Em meio à crise do setor provocada pela política cambial, com a maioria dos bens de produção indexados em dólares, vive-se um redução nos preços do leite em plena entressafra, e pasmem, algumas análises estão apontando para queda nos custos de produção em fazendas leiteiras.
Entre os motivos apontados para a suposta redução desses custos, está o avanço na tecnologia de intensificação de pastagens o que, sem sombra de dúvidas, consiste num sistema de produção que demanda menos despesas.
Porém, fazendas que intensificam o uso das pastagens e produzem com elevado rendimento por área também tem seus custos indexados em dólar, na compra dos insumos, por exemplo. Além do que, durante metade do ano, os custos praticamente são os mesmos das fazendas de confinamento, com exceção dos investimentos em estruturas indispensáveis, quando se fala em confinamento exclusivo.
Em média, no Brasil, produz-se nem 800 litros de leite por hectare/ano. O sistema a pasto só permite redução de custos se houver maximização do aproveitamento da área para produção de leite. Pesquisadores do Departamento de Produção Animal da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq), centro de excelência no assunto, apontavam como meta a produção de 35 mil litros de leite/hectare/ano, para uma lotação animal bem aquém do potencial de produção das forragens.
Qual volume de leite o Brasil estaria produzindo, caso o investimento em pastagens fosse suficiente para baixar significativamente o custo de produção? Quanto já não estaríamos exportando?
Se o produtor ampliasse em 400% o volume de forragem produzida por área, de modo a influir na média brasileira, a produção nacional teria estourado e, em média, o rendimento anual por hectare do produtor ainda não atingiria os 4 mil litros de leite. Mesmo assim, os custos estariam apertados, quando não acima dos preços pagos pelo mercado.
A realidade do Brasil é outra. Na melhor das hipóteses, o produtor brasileiro, em média, "tira" 70 litros de leite por dia. Estamos falando de um país de produtores sem escala de produção.
A única possibilidade para os custos terem diminuído no País é o aumento nos preços do bezerro destinado ao mercado de engorda.
Principalmente em fazendas que não investem em tecnologia e tratam o leite como subproduto, além dos custos serem menores, o rateio no cálculo geralmente é feito com base na participação da receita. Se 50% da receita provém da venda de bezerros, 50% do custo total é da produção de bezerros. Bezerros valorizados, menor rateio para o leite, custo mais baixo. Evidentemente, depende de alguns critérios adotados para cálculo de produção.
Portanto, quem contabiliza atualmente custos mais baixos que em anos anteriores, dificilmente está utilizando tecnologia e provavelmente tem no bezerro uma das principais fontes de renda. Mesmo os que realmente estão ganhando eficiência, mediante queima de "gordura" nos custos, ainda não estão em situação confortável que permita baixar os preços da matéria-prima.
Reter o bezerro não é anti-tecnologia, aliás pode constituir-se em alternativa a ser analisada pelo produtor, mesmo o especializado, desde que mantenha a qualidade e persistência no volume do leite produzido.
Porém, investindo e produzindo com tecnologia, nem que todos os bezerros nascessem gêmeos, o problema de custos de produção não estaria resolvido. A adoção de tecnologia permite ganhos, mas ainda depende-se de preços. A tecnologia por si não é milagrosa. Infelizmente, ainda não dá para se negligenciar o aumento nos preços dos insumos e dos bens de capital.
Nós, brasileiros, não temos o menor custo do mundo, temos o menor preço recebido.
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