Sistematicamente costumo me questionar se o nosso Brasil tem a cara mais parecida com os EUA ou com a Índia (somos a Belíndia, já dizia Edmar Bacha há 30 anos). E essa dúvida cruel se aplica também à pecuária leiteira.
Confesso que ainda não cheguei a uma conclusão definitiva. No entanto, de uma coisa eu tenho certeza, nós nos espelhamos sempre no modelo americano (ou outro semelhante qualquer com pecuária leiteira "desenvolvida"). E isso vale para traçar perspectivas do nosso setor lácteo e para planejar o nosso futuro. No entanto, talvez fosse pertinente conhecer outros modelos de desenvolvimento de pecuária leiteira que pudessem também servir de referência para nossa análise e quem sabe contribuir com elementos úteis para o planejamento da nossa pecuária leiteira. É com este objetivo que tentarei descrever de forma sucinta um pouco da história da pecuária leiteira da Índia, aliás o maior país produtor de leite do mundo.
Esta história começa na década de 50 quando a Índia sofria com uma crise de escassez de leite e se estende até hoje quando a Índia já consegue abastecer todo o seu mercado doméstico e exporta lácteos até para os EUA.
Para se ter uma idéia da pujança desse crescimento da produção leiteira, em 1968 a Índia produzia cerca de 21 bilhões de litros de leite (exatamente a produção brasileira do ano passado) e atingiu, em 2001 a marca de 80 bilhões de litros produzidos, volume substancialmente maior do que aquele produzido nos EUA (74 bilhões de litros/ano). Isso significa que a produção de leite da Índia vem crescendo sistematicamente a uma taxa de cerca de 5% ao ano, uma das maiores taxas de crescimento da produção a longo prazo do mundo, algo comparável talvez com o que ocorreu no Brasil nesse mesmo período.
Mas o que surpreende nesse processo são as bases que o nortearam. Trata-se de um projeto de longo prazo, definido filosofica e tecnicamente nos mínimos detalhes e que contou com a participação efetiva do Estado. Este projeto tem até nome - chama-se Operation Flood (Operação Inundação) - e foi lançado oficialmente em 1970 sob a coordenação do National Dairy Development Board, que era dirigido pelo Dr. Verghese Kurien, mentor filosófico do projeto.
Na verdade a origem desse projeto de desenvolvimento do setor lácteo antecede o processo formal de criação do NDDB.
Tudo começou em 14 de dezembro de 1946, quando foi fundada oficialmente a AMUL (Anand Milk Union Limited), uma associação de produtores de duas cooperativas comunitárias que processava 250 litros de leite por dia. A criação da AMUL foi o resultado de um movimento de protesto dos pequenos produtores da região de Guajarat, conforme atesta o próprio documento oficial que conta a história da empresa, contra o que eles julgavam uma situação inaceitável de exploração por parte dos intermediários compradores de leite e das empresas privadas de laticínios.
Conforme relata o próprio documento histórico da AMUL:
"As milk is perishable, farmers were compelled to sell milk for whatever they were offered" (como o leite é perecível, os produtores eram compelidos a vender o leite pelo preço que lhes era oferecido).
Conforme este relato, os produtores daquela região (todos pequenos produtores) tinham a sua renda derivada da venda dos produtos agrícolas sazonais e a sua subsistência cotidiana garantida pela venda do leite. No entanto, a indignação com o aviltamento de preços tomou uma proporção tão grande, que eles decidiram criar a sua própria cooperativa para processar e comercializar o leite. Inicialmente a nova cooperativa se concentrou na venda de leite fluido pasteurizado para a cidade de Bombaim. E o sucesso dessa iniciativa foi tão grande que em 1948, decorridos 2 anos de sua fundação, a AMUL já processava 5.000 litros de leite/dia em contraste com os 250 de sua origem e contava com 400 associados, espalhados por várias associações comunitárias. Com o crescimento da produção, começou-se a chegar próximo do ponto de saturação de mercado de Bombaim, especialmente no inverno quando a produção de leite naquela região era quase 2,5 vezes maior do que no verão. Então em 1953, pela primeira vez desde a sua fundação, a AMUL foi obrigada a vender o excedente de sua produção para intermediários ou para outras empresas privadas de laticínios, e logicamente que por um preço novamente bastante aviltado. Em função disso, tomou corpo na AMUL a idéia de transformar o leite em produtos mais elaborados e com maior valor agregado, e assim foi construída em 1955 uma planta para produção de leite em pó e manteiga, que foi expandida em 1958 para produção de leite condensado. Em 1960 foi construída uma nova ala para fabricação de 2.500 toneladas de alimento infantil e 600 toneladas de queijo por ano, projeto que contou com a colaboração do Instituto Central de Pesquisas Tecnológicas em Alimentos (instituição governamental). Isso foi um marco na indústria láctea mundial, pois pela primeira vez na história produzia-se alimento lácteo infantil a partir de leite de búfala em larga escala comercial.
A partir daí, o que era um pequeno empreendimento comunitário tomou uma dimensão nacional e não parou de crescer. Em 1963, a pedido do governo da Índia, foi expandida a capacidade de produção de leite em pó com o intuito de atender a uma demanda especifica das forças armadas do país, e já em 1965 foi construída um nova fábrica com capacidade de produzir 40 toneladas de leite em pó e 20 toneladas de manteiga por dia. Além disso, foi criado em seguida o chamado "Mogar Complex", onde se produz achocolatados, soro de leite e caseína com o objetivo de aumentar o portofólio de produtos com alto valor agregado. Em 1994 foi desenvolvida uma fórmula de produto substituto da manteiga que tem a marca comercial de "Amullite"e que até hoje faz grande sucesso na Índia. Na década de 90 foi construída também um nova planta processadora com capacidade de produzir 60 toneladas de leite em pó e 20 toneladas de manteiga diariamente. E recentemente foi feita a ultima expansão física da empresa, com uma unidade instalada na cidade de Khatraj com a capacidade para produzir 20 toneladas de queijo por dia.
Atualmente a AMUL é uma federação (Gujarat Cooperative Milk Marketing Federation) que engloba 12 cooperativas distritais com cerca de 2 milhões de membro distribuídos em 10.500 associações comunitárias. No ano de 2000 a AMUL processou em média 4,5 milhões de litros de leite/dia e o faturamento anual da empresa foi de 493 milhões de dólares.
Mas o que chama a atenção nessa impressionante história de sucesso não é o crescimento acelerado da sua estrutura física ou de seu volume de venda, mas a filosofia que norteou o empreendimento e que vigora até hoje, que pode ser resumida na seguinte expressão utilizada na empresa:
"Production by the masses, not mass production" (produção pelas massas e não produção em massa).
Essa expressão traduz na essência os objetivos originais da AMUL, que era proporcionar uma renda justa e uma qualidade de vida aceitável aos seus pequenos produtores associados, viabilizando a sua permanência na atividade e do desenvolvimento econômico e social das comunidades rurais. Para compreender esse processo é preciso mergulhar um pouco na realidade dos produtores da região de Gujarat e na situação da Índia. Em primeiro lugar estamos falando de um país com um contingente populacional enorme, com cerca de 1 bilhão de habitantes, algo em torno de 6 vezes mais do que o Brasil, ou seja, uma pressão demográfica violenta. Neste cenário, também preocupa a intensividade do êxodo rural, uma vez que o processo de urbanização acelerado, embora tardio em relação a outras sociedades mais industrializadas, é um fato marcante hoje naquele país. Para se ter uma idéia, em 1995, 25% da população indiana vivia em centros urbanos, e em apenas 5 anos essa cifra mudou aceleradamente chegando a 35% no ano de 2000.
Isso significa uma migração do campo para cidade de cerca de 100 milhões de pessoas em 5 anos. Mas qual a relação desse fenômeno com a pecuária leiteira ? Em primeiro lugar a produção de leite tradicionalmente envolve um grande contingente de pessoas associadas direta e indiretamente com a atividade (produtores, transportadores, funcionários das indústrias, insumos, etc..) e dessa forma exerce potencialmente um papel fundamental de fixação das famílias no campo. Ou seja, viabilizar a permanência dos pequenos produtores na atividade é um tarefa fundamental para a Índia. Veja que estamos falando de um país com cerca de 70 milhões de fazendas produtoras de leite, distribuídas em mais de 500.000 comunidades rurais. Além disso, o êxodo rural gera um aumento de demanda por lácteos nas áreas urbanas do país, pois o cidadão que antes morava no campo e que se abastecia via autoconsumo de leite ou com leite adquirido, trocado ou doado do vizinho, agora precisa se abastecer em um mercado urbano, com um produto potencialmente refrigerado e com qualidade minimamente aceitável. Dessa forma, o aumento da produção de leite é imperiosa, especialmente pela pressão de demanda exercida por uma classe média urbana emergente e crescente na Índia (o número de residências com aparelho de TV aumentou de 23 milhões para 45 milhões entre 1990 e 1995).
Então, é com essa perspectiva em mente que se consolidou o modelo e a filosofia de desenvolvimento da produção de leite na Índia, que propunha a incorporação do maior número possível de produtores no sistema (um modelo de inclusão, em contraste com o modelo de exclusão adotado por exemplo nos EUA, que tiveram o número de fazendas leiteiras reduzido de 3,5 milhões em 1950 para 90 mil no ano de 2000) e o estabelecimento de um canal de escoamento organizado com leite de qualidade (pasteurizado) para os crescentes núcleos urbanos. Pode parecer pouco, mas atualmente 800 cidades das 3.700 já contam com um completo sistema de abastecimento organizado de produtos lácteos. Isso significa que o setor informal, como no Brasil, também é inchado. Estima-se que a informalidade na Índia esteja na faixa entre 70 e 80% da produção total, considerando aqui o auto-consumo e auto-abastecimento nos vilarejos dentro da porção informal (é preciso contextualizar estes dados no cenário de um país com elevadíssima população rural e distribuição altamente fragmentada em pequenas comunidades rurais, que gera um auto-consumo elevado).
Em resumo, para atingir os objetivos propostos que envolviam o aumento da oferta de leite para áreas urbanas do país e proporcionar a fixação dos produtores no campo esse projeto se baseou na:
- capilarização da coleta de leite, buscando a matéria-prima onde ela estivesse sendo ofertada, independentemente do volume e das condições.
- Estabelecimento de um sistema de logística complexo, para captação da matéria-prima (envolvia um sistema capilarizado que começava com o transporte de pequenos volumes através de bicicletas, tração animal e cavalo dentro das comunidades rurais e destas em pequenos caminhões ou caminhonetes até entrepostos de resfriamento e destes em caminhões tanques até as indústrias) e escoamento de produtos processados (através do planejamento centralizado de forma a escoar os produtos de determinada fábrica para os centros urbanos mais próximos).
- Adoção do sistema cooperativo como base do setor produtivo, de forma a proporcionar o máximo retorno financeiro aos associados produtores de matéria-prima, eliminando-se os intermediários.
- Estabelecimento de um mecanismo democrático e participativo nas comunidades, de forma a garantir o funcionamento do plano e viabilizar o fluxo constante e organizado da matéria-prima.
Esse projeto que foi idealizado pelo Dr. Kurien em 1946 com a fundação da pequena AMUL, mostrou-se altamente efetivo e deu origem ao que se denominou ANAND MODEL, que foi seguido por várias outras cooperativas nos anos subseqüentes e deu origem a um dos mais fenomenais projetos de desenvolvimento da pecuária leiteira que sem tem notícia, o "Operation Flood", que foi iniciado em 1970 em âmbito nacional na Índia, adotado como modelo oficial de desenvolvimento, patrocinado e financiado por instituições tais como o Banco Mundial, União Européia e FAO. Mas a história do "Operation Flood" fica para a próxima coluna.
Leite na índia: a história de um modelo alternativo de desenvolvimento que deu certo
Sistematicamente costumo me questionar se o nosso Brasil tem a cara mais parecida com os EUA ou com a Índia. E essa dúvida cruel se aplica também ao leite.
Publicado por: Luis Fernando Laranja da Fonseca
Publicado em: - 9 minutos de leitura
Material escrito por:
Luis Fernando Laranja da Fonseca
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LEOVEGILDO LOPES DE MATOS
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 04/03/2002
Parabéns ao MilkPoint por publicar as informações importantes e análise elucidativa do Prof. Laranja sobre a pecuária leiteira na Índia. Eu sempre comparo as estatísticas apresentadas pelo "primeiro mundo", que se recusa a listar os dados de produção de leite da Índia, maior produtor mundial, e do Paquistão, 5<sup>o</sup> colocado, talvez por temer que o mundo possa descobrir que existem modelos de desenvolvimento da pecuária leiteira diferentes e bastante distintos daqueles recomendados pelo Hemisfério Norte, com seus insumos e empresas de exportação. Parabéns novamente.

MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO
CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/02/2002
O professor Laranja nos apresenta um interessante artigo sobre o desenvolvimento da produção de leite na India, que merece reflexão.
O artigo mostra que em 2001 foi atingida uma produção de 80 bilhões de litros (abastece o mercado interno e excedentes exportados para os EUA), através de 70 milhões de fazendas produtoras, o que daria uma média diária 3,13 litros por produtor.
Gostaria de saber deste total o número de produtores que efetivamente exploram comercialmente o leite (excluido auto consumo) e o total da produção de leite comercializada por estes produtores. Gostaria de ter mais informações sobre o sistema de coleta deste leite e do sistema logístico de captação da matéria prima que será industrializada.
Gostaria também de ter mais informações do sistema cooperativo utilizado, principalmente do mecanismo democrático e participativo utilizado para assegurar o sistema e garantir o fluxo constante e organizado da matéria prima.
<i> Comentário MilkPoint: estamos entrando em contato com o Prof. Laranja e assim que tivermos as informações solicitadas, publicaremos neste espaço. </i>
O artigo mostra que em 2001 foi atingida uma produção de 80 bilhões de litros (abastece o mercado interno e excedentes exportados para os EUA), através de 70 milhões de fazendas produtoras, o que daria uma média diária 3,13 litros por produtor.
Gostaria de saber deste total o número de produtores que efetivamente exploram comercialmente o leite (excluido auto consumo) e o total da produção de leite comercializada por estes produtores. Gostaria de ter mais informações sobre o sistema de coleta deste leite e do sistema logístico de captação da matéria prima que será industrializada.
Gostaria também de ter mais informações do sistema cooperativo utilizado, principalmente do mecanismo democrático e participativo utilizado para assegurar o sistema e garantir o fluxo constante e organizado da matéria prima.
<i> Comentário MilkPoint: estamos entrando em contato com o Prof. Laranja e assim que tivermos as informações solicitadas, publicaremos neste espaço. </i>

LESLIE SCARPELLI
SÃO PAULO - SÃO PAULO
EM 20/02/2002
Parabéns Laranja pelo artigo. Apesar do curto tempo de convívio que possuo no setor lácteo, quando comparado à você com sua prudente sabedoria, poderia dizer que aquilo que falta para melhorar a situação aos cooperados chama-se UNIÃO. Reeducar o mercado leiteiro com novas tendências é muito mais fácil que unir os envolvidos em uma ação mais pragmática que filosófica.
Até o próximo aprendizado.
Até o próximo aprendizado.