Se analisarmos a dinâmica das importações de leite e derivados desde 95, ou seja, após o plano Real e com a economia estabilizada, veremos que dependendo do prisma pelo qual se analisa o dado, a situação até que não é tão ruim, pois o que se observa é uma tendência bem definida de queda contínua das importações de lácteos, como pode ser visto na tabela abaixo:

Poderíamos apenas ponderar que essa queda é pouco acentuada, mas o fato é que passamos de um volume importado em 1995 de cerca de 2.8 bilhões de litros (equivalente leite fluído) para cerca de 1.8 bilhão em 2000, ou seja, uma redução de 1 bilhão de litros.
Analisando essa questão em perspectiva, podemos dizer que o cenário é até positivo, considerando nesta análise já o acordo firmado com o setor lácteo da Argentina, que fixou um piso para o valor do leite em pó a ser importado daquele país. Considerando que esse valor vai ficar ao redor de US$ 2.000/ton, isso significa que balizaria um preço doméstico acima de R$ 0,35/litro para o produtor nacional. Para reforçar essa análise não podemos esquecer que mais de 70% das nossas importações de lácteos vem da Argentina.
Portanto, parece que esse movimento forte que resultou no processo antidumping começa a gerar os primeiros resultados concretos. No entanto, caberia ressaltar que essa "barreira" às importações necessariamente deve vir acompanhada de um contínuo incremento na produção doméstica de leite e aumento da nossa eficiência de produção. Caso contrário, continuará faltando produto para abastecer o mercado doméstico, especialmente num cenário favorável ao crescimento da economia brasileira e queda no desemprego. Não podemos esquecer que esse cenário geralmente vem acompanhado pelo aquecimento do consumo de lácteos, tal como aconteceu no início do plano Real, uma vez que os produtos lácteos são altamente sensíveis a um aumento de renda, ou seja, apresentam alta elasticidade renda da demanda. Dessa forma, é importante que a produção nacional continue a crescer a um ritmo de pelo menos 5% ao ano, caso contrário, ao menor sinal de desabastecimento o governo abre as porteiras para o produto estrangeiro com bastante facilidade, pois a palavra mais temida e proibida pelos atuais comandantes do país chama-se inflação.
Colocando essa questão em termos numéricos, um aumento de 5% na produção nacional significaria um aporte de 1 bilhão de litros a mais neste ano de 2001, o que já daria margem a uma substancial substituição do produto importado, isto caso o consumo não aumente de forma muito explosiva.
Apenas para fazer uma ressalva e voltar a um tema debatido no último artigo desta coluna, de nada adianta aumentar a produção de forma desenfreada se isso significar uma inundação de leite na safra e falta do produto na entressafra. Pois o resultado seria uma flutuação signficativa no preço pago ao produtor e conseqüente desestruturação do setor produtivo. Nesse sentido, passa a ser fundamental que se discutam as estratégias para evitar que isso ocorra.
Mas pensando mais no longo prazo, devemos considerar a possibilidade de sermos auto-suficientes em leite. Fazendo um cálculo grosseiro, apenas para efeito de simulação, considerando uma taxa de crescimento da produção de 5% a.a. e um incremento de consumo de 2.5% a.a., chegaríamos a auto-suficiência no início de 2004, de acordo com o seguinte cenário:

Esse cenário só depende da nossa capacidade de aumentar a produção a passos largos (num patamar mínimo de 5%), manter ou melhorar a eficiência de produção (que eu balizaria aqui como uma capacidade de produzir leite a um custo inferior a US$ 0,16/litro) bem como de conter exportações subsidiadas, ou seja, ter competência e jogo de cintura para se posicionar bem no comércio internacional. Ao que tudo indica as perspectivas são animadoras no ambiente internacional, pois a expectativa é de manutenção do mercado aquecido e alta no preço do leite em pó para os próximos anos.
Lógico que todas essa análises são mera conjecturas altamente sensíveis a mudanças em decorrência de modificações no ambiente econômico, tanto nacional quanto internacional. Mas o fato é que vale a pena apostar que o cenário vai ser mais favorável.