Novas fronteiras da produção de leite: a região do norte do Mato Grosso

No Mato Grosso, dentre as atividades agropecuárias, vem chamando cada vez mais a atenção a incrível expansão da atividade leiteira.

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Luis Fernando Laranja da Fonseca

Alta Floresta é uma tradicional cidade situada no Norte do Estado do Mato Grosso, na fronteira com o Pará, e já inserida na exuberante paisagem amazônica. Apesar do pouco tempo de existência, este município fundado em 1974 pelo tradicional colonizador do Mato Grosso, Ariosto da Riva, já se caracteriza como um dos pólos de desenvolvimento do norte mato-grossense. Atualmente o município conta com 50.000 habitantes e tem a sua economia baseada especialmente na agricultura, pecuária e exploração da madeira.

Dentre as atividades agropecuárias, vem chamando cada vez mais a atenção a incrível expansão da atividade leiteira. Os dados oficiais mostram que entre 1996 e 1999 houve um incremento de mais de 10 vezes no volume produzido de leite, cujo valor foi superior a 7,5 milhões de litros no ano de 1999. Algumas estimativas apontam que atualmente a produção diária do município esteja próxima de 30.000 litros, provenientes de aproximadamente 1.400 produtores.

Mas o que surpreende é a taxa de crescimento da produção. Do ano de 98 para 99 a produção oficial de leite duplicou no município. Várias são as explicações para este fenômeno. Conforme aponta a médica veterinária do Ministério da Agricultura e da Prefeitura Municipal de Alta Floresta, Aedir Ribeiro de Souza, "a pecuária leiteira é uma atividade que sustenta a pequena propriedade e é uma das principais fontes de renda do pequeno produtor". A produção leiteira no município é baseada quase que exclusivamente em pequenas propriedades, com áreas totais variando entre 12 e 60 ha, num nítido contraste com as grandes propriedades que se dedicam à pecuária de corte.

Um outro aspecto fundamental e que alavancou a produção leiteira na região foi o programa de fomento criado pela última administração municipal de Alta Floresta chamado "Programa Mais Leite". Dentre as atividades desenvolvidas neste programa destacam-se a difusão da Inseminação Artificial (IA) e o fomento à produção de silagem.

O projeto de difusão da IA envolve desde o fornecimento gratuito de sêmen aos pequenos produtores até a execução do serviço de IA por técnicos treinados e contratados pelo município. Através do programa de fomento à produção de silagem, a prefeitura disponibiliza equipamentos e implementos agrícolas para os produtores através dos núcleos de criadores.

Além dos equipamentos, os produtores recebem orientação técnica gratuita de técnicos especializados da Secretaria da Agricultura do município. Também está planejado o funcionamento do Programa de Saúde Animal, com a montagem do laboratório de análises clínicas veterinárias, que vai realizar, gratuitamente, o exame de brucelose, através do teste rápido de aglutinação e "ring test", exame de tuberculose e teste de lâmina para anaplasmose e babesiose.

A grande maioria dos produtores da região não dispõe de tanques resfriadores de leite, e a ordenhadeira mecânica ainda é um equipamento raro na região. No entanto já há uma intensa movimentação dos produtores no sentido de organizarem-se em associações ou condomínios rurais para aquisição de tanques resfriadores, já tendo em vista a nova legislação de qualidade do leite que deve entrar em vigor no ano de 2002. Além disso, recentemente já se instalou na cidade uma revenda de equipamentos de ordenha, devido à potencial demanda que começa a surgir. Também se especula que haja interesse na instalação de uma nova empresa de laticínios no município e também a captação de leite na região por parte de um dos grandes laticínios brasileiros.

O município conta atualmente com um laticínio instalado e com inspeção oficial do SIF. Além disso outros laticínios da região também captam leite no município. O lacticínio Kayabi, atualmente instalado no município e com apenas 2 anos de existência, capta cerca de 30.000 litros/dia, provenientes de 1.400 produtores. Todo o leite é captado em latões e a matéria-prima destina-se basicamente à produção de leite pasteurizado em saquinho, que é distribuído na região, e mussarela que é distribuída em São Paulo. O preço médio pago aos produtores no ano de 99 foi de R$ 0,20, já descontado o frete.

Quando os frutos desse amplo programa de fomento, promovido pela Prefeitura Municipal começarem a ser colhidos, isto é, melhoramento genético do rebanho, utilização de forragens conservadas na época da seca, melhoria do padrão sanitário do rebanho, associado à utilização de tanques resfriadores comunitários e ordenha mecânica, que vai possibilitar a utilização de duas ordenhas diárias por grande parte dos produtores, a expectativa é que a região se transforme numa sólida e competitiva bacia leiteira, o que consolida o fato de que as áreas de fronteira agrícola são grandes contribuintes para o aumento sistemático da produção de leite no país.


Em entrevista para o MilkPoint, a médica veterinária do Ministério da Agricultura e da Prefeitura Municipal de Alta Floresta, Aedir Ribeiro de Souza, falou sobre os aspectos que envolvem a pecuária leiteira no município - entre eles, a situação sanitária sanidade do rebanho, o perfil dos produtores e o futuro da atividade na região.

MilkPoint: Qual o sistema de alimentação mais utilizado na região (tipos de pastagens, suplementação com grãos, suplementação na seca, cana, silagem)?

Aedir Souza: O principal sistema de alimentação dos produtores de leite da nossa região é o regime de pasto livre, com grandes piquetes, sendo que o principal capim utilizado é a Brachiaria brizantha. Com a introdução do "Programa Mais Leite" da Prefeitura Municipal, começou um trabalho de esclarecimento da importância da complementação da alimentação do gado leiteiro. Sendo assim, em algumas propriedades já começaram a implantar áreas para plantação de cana, milho e napier, e também a usar farelo de arroz e uréia na alimentação. Isso é utilizado principalmente na época da seca, que vai de julho a setembro.

MP: Qual a situação sanitária do rebanho leiteiro na região?

AS: O rebanho leiteiro da nossa região possui um bom aspecto sanitário. Com relação à aftosa o controle é rigoroso e eficiente, atingido altos índices, sendo feito através do Programa de Erradicação da Febre Aftosa do INDEA-MT. Quanto à brucelose, tuberculose e verminoses, foi montado pela Secretaria Municipal de Agricultura, um laboratório de apoio às atividades leiteiras que já estão inseridas no Programa de Inseminação Artificial, que já atingiu mais de 1.000 animais no ano de 1999. A mastite é uma doença que estamos tratando de perto, pois está muito presente em nosso rebanho, causando prejuízos aos pequenos produtores. Para isso estaremos juntamente com a secretaria de Agricultura e a empresa de laticínios do município distribuindo kits de peneira e caneca de fundo preto para os pequenos produtores.

MP: Qual o perfil dos produtores da região?

AS: A população do Município, principalmente a de produtores de leite, são oriundos de outros estados. Possuem nível mais baixo de escolaridade, mas com o trabalho da Secretaria de Educação que levou as escolas até as comunidades rurais, juntamente com a chegada da energia elétrica, a informação se tornou de acesso fácil, conseqüentemente o pequeno produtor se tornou mais exigente com relação às informações técnicas levadas até eles. A produção leiteira em nosso município é feita em pequenas propriedades, que variam de 12 a 60 hectares, que são sítios e chácaras que abastecem o laticínio do município e da região.

MP: Com os produtores estão reagindo ao programa de Inseminação Artificial que está sendo implantado?

AS: A atividade leiteira em nossa região já está alicerçada, pois contamos com vários laticínios. Com isso achamos fundamental a melhoria genética do rebanho. Com esse intuito a prefeitura municipal introduziu o "Programa Mais Leite", que visa levar ao pequeno produtor a Inseminação Artificial, para com isso melhorar as raças produtoras, a melhoria sanitária, a qualidade e a produtividade leiteira. O programa vem tendo boa aceitação por parte dos produtores e pretende atingir no ano 2000 um número significativamente maior de produtores, o que vai resultar num aumento sensível da média de produção dos rebanhos daqui a alguns anos.

MP: Na sua opinião, quais as futuras ações necessárias para incrementar a pecuária leiteira na região e qual o futuro desta atividade em Alta Floresta?

AS: A pecuária leiteira na região tem um futuro brilhante, pois é uma atividade que sustenta a pequena propriedade e é uma das principais fontes de renda do pequeno produtor, e para que isso não acabe não devemos descuidar dos incentivos aos pequenos. Os mesmo deveriam se organizar em associações ou cooperativas, para que possam discutir os problemas enfrentados pela atividade leiteira, para terem mais força ao cobrar dos nossos governantes políticas de incentivo mais definidas, para que tenham mais poder na comercialização do seu produto, lembrando sempre de não descuidar da qualidade e produção de seu leite e rebanho.
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