Marias do leite

Houve um tempo, e não faz muito, que as mulheres tinham quase nenhum valor na sociedade ocidental. Sociólogos e outros estudiosos já analisaram esta questão.

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Paulo do Carmo Martins

Houve um tempo, e não faz muito, que as mulheres tinham quase nenhum valor na sociedade ocidental. Sociólogos e outros estudiosos já analisaram esta questão e encontraram motivações para este comportamento. Por vício, fico com a justificativa econômica. Inserido numa realidade, cujo desafio diuturno era comer e vestir - portanto, vivendo num ambiente em que a força da natureza era risco constante à sobrevivência, o homem detinha uma vantagem comparativa em relação à mulher, pela sua condição de "força-bruta".

Numa sociedade agrária, aonde todas as operações eram manuais, a chegada de um filho era a garantia da expansão da força de trabalho, para aqueles que não detinham terra, ou viviam em pequenas posses. Para as famílias mais abastadas, era a garantia de um defensor dos interesses do clã, frente a um mundo hostil.

Já o nascimento de uma filha era visto sob outro prisma. Seria alimentada e vestida por alguns anos e, a partir da puberdade, surgia o risco potencial da gravidez, o que significaria o aumento da pressão por alimentos no âmbito da família: o risco de mais uma boca a ser alimentada. E o que é pior, ainda havia o problema cultural-religioso gerado: mãe solteira.

Se a mulher não casava, mesmo mantendo-se pudica, tornava-se ônus familiar em toda a sua vida, pois nada teria gerado de riqueza, já que as atividades domésticas não eram consideradas produtivas.

A forma encontrada para estimular a saída da mulher da família foi o binômio dote-enxoval. Sob a ótica econômica, o dote era forma de compensar o pretendente, como estímulo a assumir o ônus que era da família e passaria a ser dele. Já o enxoval significava amortização de custo inicial. E, depois de feito, não havia a possibilidade de se desfazer o negócio (casamento indissolúvel).

Hoje é inegável a importância da mulher como agente produtivo, pois a força física não é mais item valorizado. O que importa é a criatividade, a concentração, a determinação e a sensibilidade. E, nesses pontos, a mulher tende a ser superior ao homem. Veja no caso do leite. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no oeste do Paraná, principalmente nas propriedades familiares típicas, a mulher assumiu papel de total relevância. É ela a responsável pelo manejo dos animais e pela higienização e ordenha, cabendo ao seu parceiro a responsabilidade na produção de alimentos servidos aos animais. Esse é um exemplo típico de especialização da produção, pois leva em consideração as vantagens absolutas de cada um, como propôs o pai de todos os economistas, Adam Smith, há mais de dois séculos. Como conhece o dia-a-dia da atividade, naturalmente ela também participa ativamente na tomada de decisões gerenciais da propriedade.

Essa não é, ainda, a realidade brasileira. De São Paulo, subindo para o norte do país, a mulher participa da atividade, como mão-de-obra, familiar ou contratada. Tem a sua relevância, mas não o valor correspondente. A mulher é a ajuda, mas não a parceira. É a parte, mas a menor parte. E não participa do todo, das decisões. Estas...bem, estas cabem ao homem.

Na parte urbana, este quadro não é tão diferente assim. A mulher vale menos. O IBGE acaba de divulgar dados sobre a condição de emprego da mulher no Brasil. Considerando as dez melhores profissões em termos de remuneração, a mulher perde em todas, mesmo ocupando cargos de idêntica responsabilidade. Um Diretor-Geral de uma empresa, segundo essa fonte, é remunerado, em média, por R$ 6 mil, enquanto que uma Diretora-Geral ganha pouco mais da metade deste valor. E como é difícil para a mulher chegar e se manter em postos de decisão! Sofrem o explícito boicote dos homens. Mas mesmo em profissões tidas como liberais, a discriminação contra a mulher está presente. Uma médica, por exemplo, ganha em média R$ 2.700,00, segundo o IBGE, enquanto um médico é remunerado em R$ 4.200,00. Um atendente de creche, R$ 400,00, enquanto sua colega recebe R$ 200,00.

É provável, contudo, que este quadro se transforme rapidamente. No Brasil, a mulher tem, em média, 7,3 anos de estudo, contra 6,3 anos dos homens. Em termos relativos, é 16% a mais de tempo de estudo em relação ao homem! E a sua chegada ao mercado de trabalho de maneira massiva ocorreu somente há duas gerações! Mas já são chefes em uma entre quatro famílias.

É possível que, neste ponto deste artigo, eu já tenha perdido a grande maioria dos leitores do sexo masculino. Esse é um assunto chato para nós, homens. Leva-nos a pensar no que não queremos. No fundo, sabemos de nossas limitações e da perda progressiva de "nosso" de espaço. Afinal, há quanto tempo não ouvimos ou falamos que por traz de um grande homem tem sempre uma grande mulher? Há quanto tempo, a Amélia não é mais modelo de mulher de verdade?

Mas você, homem, que chegou até aqui, sei que está junto comigo nesta homenagem, neste mês das mães, a todas as mulheres que fazem do leite uma das principais cadeias produtivas brasileiras. Mulheres que estão nas propriedades, como produtoras, técnicas ou gerentes, nas transportadoras, nos laticínios, nos laboratórios, nas universidades e nos institutos de pesquisa. Mulheres que nos formaram e, no momento em que mais precisamos de qualidade nesta cadeia produtiva, vêm cada vez mais ganhar força em nosso meio lácteo. A essas mulheres, as Marias do Leite, uma presença ainda silenciosa, o nosso mais puro e singelo reconhecimento!

E valor!!!!!
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Nereide Carvalho de Souza
NEREIDE CARVALHO DE SOUZA

OUTRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/05/2003

Parabéns e muito obrigado pelo seu reconhecimento. Como você disse, é muito dificil para as mulheres ter reconhecimento e valorizaçao pelo muito que temos contribuido pelo desenvolvimento do mundo em geral.

Você falou do comportamento da sociedade do começo do século passado. Hoje, em pleno terceiro milênio, não tem muita diferença, mudando apenas o foco das atenções. Se no passado não éramos valorizada pela nossa inteligência, hoje menos ainda, porque hoje vejo comportamento muito mais selvagem, só se valorizando a beleza externa da mulher, não se comentando nada sobre as mulheres que estão contribuindo com o nosso presidente, para o desenvolvimento do nosso país. A nossa mídia não têm espaços para essas grande mulheres, porque está com a atenção voltada para as beldades que enfeitam e enche de sonhos e desejos o pobre telespectador, tanto homens como mulheres, que sonham em ser iguais a elas.

O mundo é realmente muito cruel com as mulheres, mas eu não me intimido, e digo para todas que nunca devemos comparar a nossa capacidade e força com os homens, devemos fazer acontecer, sem comparação e sem medo, porque se o homem têm a força bruta, nos temos a força da sutileza, da capacidade de desenvolvermos tôdas as tarefas de igual para igual, somos mais rápidas para pensar e tomar decisões, por que tudo que fazemos está ligado com o sentimento, sabemos lidar com a emoção e razão na mais perfeita harmonia e isto que nos faz mais, mais e mais.

Muito obrigado Paulo. Em tempo, informo que moro atualmente nos EUA, e estou implantando um projeto de produção de leite em uma pequena propriedade rural que tenho aí no nosso Brasil, mais precisamente no municipio de Piracanjuba, GO. Quem sabe um dia você ainda vai ouvir falar sobre mim.

Um abraço

Cordialmente,

Nereide
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