Prezado companheiro ligado ao setor lácteo brasileiro, você saberia responder de bate pronto a seguinte pergunta: "Qual é a cidade brasileira intitulada capital do leite?"
Até bem pouco tempo atrás eu ficaria em dúvida, mas há 3 dias descobri a resposta, trata-se de Nova Canaã-MT. Pelo menos é isso que está escrito numa imensa placa no trevo de acesso à cidade.

Nova Canaã é uma pequena cidade localizada no extremo norte do Mato Grosso, na entrada da floresta amazônica, numa região de colonização recente e que foi "aberta" há não mais de 25 anos. E quando se fala "aberta" por aqui, refere-se ao fato de que até então só havia uma densa floresta por estas bandas. Ou seja, isto é que se pode chamar de "nova fronteira agrícola brasileira". Só para localizar o leitor, estamos falando de uma cidade distante mais de 700 km de Cuiabá, cujo acesso se dá pela rodovia Cuiabá-Santarém, aliás completamente asfaltada até aqui e em condições até que bastante razoáveis.
A região do Mato Grosso ao norte de Cuiabá foi colonizada em meados da década de 70 e foi inundada por colonos majoritariamente oriundos do PR e RS. Há cerca de 5-10 anos a região começou a se transformar num pólo altamente tecnificado de produção de soja e milho, ocupando grande parte do cerrado mato-grossense. Isto vale pelo menos para a região que se estende de Cuiabá até Sinop, distante cerca de 500 km da capital. Já mais ao norte, onde se localiza Nova Canaã e Alta Floresta (da qual falaremos em seguida), a cultura da soja e do milho não se expandiu, principalmente devido às limitações climáticas e de solo, uma vez que ao caminhar para o nortão do MT atingimos a região pré-amazônica, com características não adaptadas à monocultura comercial. Nesta região, também colonizada há menos de 25 anos, a economia está baseada no binômio madeira/pecuária de corte. Para se ter uma idéia, Alta Floresta-MT abriga hoje o maior rebanho bovino do MT com um total de 500 mil cabeças de gado.
Até aqui a história parece absolutamente tradicional em se tratando da expansão da fronteira agrícola brasileira. No entanto, o que surpreende aos novos visitantes mais atentos e curiosos como eu, é a incrível expansão da pecuária leiteira nesta região. Para se ter uma idéia, rodando desde Sinop até Alta Floresta (300 km) passei por 4 laticínios bem estruturados localizados todos às margens da rodovia. Pesquisando informalmente mais detalhes sobre o setor leiteiro da região, fui informado de que há pelo menos mais 1 laticínio operando nesta área e o projeto de construção de mais um novo laticínio. Considerando que a captação média de cada laticínio, segundo as informações, gira em torno de 30 mil litros de leite/dia, estamos falando de um total de 150 mil litros de leite captados por dia num eixo bem definido de 300 km de rodovia no norte do MT. Mas esse não é o dado que mais impressiona. O que espanta mesmo é o ritmo de expansão da produção de leite na região. Segundo dados da Secretaria da Agricultura de Alta Floresta, a produção de leite neste município aumentou 12 vezes entre 1996 e 2000. E nos últimos dois anos a taxa de crescimento anual da produção foi superior a 50%.

Durante minhas viagens a Alta Floresta, nos últimos 18 meses, tive a oportunidade de compreender um pouco melhor a realidade do setor leiteiro desta região e a lógica da sua expansão. Como veremos, em um texto que reproduzo abaixo, a pecuária leiteira está calcada basicamente na pequena propriedade familiar, e ao analisar-se essa estrutura dá para perceber a conveniência da produção de leite para esses milhares de pequenos produtores, especialmente no que diz respeito à formação da sua renda. Considerando que as atividades principais da região estão ligadas à extração de madeira e à produção de gado de corte extensiva, tais produtores não têm escala para se adequar a nenhuma dessas atividades. Além disso, parte das propriedades rurais já começa a se fragmentar devido à sucessão familiar ou à venda de parte da área para formação de renda. Dessa forma, considerando que o valor da terra é baixo e que o mesmo provavelmente já foi amortizado (terra própria já paga) e que o custo da mão-de-obra é baixo uma vez que esta é familiar e com custo de oportunidade irrisório, nada mais lógico do que produzir leite, de forma extensiva a pasto e com gado cruzado. Neste sistema há uma geração de renda constante com o leite além de um adicional da venda dos machos que são recriados para engorda. Some-se a isso alguns incentivos organizados por parte do poder público local. O fato é que dadas todas as circunstâncias, a pecuária leiteira se expande, e mais do que isso, se consolida nesta nova fronteira agrícola. E, nesse processo, é óbvio que alguns produtores se destacam, por razões particulares diversas, crescem, viram referência e ajudam a perenizar essa nova atividade econômica.

Para finalizar, gostaria de afirmar, baseado nos fatos observados "in loco" e nas minhas impressões subjetivas, que esta nova atividade veio para ficar e não é um mero evento passageiro. Julgo que a pecuária leiteira irá se consolidar e expandir neste rincão, da mesma forma como ocorreu em fronteiras agrícolas mais "antigas" como Goiás, que hoje se consolida como o segundo maior estado produtor de leite do país. Hoje, as novas fronteiras estão no Mato Grosso, Tocantins, Rondônia e Pará, como tive a oportunidade de verificar "in loco" durante viagem de 10 dias ao interior deste último Estado. É importante frisar, neste encerramento, que o preço do leite pago aos produtores é sensivelmente mais baixo do que nas praças centrais do país, mas isso não é suficiente para frear a expansão da bacia leiteira e o ânimo dos novos produtores, pois a estrutura que sustenta essa atividade agropecuária por aqui apresenta sutilezas e peculiaridades muito próprias. Aliás, ao me deparar com esta realidade, percebo que a pecuária leiteira deste país continental apresenta facetas desconhecidas por muita gente bem conceituada... Como estudioso da questão da qualidade do leite, outro dia me deparei pensando a respeito de como o chamado PNMQL, caso seja efetivamente regulamentado, irá vigorar por aqui em 2002. Só em Alta Floresta existem cerca de 1.500 produtores de leite e nenhum deles, volto a frisar, nenhum, possui tanque resfriador de leite e a única coisa que posso garantir é que :
1) nos próximos dois anos a grande maioria desses produtores não vai instalar tanque resfriador (até porque não há energia elétrica disponível em grande parte da área rural)
2) essa massa de produtores não vai abandonar a atividade leiteira, com portaria aprovada ou não, tanto faz...
....o que não "tanto faz" é que a pecuária leiteira passou a ser uma alternativa de renda, emprego, sobrevivência e dignidade para muitas famílias neste sertão de um país que tem muita pobreza e indignidade e mais um montão de leite, decretos e portarias criados nos gabinetes e escritórios de gente muitas vezes não muito digna, como mostram as últimas cenas lamentáveis do nosso congresso nacional.