ou seja, produto em pó no porto.

Evidente que o valor a ser pago no mercado interno ao produtor nem se aproximará dos preços de importação, pois nestes valores a indústria operaria sem resultados financeiros. Lembre-se que quem manda nos preços é o mercado, no caso do Brasil, o mercado interno.

Porém, o atual cenário abre perspectivas que tornam interessante incentivar a produção interna, e a melhor maneira para a iniciativa privada obter tal conquista é através de preços.

A possibilidade, ainda pequena, de repasse de ganhos aos produtores só pode ser concretizada com a firmeza do mercado de leite ao consumidor, o que tem sido uma constante nos últimos meses.

No entanto, em setembro, os preços do varejo (pagos diretamente pelo consumidor) começaram a se distanciar dos preços do atacado (preços de venda da indústria). Por conta, sem que houvesse aumento dos preços da indústria, as redes varejistas passaram a praticar preços mais altos no mercado de leite Longa Vida, conforme pode ser observado no gráfico.

Enquanto o atacado se manteve nos atuais patamares de R$1,10/litro, os preços médios do varejo no final de setembro aumentaram 4,6%. No primeiro dia de outubro já era mais comum encontrar preços de Longa Vida em torno de R$1,35 nas prateleiras dos supermercados do interior de São Paulo, o que implica em aumento de 12,9% em relação a meados de setembro.

Nas últimas semanas, portanto, o preço que o consumidor paga aumentou sem que houvesse repasse à indústria e, principalmente aos produtores. É o varejo recuperando suas margens no Longa Vida, como também pode ser constatado no gráfico.
 

 


O fato pode jogar "areia na engrenagem" de todas as pretensões de recuperação nos preços para cobrir o aumento nos custos de produção. Ainda está fresco na memória dos produtores o que acontece quando o leite aumenta de preços repentinamente, como foi em 2000 e 2001. Em 2002, sem oscilações elevadas no mercado do Longa Vida, caiu a crença de que o leite não poderia ser vendido a preços próximos de R$1,20, pois praticou-se preços mais elevados e o mercado aumentou em torno de 18,5% no primeiro semestre segundo pesquisa divulgada pela ACNielsen Consultoria.

Porém, elevações repentinas nos preços espantam os consumidores.
No início de outubro foi divulgado o índice de inflação, em elevação, colocando como principal culpado o aumento dos derivados de trigo (macarrão, pães, bolachas, etc.) no item alimentação. O fato se deve à perda de produção das lavouras do sul do país com as geadas ocorridas no início de setembro.

É provável, caso esses aumentos persistam, que no final de outubro o leite seja identificado como um dos vilões, causador da inflação.

É o filme se repetindo e, novamente, nem produtores e nem as indústrias verão a "cor" desse dinheiro. O preço de mercado tenderá a recuar no varejo para os patamares de setembro, pressiona-se os preços da indústria e o varejo consegue manter suas margens. Quem paga o "pato", ou melhor, o "mico" é o produtor.

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Material escrito por:

Maurício Palma Nogueira

Maurício Palma Nogueira

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JOÃO BATISTA FREIRE
JOÃO BATISTA FREIRE

OUTRO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/10/2002

Se continuarmos pensando que o Leite Longa Vida é a solução p/ nós produtores
rurais, podemos sair do mercado. O longa vida é bom p/adicionar soro etc.. e desestimular o aumento do consumo. É bom para a indústria pagar um prêço aviltado ao produtor, precisando de leite de baixa qualidade.

<b>Resposta do autor:</b> apenas para lembrar, gostaria de frisar que as colocações sobre o longa vida no artigo nada tem a ver com ser a favor ou contra ou acreditar que o produto é a solução para o produtor.

Também não é nosso objetivo fazer campanha de qualquer produto colocado no mercado lácteo.

As análises da Scot Consultoria se resumem em pesquisar, avaliar e apontar possíveis cenários com base na simples observação do mercado.

As colocações feitas com relação ao longa vida devem-se às seguintes constatações:
- Ano a ano aumenta sua preferência por parte do consumidor, tendo hoje ultrapassado a marca dos 70% de participação do mercado formal de leite fluídos. A tendência é que em 2002 aumente ainda mais a sua participação, visto o comportamento dos preços e os dados pesquisados pela ACNielsen, os quais foram feitas referências no artigo.

- Nos últimos anos, o comportamento do longa vida no mercado atacadista tem sido fundamental para a definição de preços ao produtor, o que nos obriga a olhá-lo (o mercado do longa vida) com mais atenção para que seja possível analisar o que ocorrerá com os preços no campo.

- Nos últimos meses, está se desmitificando a crença de que o longa vida só pode chegar ao consumidor a preços abaixo de R$1,00, o que nos chama atenção para alertar todo o setor. Preços baixos não interessam nem para produtor e nem para indústria.
Enfim, a equipe da Scot Consultoria tem que realizar as análises com base na seguinte realidade:

- Ninguém, em qualquer parte do mundo, produzirá qualquer produto que seja sem que o mercado queira e pague por ele. Por isso não negligenciamos a importância do longa vida no atual mercado de leite.

- Hoje, no mercado globalizado (ou mundializado como preferem alguns), as informações e opções são tantas que quem não respeitar a preferência e a necessidade do consumidor fatalmente sairá do mercado, mesmo que não queira. No caso do leite fluído no Brasil, este produto hoje é o longa vida.

- Portanto, para que sejamos capazes de realizar uma análise mais fidedigna do mercado, não podemos deixar de falar do produto de maior importância no volume comercializado no país.

- Certamente o longa vida não será o produto final e eterno na preferência do consumidor, assim como não se eternizou o consumo de leite em garrafas de vidro e o do pasteurizado em saquinhos. No entanto, com as atuais opções disponíveis no mercado, o consumidor já deu seu veredicto, o que é constatado em qualquer pesquisa de consumo. A única alternativa que resta para o setor, e para os que não apostam no longa vida, é a inovação - palavra da moda no meio empresarial deste início de século.

Quanto a fraudes na fabricação do longa vida, que realmente existem, não é da nossa alçada entrar nos méritos, pois cabe a autoridades competentes. Nosso foco é mercado. Sempre que as fraudes podem ser constatadas via análise de mercado, fazemos alusão ao fato. Vale lembrar que as fraudes depõem especialmente contra o próprio longa vida.
Mesmo sendo produtor de leite, é minha função como membro da Scot Consultoria tentar ser o mais imparcial possível nas análises de mercado. O que eu penso ou deixo de pensar do longa vida só interessa para o mercado quando eu vou às compras. Nas análises, temos que nos basear nos fatos, e contra fatos não há argumentos.

Maurício Palma Nogueira
engenheiro agrônomo da Scot Consultoria e produtor de leite
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